Líderes de inteligência, vontade e coração
As virtudes humanas nascem do exercício da vontade dirigida pela razão, e a tradição judaico-cristã acrescentou a essa dupla um terceiro termo: o coração. Coração aqui não significa sentimento passageiro, e sim a pessoa inteira naquilo que a orienta. Ele não apenas sente, também conhece e deseja, e é nele que a inteligência e a vontade se encontram. Daí a tese antropológica do capítulo: força de vontade não vem só de disciplina, vem de um senso moral enraizado no coração, e a excelência exige contemplar o que é bom e belo, porque ninguém se move para o que não achou desejável.
O terceiro termo
O ponto de partida é clássico: as virtudes humanas emergem do exercício da vontade dirigida pela razão, e Pieper resume a dependência dizendo que só pode fazer o bem quem sabe como as coisas são. A contribuição própria da tradição judaico-cristã, diz Havard, foi acrescentar a essa dupla o coração, e é preciso entender bem o que a palavra significa aqui.
Não é um sentimento passageiro de alegria ou de tristeza, e sim a pessoa inteira: síntese e fonte, expressão e fundamento último dos pensamentos, das palavras e das ações. É a personalidade enquanto dirige todo o ser, alma e corpo, àquilo que considera o seu bem. Por isso um homem vale o que vale o seu coração.
A consequência é que o coração não apenas sente: também conhece e deseja. É força espiritual, e não o reservatório emocional que os gregos antigos imaginavam. Nele o intelecto e a vontade se encontram. Havard recolhe de Jérôme Lejeune a formulação mais direta disso: a inteligência não é máquina abstrata, é encarnada, e a razão nada é sem o coração.
A sabedoria do coração
Daí uma afirmação que surpreende quem espera das virtudes intelectuais pura frieza analítica: para praticar a prudência é preciso mais do que lógica e conhecimento científico. Pieper sustenta que a realidade se entrega apenas à forma mais alta de conhecimento, que é ver, intuir, contemplar.
Por isso a prudência é às vezes chamada sabedoria do coração, e o sentido disso é preciso: o amor torna a inteligência mais penetrante, para que sirvamos melhor os que amamos. O amor pode ser cego, observa Havard, mas paradoxalmente também aguça a visão e a capacidade de discernir o que é justo.
A lista que vem em seguida é o coração do capítulo, e mostra como cada virtude é movida por um senso moral que não se confunde com disciplina.
Ser ferido pela beleza
Se a virtude precisa ser desejada, e não apenas decidida, então alguma coisa precisa despertar o desejo. É o que o capítulo chama de contemplação: cuidar do coração contemplando o que é bom, grande e nobre, e alegrar-se com isso, porque a visão do belo faz a alma criar asas, na imagem de Platão que Havard recolhe.
Dietrich von Hildebrand fornece a formulação que dá nome à seção: sempre que um raio de beleza, de bondade ou de santidade fere o nosso coração, e nos abandonamos em repouso contemplativo diante de um valor verdadeiro, esse valor pode penetrar-nos inteiros e elevar-nos acima de nós mesmos.
Havard dá dois exemplos de pessoas assim feridas. Um físico russo que, ao ler o relato de Soljenítsin sobre um dia na vida de um preso comum no Gulag, sentiu-se moralmente obrigado a escolher entre o bem e o mal, e guarda até hoje a data exata em que mudou de vida. E um amigo do autor que, preso pelos nazistas aos vinte anos e gravemente doente num campo, foi cuidado por dois jovens prisioneiros russos que o trataram com total desprendimento e risco próprio; no sacrifício deles descobriu a vocação ao sacerdócio.
Amor e sentimentalismo
O capítulo se protege então do mal-entendido oposto. Se o intelecto não é computador e a vontade não é motor, o coração também não é berço de sentimentalismo. As paixões só são autênticas quando assumidas pelo intelecto e pela vontade, e é então que se tornam impulsos maduros e estáveis.
O amor amadurece quando se apoia numa decisão livre e informada de amar, entendida como compromisso escolhido de sacrificar-se pelo outro, nas boas e nas más. O sentimentalismo busca o sentimento agradável enquanto ele durar: o sentimentalista está disposto a servir, mas só enquanto o serviço lhe devolver alguma satisfação.
Vem então a advertência final contra as três reduções possíveis. Os racionalistas elevam a mente acima de tudo, os voluntaristas a vontade, os sentimentalistas o coração, e cada uma dessas vias corrompe as três potências ao mesmo tempo, deixando as pessoas infelizes, ineficazes no trabalho e incompetentes no convívio. Contra isso, Havard pede que se insista na unidade antropológica da virtude.
O fecho do capítulo, e da parte, é o método em três passos que resume tudo o que se disse até aqui sobre como crescer.
Ubi enim est thesaurus tuus, ibi est et cor tuum.
Pois onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração.
Razão, vontade e coração não se separam sem estragar as três. O coração, aqui, não é sentimento solto: é a pessoa inteira no que ela quer, e é ele quem conhece e deseja antes de a vontade executar. Por isso força de vontade não basta, e cada virtude tem o seu motor próprio, o senso de honra movendo a coragem, o senso de Deus movendo a humildade. E o crescimento tem três tempos: contemplar o bem até desejá-lo, discernir o que fazer agora, e repetir o ato até virar hábito.