Liderança Virtuosa
HavardParte IIICap. 2
Parte III · Não se nasce líder, chega-se a líder · Capítulo 2

Somos o que fazemos habitualmente

Essência

Virtude é hábito, e como todo hábito adquire-se por repetição. Disso decorrem duas coisas que consolam e uma que exige. Consolam: um ato covarde não faz de ninguém um covarde, e a virtude, uma vez firmada, não se perde de um dia para o outro. Exige: alguns atos virtuosos não somam uma vida virtuosa, e é na vida ordinária, e não nas ocasiões extraordinárias, que a virtude se prova. O capítulo então mede o peso de três coisas que se costuma culpar, o temperamento, a educação e o ambiente, e conclui que nenhuma delas determina: liderança é questão de caráter, e caráter é o que fazemos com o que recebemos.

repete-se o ato
o ato vira hábito
o hábito imprime caráter sobre o temperamento
e o temperamento deixa de mandar
porque quem manda passa a ser a pessoa

A virtude é hábito

O princípio é simples e as consequências não são. Quem age com coragem repetidamente acaba agindo assim por hábito; o mesmo vale para a humildade e para as demais. Havard observa que a necessidade da repetição às vezes é abreviada por circunstâncias que forçam escolhas heroicas, e dá o exemplo de Karol Wojtyla, cujo caráter se forjou durante a ocupação da Polônia.

Quanto mais se pratica, mais a virtude se torna parte estável do caráter, e daí vem a consequência que serve de consolo para quem examina a própria vida: ninguém perde um hábito de um dia para o outro, e um ato covarde não faz de alguém um covarde. A vida virtuosa estabiliza a conduta, torna a pessoa menos suscetível aos estímulos externos e mais senhora da própria vida.

Virtude não é talentoa distinção que o capítulo insiste

Talento é algo que se usa quando é necessário. A virtude está presente em todas as circunstâncias, porque deixou de ser algo que se tem e passou a ser aquilo que se é.

Segue-se o critério mais exigente do capítulo. Como virtude é hábito, alguns atos virtuosos não constituem uma vida virtuosa, e por isso a vida das pessoas admiráveis deve ser considerada por inteiro antes de se decidir quem merece ser imitado. Procuram-se os grandes feitos, sim, mas importa mais a conduta sustentada ao longo de uma vida, na esfera pública e na privada.

Escrivá fornece a imagem que fixa onde a virtude se prova, a de um teclado desigual, que soa bem nas notas agudas e nas graves e emudece nas do meio, que são justamente as da vida ordinária e as que as pessoas costumam ouvir. É aí, e não nas ocasiões extraordinárias, que a virtude precisa ser habitual.

O peso do temperamento

Aqui está a tese que dá título ao capítulo e sustenta o livro. A personalidade humana compõe-se de temperamento e caráter, e os dois não se confundem.

Temperamento e carátera distinção central do livro

Temperamento é o que a natureza nos dá: o padrão de inclinações e reações que procede da constituição fisiológica, e que pode ser colérico, melancólico, sanguíneo ou fleumático. Nascemos com ele e morremos com as suas qualidades e defeitos. Caráter é o que as virtudes imprimem sobre esse temperamento, e a palavra vem do grego charaktér, a marca gravada numa moeda.

Daí a formulação decisiva: liderança é questão de caráter, não de temperamento. Havard sustenta isso mostrando que todos os temperamentos estão representados entre os homens que o livro vinha apresentando, dos coléricos aos fleumáticos, e que dois dos seus exemplos maiores, Schuman e Darwin Smith, eram tímidos por natureza e compensaram isso com audácia extraordinária.

O temperamento pode facilitar algumas virtudes e dificultar outras, e é por isso que a receita é assimétrica: quem é fleumático trate de praticar magnanimidade e audácia; quem é colérico, domínio de si e humildade. O que não se admite é a desculpa, e Escrivá a desmonta numa frase que o capítulo recolhe: quem diz que é assim mesmo, que é o seu caráter, está na verdade confessando falta de caráter.

A conclusão vale como diagnóstico: o temperamento não é obstáculo à liderança. O obstáculo real é a falta de caráter, que esvazia a energia moral e, no limite, rouba a liberdade.

O peso da educação e do ambiente

As duas outras desculpas comuns recebem o mesmo tratamento. Sobre a educação, Havard reconhece a influência dos pais e nega que ela determine, e o argumento é empírico: não é raro que filhos criados na mesma casa exerçam a liberdade de modos opostos e se tornem pessoas muito diferentes. Ele cita casos de irmãos que seguiram caminhos incomparáveis, inclusive um par russo em que um se tornou organizador do terror revolucionário e o outro herói da Resistência francesa. A conclusão é lapidar: não somos produto da nossa educação, e sim das nossas escolhas pessoais.

Sobre o ambiente, o reconhecimento é igualmente honesto. Numa sociedade entregue à sensualidade custa cultivar o domínio de si; numa que premia a reticência custa ser sincero; numa que só confia no que é matematicamente demonstrável custa ser prudente. É difícil viver virtuosamente no contexto de hoje, difícil e não impossível, porque a capacidade de dizer não devolve à pessoa o poder de decidir em que medida se deixará afetar.

Nota bene

O exemplo é de família. Três irmãs russas exiladas em 1920, com a mesma educação recebida em casa, chegaram juntas à Paris dos anos vinte e reagiram de três maneiras ao mesmo ambiente: uma abraçou o hedonismo, outra encolheu no modo de sobrevivência depois de adoecer, e a terceira, avó do autor, casou-se com um emigrado que chegara sem nada e viveu servindo a família, os amigos, Deus e a pátria até os noventa e seis anos. Mesmo ambiente, três destinos. O ambiente não determina; o caráter decide.

Pontos-chave
Virtude é hábito e se adquire por repetição; circunstâncias extremas podem abreviar o processo, não substituí-lo.
Ninguém perde um hábito de um dia para o outro, e um ato covarde não faz de alguém um covarde.
Alguns atos virtuosos não somam uma vida virtuosa: julga-se uma vida pelo conjunto, não por episódios.
A virtude não é talento usado quando convém; está presente sempre, porque passou a ser o que a pessoa é.
É na vida ordinária, nas notas do meio do teclado, que a virtude precisa soar.
Temperamento é dado pela natureza e não muda; caráter é o que as virtudes imprimem sobre ele.
Liderança é questão de caráter, não de temperamento: todos os temperamentos estão representados entre os líderes.
Dizer que se é assim mesmo, que é o próprio caráter, é confessar falta de caráter.
Não somos produto da educação recebida, e sim das escolhas que fazemos.
O ambiente pode dificultar a virtude, nunca impedi-la, porque sempre resta o poder de dizer não.
Para reter

Virtude é hábito: nasce da repetição e não se perde num dia, de modo que um ato covarde não faz um covarde, e alguns atos bons não fazem uma vida boa. Ela se prova nas notas do meio do teclado, que são as da vida ordinária. Temperamento a gente recebe e não troca; caráter é o que as virtudes gravam sobre ele. Por isso a desculpa não vale: dizer que se é assim mesmo é justamente confessar a falta de caráter, e nem a criação nem o ambiente decidem o que decidimos nós.

Fonte · We Are What We Habitually Do
← Anterior
Aretologia: a ciência da virtude
Próximo →
A unidade das virtudes