A unidade das virtudes
Nenhuma virtude cresce sozinha. Quem trabalha uma delas move o edifício inteiro, porque cada uma está entretecida com as outras, e a prudência ocupa nisso um lugar especial: é ela que distingue, em cada caso, a audácia da temeridade, a magnanimidade da soberba, a humildade da pusilanimidade. Mas a dependência é recíproca, já que só quem é corajoso, temperante e justo consegue julgar com acerto. Não é círculo fechado, é espiral que sobe. Daí também a recusa de separar virtude pública de virtude privada: quem não é prudente nem temperante dificilmente será justo, e a história mostra o que sai disso.
Como as virtudes se sustentam
O capítulo abre com uma tese de economia moral: ao me esforçar por desenvolver uma virtude, desenvolvo todas as outras. Havard demonstra isso por dois caminhos. Quem governa as próprias emoções ganha objetividade para decidir bem e reservas de energia para manter o rumo, e tendo o coração livre de apegos desordenados, dedica-se mais facilmente a tarefas nobres e serve com mais simplicidade. Quem vive habitualmente na verdade percebe melhor os dons que recebeu, identifica os próprios preconceitos e atenta às responsabilidades que tem.
A consequência animadora vem em seguida: essa unidade permite cultivar com facilidade qualidades que a pessoa nem imaginava ter, do mesmo modo que a um homem já rico não custa enriquecer mais. Quem é verdadeiramente humilde já possui, em potência, a magnanimidade.
O lugar da prudência
Entre todas, a prudência encarna essa unidade de modo próprio, porque é ela que permite, em cada situação concreta, separar a virtude daquilo que se parece com ela. A lista que Havard oferece é das mais úteis do livro, e funciona como instrumento de exame.
Pieper é chamado para dizer o quanto isso significa, descrevendo a prudência como causa, raiz, mãe, medida, preceito, guia e protótipo de todas as virtudes éticas. Mas o capítulo imediatamente completa a afirmação pelo outro lado, e é aí que está o seu ponto mais fino: se nenhuma virtude se desenvolve sem prudência, a prudência também não se desenvolve sem as demais. Só quem tem coragem, domínio de si e justiça consegue ser prudente, porque, como Aristóteles já dizia, é ao homem bom que a verdade das coisas se manifesta.
Se a prudência precisa das outras virtudes e as outras precisam dela, poderia parecer um círculo vicioso. Havard responde que não é círculo fechado e sim espiral ascendente, em que coração, intelecto e vontade se alimentam continuamente uns aos outros e o conjunto sobe.
Não há virtude pública separada da privada
A segunda metade do capítulo tira disso uma consequência política. Não existe nação virtuosa, família virtuosa nem organização virtuosa: só existem indivíduos virtuosos. E no entanto, acrescenta Havard, a virtude abomina o individualismo, porque ninguém se torna melhor isolado. Se sou corajoso, é provável que tenha visto coragem em meus pais, amigos ou colegas, e quando ajo com coragem estimulo outros a fazer o mesmo. Por isso toda virtude vivida tem dimensão social.
Daí a recusa da separação entre virtudes públicas, que certas correntes exaltam, e privadas, que desprezam. A distinção não se sustenta porque a justiça, que seria a virtude pública por excelência, está amarrada a todas as outras: quem não é prudente, corajoso e temperante dificilmente será justo.
Os dois exemplos que ilustram isso vêm do Evangelho e são bem escolhidos porque mostram a justiça corrompida por vícios distintos. Pilatos não encontrou fundamento nas acusações e ainda assim mandou açoitar o acusado, no que Havard chama de lógica do covarde. E Herodíades pediu a cabeça do Batista porque ele insistira que mudasse de vida, no que ele chama de justiça do libidinoso. Em ambos os casos falta uma virtude que parecia não ter relação com a justiça, e a justiça desaba.
Nota do editor. A tese deste capítulo tem nome próprio na tradição, a conexão das virtudes, e é doutrina firme: as virtudes morais perfeitas são interligadas e não subsistem sem a prudência, porque é ela que escolhe retamente os meios para os fins que as virtudes morais estabelecem (Suma Teológica, I-II, q. 65, conferido na fonte). Vale registrar um acréscimo que Havard não faz aqui e que será decisivo na Parte VI: na mesma questão, Santo Tomás sustenta que as virtudes morais infusas não subsistem sem a caridade, que é o que ordena a vontade ao fim último. A unidade natural das virtudes tem, portanto, uma contraparte sobrenatural.
As virtudes não se compram avulsas. Quem exercita uma move o conjunto, e a prudência é a que separa, em cada caso concreto, a virtude do que se parece com ela: audácia de temeridade, magnanimidade de soberba, humildade de covardia. Mas ela própria não amadurece sem as outras, porque a verdade se manifesta ao homem bom. Não é círculo vicioso, é espiral que sobe. E não há virtude pública sem a privada: quando falta a temperança ou a coragem, a justiça é a primeira coisa a desabar.