Liderança Virtuosa
HavardParte IAbertura
Parte I · Grandeza e serviço · Abertura

Grandeza e serviço

Essência

Duas virtudes definem o líder, e é preciso tomá-las juntas. A magnanimidade é a tensão do espírito para coisas grandes, e repousa numa confiança firme nas mais altas possibilidades da natureza humana. A humildade é o hábito de viver na verdade sobre a própria condição e sobre as próprias forças e fraquezas, e traz consigo o hábito do serviço aos que estão perto e aos que estão longe. Da humildade nasce a ambição de servir sem condições. O título da parte já diz que as duas não se separam: a grandeza que não serve é vaidade, e o serviço que não aspira a nada é pusilanimidade.

a alma se estende para coisas grandes
porque confia no que a natureza humana pode
e ao mesmo tempo se conhece na verdade
do que sabe de si nasce a vontade de servir
e é servindo que a grandeza se cumpre

As duas virtudes que definem o líder

O livro não começa por técnicas de governo nem por traços de temperamento, mas por duas virtudes. A primeira é a magnanimidade, que a tradição define como a extensão da alma para as coisas grandes. Quem é magnânimo tem consciência daquilo de que é capaz e se põe a caminho para corresponder-lhe. Não se trata de estima de si, e sim de uma confiança bem fundada naquilo que a natureza humana alcança quando é levada a sério.

Magnanimitas importat extensionem animi ad magna.

A magnanimidade importa uma extensão da alma para as coisas grandes.

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 129, a. 1

O vício oposto tem nome próprio na tradição grega, e Havard o recolhe: à megalopsychia, a alma grande, opõe-se a micropsychia, a alma pequena, que em latim se diz pusilanimidade. O pusilânime não é aquele que fracassa em coisas grandes; é aquele que não chega sequer a concebê-las, porque a ideia de que a vida tem um fim elevado lhe é estranha.

Magnanimidadeprimeira virtude da essência

A tensão do espírito para coisas grandes, fundada na confiança nas mais altas possibilidades da natureza humana. Não é ambição de honra nem consciência de mérito próprio, mas disposição habitual de corresponder àquilo a que se é chamado.

A segunda é a humildade, e Havard detém-se nela porque é a mais mal compreendida das virtudes. Não é timidez, não é rebaixamento, não é a recusa de reconhecer o que se tem. Recolhendo Josef Pieper, o livro lembra que a humildade não é primariamente uma postura do homem diante de outro homem: é a atitude do homem diante da face de Deus. Por isso ela se define como o hábito de viver na verdade, e a verdade aqui tem duas faces, a da condição metafísica de criatura e a das próprias forças e fraquezas, tomadas sem exagero para nenhum dos lados.

Humildadesegunda virtude da essência

O hábito de viver na verdade sobre a própria condição de criatura e sobre as próprias forças e fraquezas, do qual nasce o hábito do serviço à família, aos amigos, aos que trabalham conosco, à sociedade e a todos os homens.

Por que as duas, e nunca uma só

Está aqui a razão do título desta parte. A magnanimidade sozinha produz o homem que quer coisas grandes para si, e a história conhece bem essa figura. A humildade sozinha, mal entendida, produz o homem que não quer nada e chama a isso virtude. Uma sem a outra deforma. Tomadas juntas, a visão magnânima encontra a sua direção: as coisas grandes a que o líder aspira são grandes porque servem, e o serviço deixa de ser subserviência porque nasce de uma alma que sabe do que é capaz.

Quicumque voluerit inter vos maior fieri, sit vester minister.

Todo aquele que entre vós quiser tornar-se maior, seja o vosso servo.

Mateus 20, 26, Vulgata Clementina

A sentença do Evangelho não opõe a grandeza ao serviço, e sim os une numa ordem: quem quer ser maior, sirva. É essa ordem que a Parte I desdobra, e é dela que vem a expressão que dá nome à humildade nesta leitura, a ambição de servir.

O plano da parte

Três capítulos. Os dois primeiros expõem cada uma das virtudes da essência; o terceiro trata do que é preciso recusar para que ambas tenham lugar, porque em cultura marcada pelo egoísmo elas não crescem sem resistência deliberada.

Os três movimentos
1
Magnanimidadecapítulo 1, o sentido de missão: os meios proporcionados aos fins, os objetivos pessoais elevados, e os exemplos que o livro recolhe
2
Humildadecapítulo 2, a ambição de servir: a inclusão no governo, a colegialidade nas decisões, o princípio da continuidade e a motivação altruísta
3
Saber dizer nãocapítulo 3, a recusa deliberada das correntes que dissolvem as duas virtudes, a começar pelo imanentismo e pelo indiferentismo que dele nasce
Nota bene

As duas virtudes desta parte são a essência da liderança, aquilo que lhe é próprio. O fundamento vem depois, na Parte II, com as quatro virtudes cardeais. A imagem que o livro emprega é a da construção: a essência dá a especificidade, e as cardeais são os pilares que a sustentam.

Pontos-chave
A liderança se define por virtudes, não por técnicas de governo nem por temperamento.
Magnanimidade é a extensão da alma para coisas grandes, apoiada na confiança nas mais altas possibilidades da natureza humana.
O seu contrário é a pusilanimidade, que não fracassa em coisas grandes porque nem chega a concebê-las.
Humildade é viver na verdade sobre a própria condição e sobre as próprias forças e fraquezas, e é primeiro uma atitude diante de Deus.
Da humildade nasce o hábito do serviço, que o livro chama de ambição de servir.
As duas se exigem mutuamente: separadas, uma vira vaidade e a outra covardia.
A parte tem três capítulos: cada virtude no seu, e a recusa das correntes contrárias no terceiro.
Para reter

Duas virtudes fazem o líder, e só valem juntas. Magnanimidade: a alma se estende para coisas grandes porque confia no que a natureza humana pode. Humildade: a alma vive na verdade do que é e do que pode, e daí lhe vem a ambição de servir. Quem quiser tornar-se maior, seja servo. Essa é a essência; os pilares vêm na parte seguinte, com as virtudes cardeais.

Fonte · Part One, Greatness and Service
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