Magnanimidade: o sentido de missão
A magnanimidade é a extensão da alma para as coisas grandes, e o seu contrário não é o fracasso, e sim a incapacidade de conceber grandeza. Ela não se mede pelo tamanho do sonho, e sim por três coisas: pelo amor ao trabalho que a obra exige, e não à honra que dela vem; pela missão recebida e não inventada, que se descobre no lugar em que cada um está; e pelos meios proporcionados ao fim, escolhidos depois do fim e nunca antes. Quem é magnânimo não se contenta em dar; dá-se a si mesmo, e exige dos que o cercam que também cresçam.
O que é a magnanimidade
A definição é clássica e Havard a toma da tradição escolástica: a extensão da alma para as coisas grandes. O magnânimo tem consciência daquilo de que é capaz e se põe em movimento para corresponder-lhe. O termo latino vem do grego megalopsychia, alma grande.
Magnanimitas importat extensionem animi ad magna.
A magnanimidade importa uma extensão da alma para as coisas grandes.
O vício oposto é a micropsychia, a alma pequena, que em latim se diz pusilanimidade. Aqui está a observação mais afiada do capítulo, e convém não a suavizar: o pusilânime não é aquele que tenta coisas grandes e fracassa. É aquele que não chega sequer a concebê-las, porque a ideia de que a vida tem um fim elevado lhe é estranha. Havard ilustra isso com o conselho que a personagem central do Ivánov, de Tchékhov, dá a um amigo mais moço: escolher uma vida plana, cinzenta e monótona, e chamar a isso o modo saudável de viver.
Não é a falha em coisas grandes, mas a incapacidade de concebê-las. O pusilânime atravessa a vida como quem atravessa um túnel, e nesse campo estreito de visão só enxerga a si mesmo.
A distinção decisiva: magnanimidade e vaidade
Havard recorre aqui ao dominicano Réginald Garrigou-Lagrange, e a fórmula que ele recolhe vale ser guardada de memória, porque é o critério que separa a virtude da sua imitação. A vaidade ama a honra e o prestígio que vêm das coisas grandes; a magnanimidade ama o trabalho e o esforço que elas exigem. Duas pessoas podem empreender a mesma obra, e a diferença entre elas não está no tamanho da obra, e sim naquilo que cada uma ama nela.
A vaidade ama a honra e o prestígio que vêm das coisas grandes. A magnanimidade ama o trabalho e o esforço necessários para realizá-las. O objeto do amor é que distingue, não a grandeza do empreendimento.
Da mesma raiz vem a distinção entre magnanimidade e filantropia. Dar generosamente do que sobra, sem que isso custe nada de si, é coisa bela, mas não é magnanimidade. A magnanimidade não se contenta em dar: dá o próprio eu. Havard cita São Josemaría Escrivá, que a descreve como grandeza de espírito e largueza de coração, capaz de arrancar o homem de si mesmo para empresas generosas.
Da visão à missão
Muita gente tem sonhos e visões. O que distingue o líder é a capacidade de concretizá-los como missão, e a missão se traduz em ato. Há aqui uma afirmação que decide todo o resto: a missão não se inventa nem se imagina. É um chamado determinado a fazer uma coisa determinada. Todo homem tem a sua, saiba disso ou não.
Se a missão não se inventa, ela se descobre, e Havard oferece um critério prático para reconhecê-la, formulado como uma medida de dois lados. A missão de cada um é a contribuição pessoal e específica de alguém para o bem comum, e o líder consegue defini-la quando percebe qual desafio cultural ou social é chamado a enfrentar.
Ampla o bastante para poder ser cumprida de muitos modos diferentes, e estreita o bastante para falar pessoalmente a quem a recebeu, todos os dias.
A missão na família e no trabalho
O modo como alguém entende a vida de família revela o seu sentido de missão, e a comparação é dura. O pusilânime vê a família como meio para fins que continuam sendo os seus: comer bem, não ficar sozinho, ganhar respeitabilidade. Quem tem alma grande a entende como vocação a sacrificar tudo pelos outros, uma unidade de amor e comunhão destinada a crescer, e não um conjunto de indivíduos soberanos que dividem a mesma geladeira.
Daí a formulação sobre a paternidade, que o capítulo apresenta como a mais alta de todas: a missão dos pais é conduzir os filhos até uma idade adulta responsável, e nenhum objetivo é mais importante do que esse. Ter consciência habitual dessa missão, diz Havard, é o que faz de pais e mães líderes autênticos.
No trabalho vale o mesmo critério. Quem tem sentido de missão concebe o trabalho como ocasião de servir, e cresce por ele. Quem não tem vê nele um instrumento: afirmar-se, fugir de uma casa que não agrada, acumular. Sobre a atividade empresarial em particular, Havard recusa a tese de que ela seja um mal necessário movido por vícios privados, e fixa uma distinção que é o coração do trecho: o lucro é fim necessário da atividade econômica, mas não é o seu propósito.
É por esse critério que o capítulo recusa a Rockefeller e a Carnegie o nome de líderes, embora reconheça neles homens que se fizeram sozinhos. Tinham sonhos, e não missão. Tinham um objetivo, que era ser o próprio patrão. A grandeza que se admira neles é a da ascensão, não a de uma obra recebida e servida.
Meios proporcionados aos fins
A magnanimidade não está só na missão, mas no modo de levá-la a cabo. Os sonhos se realizam por trabalho duro e persistência, e é aqui que a virtude se prova. Duas regras práticas se destacam.
A primeira é a ordem entre fins e meios. Primeiro se estabelecem os objetivos, e só depois se adquirem os meios. O caminho inverso, que consiste em juntar os meios disponíveis e depois fabricar um objetivo à altura deles, é a armadilha que o líder evita, por mais que a prática seja comum.
A segunda é a atenção às coisas pequenas. As almas grandes cuidam muito das coisas pequenas, porque muitos poucos somam uma quantia enorme. Escrivá compara a obra ao edifício imponente que se levantou tijolo sobre tijolo, saco de cimento após saco de cimento, cada peça insignificante diante do todo, e homens trabalhando as mesmas horas, dia após dia.
Desafiar os outros a crescer
A responsabilidade mais nobre do líder é a melhora pessoal e profissional dos que estão à sua volta, e a razão disso é antropológica: essa vontade nasce da consciência profunda da vocação elevada do homem. Por isso a liderança nunca é exercício individualista, e os líderes são sempre líderes de líderes. Alcançar metas altas na organização jamais é fim em si, e sim meio para que todos os envolvidos cresçam.
Havard recolhe de Peter Drucker uma definição em três tempos, que descreve bem o que se espera: elevar a visão de alguém a um ponto mais alto, elevar o seu desempenho a um padrão mais alto e edificar a sua personalidade além dos seus limites habituais. E de Goethe, a regra de trato: tratar as pessoas como elas são as piora, e tratá-las como deveriam ser as conduz até lá.
Vem em seguida a ressalva que impede a leitura voluntarista de tudo o que foi dito. A magnanimidade é prudente, paciente e realista. Exigências altas demais desencorajam e podem prejudicar; forçar ou constranger é imprudente e injusto. Querer apressar o progresso alheio é justamente o que o atrasa.
A falsa prudência
O capítulo fecha desarmando a objeção mais provável, aquela que se apresenta em nome da virtude. A magnanimidade implica prudência, mas não aquela que aconselha cautela por reflexo diante de todo empreendimento grande. Garrigou-Lagrange descreve o percurso dessa falsa prudência: começa por ter como princípio nada empreender, depois diz que o melhor às vezes é inimigo do bom, e acaba declarando que o melhor é quase sempre inimigo do bom. Havard resume o que ela é em quatro palavras que vale reter: mediocridade disfarçada de virtude.
A cautela reflexa diante de toda obra grande, que se apresenta como moderação e é apenas covardia. Reconhece-se pelo princípio que a rege, nada empreender, e pelo modo como converte pouco a pouco o melhor em inimigo do bom.
A ressalva simétrica também está posta, e as duas devem ser tomadas juntas: a magnanimidade não é loucura. Ela não dispensa a prudência verdadeira, que é matéria da Parte II.
Os exemplos que o capítulo percorre
Boa parte do capítulo é feita de retratos, e o método tem uma razão: a magnanimidade se mostra melhor do que se define. Havard os distribui por cinco campos, para deixar claro que a virtude não é privilégio de nenhuma profissão.
Entre esses retratos há um que merece atenção do leitor médico. Havard registra que, para Lejeune, a legalização do aborto não era apenas objetável do ponto de vista moral: era um atentado contra a ciência, porque a genética mostra que toda a informação que define o indivíduo já está inscrita na primeira célula, e nenhuma informação nova entra depois. A tese contrária supõe uma evolução embrionária que a genética não sustenta.
Duas das fontes deste capítulo já pertencem ao acervo. Garrigou-Lagrange comparece duas vezes, e as duas nos pontos decisivos, a distinção entre vaidade e magnanimidade e a denúncia da falsa prudência; ambas as passagens vêm de As Três Idades da Vida Interior, obra que está na fila das leituras. Escrivá aparece pelo Caminho e por Amigos de Deus. Vale notar que a magnanimidade, aqui tratada como virtude do governo, é na tradição uma parte da fortaleza, e será reencontrada na Parte II.
Alma grande é a que se estende para o que é grande, e ama o trabalho que a obra exige, não a honra que dela vem. A missão não se inventa: recebe-se, e é ampla o bastante para muitos caminhos e estreita o bastante para falar todo dia. Escolhem-se os fins e depois os meios, e a obra se levanta de coisas pequenas. Quem é magnânimo não se contenta em dar, dá-se; e mede o próprio crescimento pelo dos que estão à sua volta. Nada empreender não é prudência, é mediocridade com nome de virtude.