Liderança Virtuosa
HavardParte ICap. 1
Parte I · Grandeza e serviço · Capítulo 1

Magnanimidade: o sentido de missão

Essência

A magnanimidade é a extensão da alma para as coisas grandes, e o seu contrário não é o fracasso, e sim a incapacidade de conceber grandeza. Ela não se mede pelo tamanho do sonho, e sim por três coisas: pelo amor ao trabalho que a obra exige, e não à honra que dela vem; pela missão recebida e não inventada, que se descobre no lugar em que cada um está; e pelos meios proporcionados ao fim, escolhidos depois do fim e nunca antes. Quem é magnânimo não se contenta em dar; dá-se a si mesmo, e exige dos que o cercam que também cresçam.

a alma se estende para o que é grande
a visão amadurece em missão recebida
a missão se traduz em obra
e a obra se faz de coisas pequenas
até que os que estão em volta também cresçam

O que é a magnanimidade

A definição é clássica e Havard a toma da tradição escolástica: a extensão da alma para as coisas grandes. O magnânimo tem consciência daquilo de que é capaz e se põe em movimento para corresponder-lhe. O termo latino vem do grego megalopsychia, alma grande.

Magnanimitas importat extensionem animi ad magna.

A magnanimidade importa uma extensão da alma para as coisas grandes.

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 129, a. 1

O vício oposto é a micropsychia, a alma pequena, que em latim se diz pusilanimidade. Aqui está a observação mais afiada do capítulo, e convém não a suavizar: o pusilânime não é aquele que tenta coisas grandes e fracassa. É aquele que não chega sequer a concebê-las, porque a ideia de que a vida tem um fim elevado lhe é estranha. Havard ilustra isso com o conselho que a personagem central do Ivánov, de Tchékhov, dá a um amigo mais moço: escolher uma vida plana, cinzenta e monótona, e chamar a isso o modo saudável de viver.

Pusilanimidadeo contrário da magnanimidade

Não é a falha em coisas grandes, mas a incapacidade de concebê-las. O pusilânime atravessa a vida como quem atravessa um túnel, e nesse campo estreito de visão só enxerga a si mesmo.

A distinção decisiva: magnanimidade e vaidade

Havard recorre aqui ao dominicano Réginald Garrigou-Lagrange, e a fórmula que ele recolhe vale ser guardada de memória, porque é o critério que separa a virtude da sua imitação. A vaidade ama a honra e o prestígio que vêm das coisas grandes; a magnanimidade ama o trabalho e o esforço que elas exigem. Duas pessoas podem empreender a mesma obra, e a diferença entre elas não está no tamanho da obra, e sim naquilo que cada uma ama nela.

Vaidade e magnanimidadeo critério que as separa

A vaidade ama a honra e o prestígio que vêm das coisas grandes. A magnanimidade ama o trabalho e o esforço necessários para realizá-las. O objeto do amor é que distingue, não a grandeza do empreendimento.

Da mesma raiz vem a distinção entre magnanimidade e filantropia. Dar generosamente do que sobra, sem que isso custe nada de si, é coisa bela, mas não é magnanimidade. A magnanimidade não se contenta em dar: dá o próprio eu. Havard cita São Josemaría Escrivá, que a descreve como grandeza de espírito e largueza de coração, capaz de arrancar o homem de si mesmo para empresas generosas.

Da visão à missão

Muita gente tem sonhos e visões. O que distingue o líder é a capacidade de concretizá-los como missão, e a missão se traduz em ato. Há aqui uma afirmação que decide todo o resto: a missão não se inventa nem se imagina. É um chamado determinado a fazer uma coisa determinada. Todo homem tem a sua, saiba disso ou não.

Se a missão não se inventa, ela se descobre, e Havard oferece um critério prático para reconhecê-la, formulado como uma medida de dois lados. A missão de cada um é a contribuição pessoal e específica de alguém para o bem comum, e o líder consegue defini-la quando percebe qual desafio cultural ou social é chamado a enfrentar.

A medida da missão pessoalcritério prático de discernimento

Ampla o bastante para poder ser cumprida de muitos modos diferentes, e estreita o bastante para falar pessoalmente a quem a recebeu, todos os dias.

A missão na família e no trabalho

O modo como alguém entende a vida de família revela o seu sentido de missão, e a comparação é dura. O pusilânime vê a família como meio para fins que continuam sendo os seus: comer bem, não ficar sozinho, ganhar respeitabilidade. Quem tem alma grande a entende como vocação a sacrificar tudo pelos outros, uma unidade de amor e comunhão destinada a crescer, e não um conjunto de indivíduos soberanos que dividem a mesma geladeira.

Daí a formulação sobre a paternidade, que o capítulo apresenta como a mais alta de todas: a missão dos pais é conduzir os filhos até uma idade adulta responsável, e nenhum objetivo é mais importante do que esse. Ter consciência habitual dessa missão, diz Havard, é o que faz de pais e mães líderes autênticos.

No trabalho vale o mesmo critério. Quem tem sentido de missão concebe o trabalho como ocasião de servir, e cresce por ele. Quem não tem vê nele um instrumento: afirmar-se, fugir de uma casa que não agrada, acumular. Sobre a atividade empresarial em particular, Havard recusa a tese de que ela seja um mal necessário movido por vícios privados, e fixa uma distinção que é o coração do trecho: o lucro é fim necessário da atividade econômica, mas não é o seu propósito.

Nota bene

É por esse critério que o capítulo recusa a Rockefeller e a Carnegie o nome de líderes, embora reconheça neles homens que se fizeram sozinhos. Tinham sonhos, e não missão. Tinham um objetivo, que era ser o próprio patrão. A grandeza que se admira neles é a da ascensão, não a de uma obra recebida e servida.

Meios proporcionados aos fins

A magnanimidade não está só na missão, mas no modo de levá-la a cabo. Os sonhos se realizam por trabalho duro e persistência, e é aqui que a virtude se prova. Duas regras práticas se destacam.

A primeira é a ordem entre fins e meios. Primeiro se estabelecem os objetivos, e só depois se adquirem os meios. O caminho inverso, que consiste em juntar os meios disponíveis e depois fabricar um objetivo à altura deles, é a armadilha que o líder evita, por mais que a prática seja comum.

A segunda é a atenção às coisas pequenas. As almas grandes cuidam muito das coisas pequenas, porque muitos poucos somam uma quantia enorme. Escrivá compara a obra ao edifício imponente que se levantou tijolo sobre tijolo, saco de cimento após saco de cimento, cada peça insignificante diante do todo, e homens trabalhando as mesmas horas, dia após dia.

Desafiar os outros a crescer

A responsabilidade mais nobre do líder é a melhora pessoal e profissional dos que estão à sua volta, e a razão disso é antropológica: essa vontade nasce da consciência profunda da vocação elevada do homem. Por isso a liderança nunca é exercício individualista, e os líderes são sempre líderes de líderes. Alcançar metas altas na organização jamais é fim em si, e sim meio para que todos os envolvidos cresçam.

Havard recolhe de Peter Drucker uma definição em três tempos, que descreve bem o que se espera: elevar a visão de alguém a um ponto mais alto, elevar o seu desempenho a um padrão mais alto e edificar a sua personalidade além dos seus limites habituais. E de Goethe, a regra de trato: tratar as pessoas como elas são as piora, e tratá-las como deveriam ser as conduz até lá.

Vem em seguida a ressalva que impede a leitura voluntarista de tudo o que foi dito. A magnanimidade é prudente, paciente e realista. Exigências altas demais desencorajam e podem prejudicar; forçar ou constranger é imprudente e injusto. Querer apressar o progresso alheio é justamente o que o atrasa.

A falsa prudência

O capítulo fecha desarmando a objeção mais provável, aquela que se apresenta em nome da virtude. A magnanimidade implica prudência, mas não aquela que aconselha cautela por reflexo diante de todo empreendimento grande. Garrigou-Lagrange descreve o percurso dessa falsa prudência: começa por ter como princípio nada empreender, depois diz que o melhor às vezes é inimigo do bom, e acaba declarando que o melhor é quase sempre inimigo do bom. Havard resume o que ela é em quatro palavras que vale reter: mediocridade disfarçada de virtude.

Falsa prudênciaa imitação que bloqueia a virtude

A cautela reflexa diante de toda obra grande, que se apresenta como moderação e é apenas covardia. Reconhece-se pelo princípio que a rege, nada empreender, e pelo modo como converte pouco a pouco o melhor em inimigo do bom.

A ressalva simétrica também está posta, e as duas devem ser tomadas juntas: a magnanimidade não é loucura. Ela não dispensa a prudência verdadeira, que é matéria da Parte II.

Os exemplos que o capítulo percorre

Boa parte do capítulo é feita de retratos, e o método tem uma razão: a magnanimidade se mostra melhor do que se define. Havard os distribui por cinco campos, para deixar claro que a virtude não é privilégio de nenhuma profissão.

Cinco campos, um mesmo hábito
1
PolíticaSchuman e os fundadores da união europeia, que viram na integração o que a simples cooperação não daria; Reagan; Cory Aquino, que assumiu poderes absolutos apenas o tempo de aboli-los; Stolypin, sozinho na sua reforma até ser assassinado; e Karl da Áustria-Hungria, que ofereceu paz e por isso foi odiado
2
EmpresaDarwin Smith, que vendeu as fábricas que eram o núcleo histórico da companhia para forçá-la à excelência; e François Michelin, que apostou na imaginação humana contra a extrapolação de curvas e via no trabalho uma participação no ato criador de Deus
3
CiênciaJérôme Lejeune, que identificou a causa genética da síndrome de Down e depois sustentou a dignidade da vida humana quando isso lhe custou a carreira; a filha dele diz que o realismo do pai era inspirado por uma esperança formidável
4
ReligiãoEscrivá, que pregou a santidade no trabalho ordinário quando a santidade era tida como privilégio de poucos; e João Paulo II, cujo pontificado se abre e se fecha com a mesma palavra, não temais
5
LiteraturaSoljenítsin, que entendeu logo a sua missão, ser a voz dos que morreram sob o comunismo, e a assumiu sabendo que o bezerro provavelmente quebraria o pescoço contra o carvalho

Entre esses retratos há um que merece atenção do leitor médico. Havard registra que, para Lejeune, a legalização do aborto não era apenas objetável do ponto de vista moral: era um atentado contra a ciência, porque a genética mostra que toda a informação que define o indivíduo já está inscrita na primeira célula, e nenhuma informação nova entra depois. A tese contrária supõe uma evolução embrionária que a genética não sustenta.

Nota bene

Duas das fontes deste capítulo já pertencem ao acervo. Garrigou-Lagrange comparece duas vezes, e as duas nos pontos decisivos, a distinção entre vaidade e magnanimidade e a denúncia da falsa prudência; ambas as passagens vêm de As Três Idades da Vida Interior, obra que está na fila das leituras. Escrivá aparece pelo Caminho e por Amigos de Deus. Vale notar que a magnanimidade, aqui tratada como virtude do governo, é na tradição uma parte da fortaleza, e será reencontrada na Parte II.

Pontos-chave
Magnanimidade é a extensão da alma para as coisas grandes, e o seu contrário, a pusilanimidade, não é fracassar em coisas grandes, mas não concebê-las.
A vaidade ama a honra que vem das grandes obras; a magnanimidade ama o trabalho que elas exigem. É esse o critério que as separa.
Filantropia não é magnanimidade: dar do supérfluo não custa nada de si, e a magnanimidade dá o próprio eu.
A missão não se inventa, descobre-se: é chamado determinado, e todo homem tem o seu, saiba ou não.
A missão pessoal deve ser ampla o bastante para ser cumprida de muitos modos e estreita o bastante para falar a quem a recebeu todos os dias.
A família é vocação a sacrificar tudo pelos outros, e a missão dos pais, levar os filhos à idade adulta responsável, é a mais alta de todas.
O lucro é fim necessário da atividade econômica, mas não é o seu propósito.
Primeiro os objetivos, depois os meios; juntar meios e depois inventar um objetivo à altura deles é a armadilha comum.
Almas grandes cuidam das coisas pequenas, porque a obra se levanta como o edifício, uma peça de cada vez.
Líderes são líderes de líderes: metas altas nunca são fim em si, e sim ocasião de que todos cresçam.
A magnanimidade é prudente, paciente e realista: exigir demais desencoraja, e forçar é injusto.
A falsa prudência, que aconselha nunca empreender nada, é mediocridade disfarçada de virtude; mas a magnanimidade também não é loucura.
Para reter

Alma grande é a que se estende para o que é grande, e ama o trabalho que a obra exige, não a honra que dela vem. A missão não se inventa: recebe-se, e é ampla o bastante para muitos caminhos e estreita o bastante para falar todo dia. Escolhem-se os fins e depois os meios, e a obra se levanta de coisas pequenas. Quem é magnânimo não se contenta em dar, dá-se; e mede o próprio crescimento pelo dos que estão à sua volta. Nada empreender não é prudência, é mediocridade com nome de virtude.

Fonte · Magnanimity: Striving Toward Great Things
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