Virtude e realização pessoal
Ser virtuoso é tornar-se aquilo que já se é, e por isso tudo o que afasta alguém da virtude o aliena de si mesmo. Daí o aviso contra a busca de autorrealização sem virtude, que acaba escravizando quem a persegue às modas do momento. O capítulo faz então a distinção que o organiza: a virtude dá alegria, e alegria não é felicidade. A felicidade excede as nossas forças e é dom, não conquista, de modo que quem tenta saciar essa sede no que é finito não se realiza, apenas se ilude. A virtude não nos torna felizes, mas nos aproxima de quem pode.
Tornar-se o que se é
O capítulo começa pela definição mais concentrada de virtude que o livro oferece, tomada da tradição escolástica.
Ultimum potentiae.
O máximo de que uma potência é capaz.
Virtude, nesse sentido, é o incremento da pessoa segundo aquilo que lhe é próprio, de modo que ser virtuoso significa ser o seu verdadeiro eu. Havard recolhe de Píndaro o imperativo que atravessa o capítulo, o de tornar-se aquilo que se é.
Segue-se daí o aviso contra uma busca muito contemporânea. Quem se empenha na própria realização sem cultivar virtude acaba escravo da moda e da última novidade, porque não tendo medida interna, adota a que estiver disponível. Só pela prática da virtude alguém floresce, e tudo o que dela afasta aliena a pessoa de si mesma.
A alegria da virtude
A virtude dá alegria, e os imaturos não a conhecem nem conseguem imaginá-la, porque para eles a virtude é terra desconhecida. Mas Havard se apressa em qualificar de que alegria se trata, e recorre a Pieper para dizer que a virtude não é a respeitabilidade domesticada do burguês satisfeito consigo. Os líderes não se interessam pela virtude como garantia de superioridade moral, e sim pelo bem por causa do próprio bem.
Há um traço dessa alegria que vale destacar porque distingue a virtude verdadeira da sua imitação vaidosa: quem é virtuoso alegra-se também quando vê outros praticando a virtude. Havard lê nisso a solidariedade real que une os que buscam o bem comum, e a razão é simples: a virtude alheia mostra que não estamos sozinhos nessa busca.
Alegria não é felicidade
Aqui está a distinção doutrinal do capítulo, e ela impede que todo o livro seja lido como promessa de bem-estar.
A virtude confere alegria, não felicidade. A felicidade é a contemplação eterna de Deus, fim último da vida humana, e excede as nossas forças: nada podemos fazer para nos tornarmos felizes, porque a felicidade é dom. A virtude, embora não a confira, aproxima dela, porque aproxima de Deus, que é Verdade, Bondade e Beleza.
Pieper fornece o argumento antropológico: o homem, constituído como é e com a sede de felicidade que tem, não consegue saciá-la no âmbito do finito, e quem pensa ou age como se isso fosse possível está entendendo mal a si mesmo e indo contra a própria natureza. Havard acrescenta o corolário: se o coração estiver posto no dinheiro, no poder, na fama ou no prazer, o que se alcança não é felicidade, é alienação.
O capítulo ilustra isso com um conto de Tchékhov sobre um homem que passou a vida economizando para comprar uma pequena propriedade com groselheiras. Realizado o sonho, serve as primeiras groselhas aos amigos e as come com lágrimas de contentamento, repetindo que estão ótimas. Estavam duras e azedas. O irmão, que narra, sai dali não consolado, mas tomado de algo próximo ao desespero, ao ver um homem convencido de haver chegado ao fim da própria vida. A alienação, diz Havard, é isto: estar tão afastado da verdade que se acha delicioso o fruto verde.
Nota do editor. Convém uma precisão sobre a fórmula que abre o capítulo. Ela é atribuída aqui a Santo Tomás como definição de virtude, mas na Suma ela aparece como objeção, tomada de Aristóteles, a quem sustentaria que a virtude pertence ao gênero da potência e não ao do hábito. Tomás responde distinguindo dois sentidos: a expressão vale para aquilo a que a virtude tende, o ponto mais alto que uma potência alcança, e não para a essência da virtude, que continua sendo hábito (Suma Teológica, I-II, q. 55, a. 1, conferido na fonte). O sentido que Havard extrai é justamente o primeiro, e portanto legítimo; apenas não é definição, e a ressalva reforça o que a Parte III estabeleceu, que a virtude é hábito e não capacidade natural.
Ser virtuoso é chegar ao máximo do que se pode ser, isto é, tornar-se o que já se é; por isso o que afasta da virtude afasta de si mesmo, e quem busca realizar-se sem ela termina refém da moda. Dessa prática nasce alegria, e uma alegria que se alegra também com o bem alheio. Mas não confunda: alegria não é felicidade. A felicidade não se fabrica, recebe-se, e quem tenta matar essa sede no que é finito acaba achando doce o fruto ainda verde.