Saber dizer não
As duas virtudes da essência não crescem em terreno qualquer, e a cultura corrente lhes é adversa. Por isso o capítulo não acrescenta uma terceira virtude: ensina a recusar. Seis correntes são nomeadas, e cada uma fecha o caminho à sua maneira, o imanentismo por trancar o homem na própria subjetividade, o individualismo por recusar toda influência, o progressismo por esperar do sistema o que só o caráter faz, o cinismo por separar virtude e poder, o materialismo por ver engrenagens onde há pessoas, e o tecnocratismo por reduzir o governo a método. No meio delas está a resposta à objeção mais séria do livro: sem prudência não há magnanimidade, e o que se parece com grandeza pode ser apenas astúcia.
Por que uma virtude se defende recusando
A epígrafe do capítulo dá o argumento inteiro em uma linha: ninguém dirá sim de verdade enquanto não aprender a dizer não. Havard sustenta que a magnanimidade e a humildade vêm perdendo terreno para o egoísmo da cultura moderna, que se manifesta em correntes filosóficas, em modos de comportamento e em convenções sociais. O primeiro passo para tornar-se líder é dar-se conta disso; o segundo é declarar independência.
Não ao imanentismo
A recusa mais de fundo, e da qual as outras em boa parte decorrem. A filosofia moderna, que começa em Descartes e culmina em Kant, substituiu o realismo dos gregos por outro modo de pensar.
Realismo significa que posso apreender a realidade, a res, a coisa que existe fora da minha mente. Imanentismo significa que aquilo que percebo não é realidade objetiva, e sim um produto possivelmente ilusório da minha mente e da minha consciência.
A consequência não fica na teoria. Se não posso apreender o real, não exploro, não me admiro, não contemplo. Nada me fala, e a nada respondo, e o coração esfria para o sentido, para a missão e para a vocação. Havard chama a isso indiferentismo existencial, e mostra onde ele desemboca: perdida a realidade objetiva, restam as técnicas e os sistemas, a produção e o consumo, o prazer e o entretenimento. E a liderança vira jogo de estratégias e táticas, retórica vazia e método de manipular pessoas.
A fórmula com que ele resume a virada é a frase mais citável do capítulo: antes de Kant o homem procurava descobrir o seu lugar no cosmos; depois de Kant, tenta produzir o cosmos na sua mente. Uns chamam isso de autonomia, diz Havard; ele prefere chamar de egocentrismo.
Não ao individualismo
O individualista serve apenas aos próprios interesses, e a marca dele é dupla: não quer ser influenciado por ninguém nem deseja influenciar ninguém. O líder quer as duas coisas, receber bem dos outros e entrar na vida dos que o cercam para fazer algum bem.
Vem então a correção sobre o que é liberdade, e ela é decisiva porque desarma o ideal de independência absoluta. Absorvemos influências como esponjas absorvem água, dos pais, dos mestres, dos amigos, dos meios. Somos sociais por natureza, vivemos em comunidade e nunca somos livres em sentido absoluto. Havard toma de Andrei Tarkovski a imagem: um homem em liberdade absoluta, se fosse possível concebê-lo, se pareceria com um peixe das profundezas trazido de repente à superfície.
Não é libertar-se das influências externas, o que de resto é impossível. É escolher livremente as influências às quais livremente nos submetemos. Quem escolhe com sabedoria tem chance de tornar-se um homem magnífico; o perigo está em submeter-se, consciente ou inconscientemente, às influências más.
Não ao progressismo
A ideologia do Progresso vem, na leitura de Havard, do projeto iluminista do século XVIII: seguindo Rousseau, negou-se a realidade do pecado original e, com ela, a do mal moral no homem. Se o mal não está no homem, está no arranjo, e o que precisa ser aperfeiçoado é o sistema. A frase de T. S. Eliot que ele cita descreve o sonho inteiro: sistemas tão perfeitos que ninguém precise ser bom.
Daí a inversão do que conta. Para o progressista não importa o teu caráter e as tuas virtudes, e sim as causas políticas que apoias, não importa quem tu és, e sim em quem votas. O crescimento pessoal torna-se ideia estranha, porque não há o que corrigir em si.
Havard recorre a Nicholas Capaldi para o retrato de quem resulta disso, o indivíduo incompleto: tendo pouco ou nenhum senso de individualidade, é incapaz de amar o que há de melhor em si, e substitui esse amor pela lealdade a uma comunidade mítica. O fecho do argumento é uma observação de governo, não de moral: esses acabam tendo líderes que são a sua imagem no espelho, homens igualmente incompletos que querem controlar os outros porque não conseguem controlar a si mesmos.
Trocadas as virtudes por palavras de ordem, o que sobra, diz o capítulo, é tédio, e não o tédio comum do dia a dia, mas um tédio de ordem quase metafísica, diante do próprio mistério de viver, que deixa a imaginação inerte e o desejo entorpecido.
Não ao cinismo, e o teste da prudência
O alvo aqui é O Príncipe, de Maquiavel, lido como manual prático em que virtude e poder não se misturam: a virtude pode enfraquecer o domínio do príncipe, e o vício tende a favorecê-lo, de modo que todo meio conveniente se justifica, inclusive o engano. Havard observa que essa linhagem continua viva, e aponta para os seminários de liderança que ensinam a manipular psicologicamente os subordinados.
É neste ponto que aparece a objeção mais séria do livro, e ela veio de um aluno: Lenin, Hitler e Margaret Sanger eram maus, mas não teriam sido, afinal, magnânimos? A resposta é o parágrafo doutrinalmente mais importante do capítulo, e não se apoia em indignação, e sim na estrutura das virtudes.
Para ser magnânimo é preciso possuir antes a prudência, que é a luz que guia todas as virtudes porque mostra como agir bem em cada situação. Sem ela não se distingue o comportamento satânico do magnânimo. O que esses homens praticaram foi astúcia, e não prudência; soberba, e não magnanimidade. Não se interessavam pela prudência porque não se interessavam pelo bem.
Daí a recusa de Havard às listas de maiores líderes do século XX publicadas por grandes revistas, que reúnem num mesmo rol homens como Reagan e João Paulo II e déspotas como Lenin, Hitler e Mao. A objeção dele não é de gosto: essas justaposições equiparam moralmente os que trouxeram esperança e os que a falsificaram. Para entender as forças que moveram os segundos, acrescenta, O Príncipe não serve de nada; Os Demônios, de Dostoiévski, serviria melhor.
Não ao materialismo
A recusa se apoia numa observação de Chester Barnard, e o valor dela está em vir de dentro da teoria das organizações. Não se vai longe no estudo das organizações sem topar com perguntas simples de enunciar, o que é um indivíduo, o que queremos dizer com pessoa. A tentação é desviar delas e deixá-las aos filósofos. Mas todos agem a partir de pressupostos sobre essas respostas, quase sempre sem se dar conta disso, e os dirigentes mais que os outros.
A consequência prática é enunciada em primeira pessoa. Não posso servir pessoas se as vejo como engrenagens de uma máquina, desprovidas de espírito e de valor transcendente. O trato, mesmo agradável na aparência, cedo ou tarde se torna desagradável na substância, e a palavra humanismo na minha boca soará tão falsa quanto soava a palavra camarada na União Soviética.
Não ao tecnocratismo
A última recusa fecha o argumento do livro inteiro: liderança não é técnica. Não se ocupa de sistemas e estruturas, e sim de pessoas. Não é questão de saber como, e sim de saber o quê e por quê. Competência técnica é necessária, e está longe de bastar. De Pree é citado com dureza: quem só entende de metodologia e quantificação nunca gera competência nem confiança.
Havard observa que a civilização moderna produz mais técnicos de gestão, de direito, de medicina e de ciência do que verdadeiros gestores, advogados, médicos e cientistas. E recolhe de Peter Koestenbaum um prognóstico que hoje se lê de outro modo: quem pensa e age como máquina será substituído por máquinas, todo trabalho automatizável será automatizado, e sobrarão apenas os trabalhos de liderança.
Os seis retratos, em uma linha cada
O capítulo termina como um exame, e vale lê-lo assim. Havard fecha cada recusa com um retrato, e a sentença comum a todos é que para esses homens e mulheres o caminho da liderança está definitivamente fechado.
Nota do editor. Este é o capítulo mais combativo do livro, e o único em que o autor argumenta contra correntes e nomeia figuras públicas. A leitura que faz de Descartes e de Kant, e a linha que traça de Rousseau ao progressismo contemporâneo, são posição de escola, na linhagem da crítica realista ao idealismo moderno, e não doutrina pacífica: um historiador da filosofia acharia a síntese rápida demais para o que Kant efetivamente sustenta. A tese doutrinal que sobrevive independente dessa discussão, e que interessa ao resto do livro, é a do teste da prudência: nenhuma virtude subsiste sem ela, e por isso a aparência de grandeza no homem sem bondade é astúcia, não magnanimidade. Esse ponto prepara diretamente a Parte II, que trata das quatro cardeais e começa justamente pela prudência.
Nunca se diz sim de verdade sem antes saber dizer não. São seis recusas, e todas defendem as duas virtudes da essência: contra o imanentismo, porque quem perde o real perde a vocação; contra o individualismo, porque liberdade é escolher as influências, não fugir delas; contra o progressismo, que espera do sistema o que só o caráter faz; contra o cinismo, lembrando que sem prudência não há magnanimidade, e o que parece grandeza no homem sem bondade é astúcia; contra o materialismo, que não consegue servir quem enxerga como engrenagem; e contra o tecnocratismo, porque liderar não é saber como, é saber o quê e por quê.