Liderança Virtuosa
HavardParte IIAbertura
Parte II · Sabedoria prática e vontade firme · Abertura

Sabedoria prática e vontade firme

Essência

Às duas virtudes próprias da liderança acrescentam-se agora quatro atributos de caráter que a tradição chama de cardeais: prudência, fortaleza, domínio de si e justiça. A prudência aperfeiçoa a capacidade de decidir bem; a fortaleza pede que se corra risco e se mantenha o rumo sob pressão; o domínio de si subordina as emoções ao espírito; e a justiça dá a cada um o que é seu e edifica o bem comum. A imagem que governa esta parte é de construção: se a magnanimidade e a humildade são a essência da liderança, aquilo que a especifica, as cardeais são o seu fundamento, os pilares que a sustentam.

a essência já está posta: grandeza e serviço
mas essência sem fundamento não sustenta nada
quatro virtudes formam os pilares
uma aperfeiçoa o juízo, três a vontade e o apetite
e sobre elas o caráter se levanta

O que esta parte acrescenta

A Parte I tratou daquilo que é próprio da liderança e não se encontra em outro lugar. Esta trata do que a liderança tem em comum com toda vida humana bem conduzida, e sem o que a primeira parte não se sustenta. Havard distingue as duas famílias pelo lugar de onde procedem: magnanimidade e humildade são virtudes do coração; as quatro cardeais, virtudes do intelecto e da vontade.

Essência e fundamentoa imagem que organiza o livro inteiro

A magnanimidade e a humildade são a essência da liderança, aquilo que a especifica e a distingue de qualquer outra coisa. As quatro virtudes cardeais são o seu fundamento, os pilares sobre os quais ela se apoia. Sem a essência não há liderança; sem o fundamento, ela não fica de pé.

Vale reter a consequência dessa imagem, porque ela responde de antemão a uma objeção comum. As cardeais não são exclusivas de quem governa. São as virtudes de qualquer homem que viva bem, e é justamente por isso que servem de fundamento: a liderança não é uma construção separada da vida moral comum, é essa mesma vida levada ao terreno do governo.

As quatro, em uma linha cada

Havard as apresenta pela função que cada uma exerce, e as quatro definições da abertura já contêm o programa dos quatro capítulos.

O que cada pilar sustenta
1
Prudênciaaperfeiçoa a nossa capacidade de tomar as decisões certas
2
Fortalezapede que se corram riscos e que se mantenha o rumo sob pressão
3
Domínio de siobriga a subordinar as emoções ao espírito
4
Justiçadá a cada um o que lhe é devido e edifica o bem comum

Note-se a ordem, que não é casual. A parte começa pela prudência porque o capítulo anterior terminou nela: sem prudência não se distingue a grandeza da astúcia, e por isso nenhuma das outras virtudes fica de pé antes dela. A tradição lhe reconhece essa primazia entre as virtudes morais, porque é ela que dirige as demais ao mostrar, em cada situação, o que fazer.

Por que se chamam cardeais

O nome vem do latim cardo, cardinis, o gonzo sobre o qual a porta gira. Cardeais são, portanto, as virtudes em torno das quais as demais se articulam, e não as quatro mais importantes numa lista de méritos. A escolha do termo diz algo sobre a natureza delas: são aquilo de que o resto depende para se mover.

A doutrina é anterior ao cristianismo e foi por ele recebida. Já está em Platão e em Aristóteles, e é do segundo que vem boa parte do vocabulário que Havard emprega ao longo do livro. Santo Tomás a integra ao tratado das virtudes, e é a exposição dele que a tradição posterior segue.

O plano da parte

Quatro capítulos, um por virtude, na ordem em que a tradição as expõe. Cada um segue o mesmo método do resto do livro: define, distingue a virtude das suas falsificações e desce ao terreno do trabalho e do governo de pessoas.

Os quatro capítulos
1
Prudência: como decidir bemcapítulo 1, o conhecimento que ela dá, a deliberação, o juízo e a decisão, e a relação entre ser e percepção
2
Fortaleza: manter o rumocapítulo 2, a definição, a resistência, a valentia e a audácia
3
Autodomínio: o triunfo do coração e do espíritocapítulo 3, direção mais do que repressão, o poder da pureza e o desprendimento
4
Justiça: comunhão e comunicaçãocapítulo 4, a natureza humana como inalterável, o bem comum, os deveres ordinários, a verdade e a caridade
Nota bene

Nota do editor. A fórmula da abertura, que atribui as cardeais ao intelecto e à vontade, é simplificação didática. Santo Tomás as distribui por quatro sujeitos distintos: a prudência aperfeiçoa a razão mesma, a justiça reside na vontade, a fortaleza no apetite irascível e a temperança no concupiscível, de modo que as três últimas aperfeiçoam potências que participam da razão sem serem racionais por essência (Suma Teológica, I-II, q. 61, a. 2). A distinção importa aqui porque explica por que o domínio de si, no capítulo 3, será tratado como direção das emoções e não como repressão delas: as emoções pertencem a potências que escutam a razão, e não obedecem a ela como quem cumpre ordem.

Nota bene

Estas mesmas quatro virtudes, tomadas em si e não no terreno do governo, são a matéria das capelas cardeais de As Sete Virtudes, o oratório irmão da constelação. Quem quiser a exposição espiritual delas a encontrará lá; aqui elas comparecem como fundamento do caráter de quem conduz pessoas. Na Parte VI o livro voltará ao ponto para mostrar como a fé, a esperança e a caridade, infundidas na alma, reforçam e transfiguram estas quatro.

Pontos-chave
À essência da liderança, magnanimidade e humildade, acrescentam-se quatro virtudes cardeais que lhe servem de fundamento.
Havard chama as duas primeiras de virtudes do coração e as quatro seguintes de virtudes do intelecto e da vontade.
A prudência aperfeiçoa o decidir; a fortaleza sustenta o rumo sob pressão; o domínio de si subordina as emoções ao espírito; a justiça dá a cada um o seu e edifica o bem comum.
As cardeais não são exclusivas de quem governa: são as virtudes de toda vida bem conduzida, e é por isso que servem de fundamento.
Cardeais vem de cardo, o gonzo da porta: são aquilo em torno de que as demais giram.
A parte começa pela prudência porque sem ela não se distingue grandeza de astúcia, e nenhuma outra virtude fica de pé.
Para reter

Grandeza e serviço são a essência; as quatro cardeais são o fundamento. Prudência para decidir bem, fortaleza para manter o rumo sob pressão, domínio de si para subordinar as emoções ao espírito, justiça para dar a cada um o seu. Chamam-se cardeais porque são o gonzo em que as outras giram, e não porque encabecem uma lista. Não pertencem só a quem governa: são as virtudes de toda vida bem vivida, e é exatamente por isso que sustentam a liderança.

Fonte · Part Two, Practical Wisdom and Willpower
← Anterior
Saber dizer não
Próximo →
Prudência: como decidir bem