Autodomínio: o triunfo do coração e do espírito
Quem quer conduzir outros precisa antes conduzir-se. O autodomínio subordina as emoções ao espírito e as dirige ao cumprimento da missão, dizendo sim ao que faz crescer e não ao que degrada. O ponto decisivo é que ele não suprime as emoções: as boas são canalizadas, não caladas, e só as más se mortificam. Por isso o capítulo rejeita o espiritualismo que trata o corpo como cárcere, e lembra que o Verbo encarnado não escondeu medo, lágrimas, ira nem alegria. Dentro dessa virtude estão a pureza e o desprendimento, e dela dependem coisas tão prosaicas quanto o uso do tempo e a confiança que os outros depositam em quem dirige.
Uma virtude que a literatura evita
Havard abre observando que o autodomínio quase não aparece nos livros de liderança, e dá duas razões. A primeira é cultural: numa época organizada em torno do prazer sensível e do conforto material, essa virtude é contracultural, e falar dela exige coragem. A segunda é uma confusão de fundo, a de conceber a liderança como papel público apartado da vida privada. Nada, diz ele, está mais longe da verdade.
A virtude que subordina as emoções ao espírito e as dirige ao cumprimento da missão. É a capacidade de dizer sim ao que nos faz crescer e não ao que nos degrada. O seu contrário, a intemperança, é o esvaziamento da mente e do coração.
O que a intemperança destrói
O argumento se faz mostrando o estrago, e ele é exposto por partes.
O quarto dano vem com uma observação de realismo que vale reter. Na prática, as pessoas não separam a capacidade profissional da conduta pessoal, ainda que digam o contrário, e o que mais as afasta é o duplo padrão. Havard recolhe de Escrivá a parábola do faisão dourado que o camponês põe no galinheiro: as galinhas o admiram como a um semideus até a hora da ração, quando o veem atirar-se à comida com a mesma voracidade das mais comuns das aves, e então depenam o ídolo caído.
O uso do tempo é questão moral
A consequência mais prosaica e talvez a mais útil do capítulo. Dirigentes sabem quais são as suas funções mais importantes, formar-se e formar os outros, educar a equipe, motivar, planejar a longo prazo, e no entanto as pesquisas que Havard cita indicam que raramente dedicam mais de um décimo do tempo a elas. Fazem o que gostam de fazer em vez do que deveriam.
Covey é chamado para explicar por quê: o urgente é visível, pressiona, está diante dos olhos, e costuma ser agradável e fácil, o que não o torna importante. Importante é o que contribui para a missão e para as prioridades altas. Daí a conclusão que desloca o problema de lugar: seminários de gestão do tempo, por mais sofisticados, não resolvem, porque a dificuldade não é técnica, é moral.
Emoções boas e emoções más
Esta é a seção doutrinalmente decisiva, e nela Havard recusa explicitamente a via platônica. Platão via no corpo o túmulo da alma e nas emoções correntes que a escravizam, e fazia da liberdade humana uma libertação da carne. Havard responde a partir da unidade do composto humano: somos corpo e alma, e o que é puramente espiritual deixa de ser plenamente humano. As emoções são a fonte que sustenta e vivifica a natureza humana, e somos chamados a fazer o bem não só com a vontade, mas com o coração e com a carne. Devemos sentir prazer em fazer o bem.
Na mesma recusa entram o nirvana oriental, a apatia estoica, o puritanismo e o moralismo kantiano. E quem teme as emoções, a ponto de suprimir diante da injustiça a ira que ali é devida, não alcança a excelência humana. O argumento cristão é apresentado como golpe mortal em todo espiritualismo desviado: o Verbo feito carne não escondeu o medo, as lágrimas, a ira, a compaixão nem a alegria.
Emoções boas, como o entusiasmo santo, o amor casto, a ira justa, a gratidão, a contrição, o perdão e a alegria de fazer o bem, produzem boas obras e devem ser dirigidas, nunca caladas. Emoções más, como a soberba, a inveja, a cobiça e a ira injusta, produzem más obras e são mortificadas. O autodomínio revigora as primeiras e dirige a energia delas à missão.
A imagem de Pieper que o capítulo recolhe é a melhor formulação disso: o autodomínio é a margem, a ribanceira de cuja firmeza a correnteza recebe o curso reto e desimpedido, e com ele a força e a velocidade. Não é represa; é leito.
A mortificação das emoções más supõe humildade, porque exige reconhecer que somos assediados por elas, e essa purificação do coração dura enquanto durar a vida. Havard acrescenta aqui o limite que impede toda leitura voluntarista: por causa do pecado original não conseguimos purificar-nos inteiramente por esforço próprio, e precisamos de Deus. Ao purificar o coração, dilatamo-lo, e nele abrimos lugar para a grandeza e para o serviço.
A pureza e o desprendimento
Dentro do autodomínio o capítulo distingue duas virtudes. A primeira é a pureza. A sexualidade é dom de Deus ordenado ao amor e à geração, e tratá-la principalmente como instrumento de gratificação introduz desordem moral no próprio núcleo da pessoa. Havard registra o diagnóstico de Viktor Frankl sobre a instrumentalização mútua dos cônjuges, com o estímulo tomando o lugar do amor como essência do casamento, e vai buscar em Tolstói a descrição do rancor que nasce daí num casamento reduzido ao prazer.
Positivamente, Escrivá define a pureza como afirmação decisiva da vontade no amor, e Havard tira daí a consequência de governo: como demonstração radical de esquecimento de si, ela predispõe a abrir-se aos outros e a servi-los sem medo, com alegria e sem cálculo. Aristóteles já dizia que o domínio de si é o verdadeiro amor a si mesmo.
A segunda é o desprendimento, do dinheiro, do poder, do bom nome e das coisas. Elas podem ser objetivamente boas, e nem por isso são fins adequados: quem faz de uma delas o seu fim torna-se escravo dela e passa a viver com medo de perdê-la. O ponto que Havard faz questão de fixar é que desprendimento não tem relação com ser rico ou pobre, é qualidade de espírito, e pode ser praticado em plena abundância. O dirigente de uma grande companhia é chamado a vivê-lo tanto quanto um frade, o que não significa aparecer no escritório de saco e sandálias: Escrivá adverte que ele não é mendicidade ostensiva nem máscara de desleixo, e pede que se vista e se viva conforme a própria condição, com naturalidade.
O exemplo é Robert Schuman, ministro das Finanças na França do pós-guerra. Apagava as luzes dos corredores do ministério ao fim do dia, viajava para casa sem reservar o compartimento a que tinha direito e comprava a passagem na fila, como todos. Dizia que não se devem desprezar as pequenas economias, porque a soma delas faz as grandes.
Tempo de mansidão e tempo de ira
O líder não perde a calma com facilidade e trata os que o cercam com respeito e gentileza. Mas o capítulo recusa transformar isso em regra absoluta, e a distinção que faz é das mais úteis do livro.
Diante da injustiça existe uma ira devida, e ela guarda relação estreita com a coragem. Cristo a manifestou ao expulsar os vendilhões do templo. O autodomínio invocado diante da injustiça disfarça, muitas vezes, simples covardia: querer paz não é mau, mas quando encobre a covardia diante do mal, dele pode vir todo tipo de mal.
Os dois exemplos são bem escolhidos porque vêm de homens temperamentalmente pacíficos. Schuman, descrito por um adversário parlamentar como alguém que jamais levantava a voz nem exagerava o peso de um argumento, ergueu-se com dureza contra a tentativa de abolir o ensino religioso na Alsácia e na Lorena, e o governo recuou. E Martin Luther King, que pregava a não violência, sustenta na carta escrita da cadeia de Birmingham que a mansidão é erro e pecado quando a justiça exige ira.
Gratidão contra inveja
Havard começa desfazendo uma confusão: querer possuir tanto quanto o próximo, ou ser tão capaz quanto ele, não é inveja, e costuma até ser sinal saudável de inclinação a liderar. A inveja é outra coisa, feita de amargura e ressentimento, por vezes com o desejo de derrubar o outro, e frequentemente enraizada em complexo de inferioridade.
A definição que ele dá é a mais penetrante: a inveja é produto de pequenez de coração, e o invejoso é aquele que se convenceu de que os bens deste mundo, materiais, culturais e espirituais, são finitos e não podem ser partilhados. A virtude contrária é a gratidão, que se exerce agradecendo e recompensando o esforço alheio.
Estudo e curiosidade
O capítulo fecha com uma distinção da tradição escolástica que Havard mantém em latim.
Studiositas · curiositas.
O desejo temperado de conhecer, e o desejo intemperado.
A studiositas é o desejo de conhecer para perceber a realidade e entender a natureza das coisas. A curiositas é o desejo de conhecer pelo prazer que isso dá, e Havard a chama de espécie de promiscuidade espiritual, citando a poeta Marina Tsvetáieva, que chamava os intelectuais arrastados pela curiosidade de sensuais do cérebro.
Disso vem a nota sobre cultura, que desmonta uma ilusão corrente: cultura verdadeira é muito mais do que conhecimento superficial de muitas coisas, e de pouco servem o pedantismo, a memorização e a novidade. Precisamos de informação, mas também de tempo para refletir e de um quadro moral que dê sentido a fatos e ideias dispersos. Por isso o líder não lê qualquer coisa nem assiste a qualquer coisa: filtra o que é moralmente duvidoso e enche a mente do que é nobre, com um plano deliberado de formação própria e dos seus.
O fecho do capítulo amarra tudo de volta à Parte I, e convém guardá-lo inteiro: longe de ser coisa mesquinha ou puritana, o autodomínio é a condição sem a qual não floresce a magnanimidade.
Nota do editor. Duas precisões. A primeira explica por que este capítulo fala em dirigir e não em reprimir: a temperança reside no apetite concupiscível, que participa da razão sem lhe ser sujeito como quem cumpre ordem, conforme se viu na abertura desta parte (I-II, q. 61, a. 2). Daí a imagem da ribanceira em vez da represa. A segunda é que a distinção final não é ornamento erudito: Santo Tomás trata a studiositas como a virtude que modera o apetite natural de conhecer, e a ela opõe a curiosidade como vício por excesso (Suma Teológica, II-II, q. 166, conferido na fonte). Registre-se ainda que o autor evita de propósito a palavra paixão, porque em certas tradições ela designa apenas as inclinações más, enquanto aqui as emoções são boas ou más conforme o seu objeto.
Governa-se primeiro a si mesmo, e não suprimindo o que se sente: as emoções boas são leito, não represa, e só as más se mortificam. Por isso o espiritualismo que trata o corpo como cárcere erra, e quem cala a ira devida diante da injustiça não chega à excelência. Dentro dessa virtude estão a pureza, que abre para o outro, e o desprendimento, que é qualidade de espírito e não medida de posses. Repare no tempo que você gasta: fazer o urgente e agradável em vez do importante não é falha de método, é falha de virtude.