Aretologia: a ciência da virtude
A virtude tem uma ciência própria, chamada aretologia, do grego areté. Foi fundada pelos filósofos gregos e enriquecida pelo encontro com o pensamento judaico-cristão, e distingue dois tipos de virtude, as intelectuais, que ajudam a apreender a realidade, e as éticas, que ajudam a agir segundo a natureza humana. A prudência pertence às duas, por ser conhecimento ordenado à decisão. O capítulo traça a linhagem dessa ciência, de Platão e Aristóteles a Cícero, Agostinho e Tomás, e mostra que ela continua viva em autores do século XX que raramente são lidos como o que de fato são: tratadistas da virtude.
O nome e a divisão
A palavra vem do grego, e guardá-la ajuda a perceber que se trata de um campo de estudo, e não de exortação moral.
Areté.
Virtude: a excelência própria de cada coisa.
Havard divide o campo em dois. As virtudes intelectuais dizem respeito ao conhecimento humano e ajudam a apreender a realidade. As virtudes éticas dizem respeito ao comportamento e ajudam a agir de acordo com a natureza humana. A prudência, observa ele, pertence às duas famílias ao mesmo tempo: é intelectual porque envolve conhecimento, e é ética porque esse conhecimento se ordena à decisão e à ação.
São a mesma coisa vista de ângulos diferentes, e a variedade de nomes serve para distingui-las das virtudes divinas ou sobrenaturais de que trata a teologia moral cristã. Estas últimas serão a matéria da Parte VI.
A linhagem
Platão fixou as principais virtudes humanas em prudência, justiça, coragem e domínio de si, embora antes dele já se falasse delas na poesia e no teatro gregos. O nome que usamos até hoje veio depois: Santo Ambrósio de Milão, no século IV, chamou-as cardeais, do latim cardo, o gonzo, por serem aquilo em que as demais se articulam.
A lista de quem cultivou essa ciência atravessa a história inteira, gregos, romanos, judeus e cristãos, com Platão e Aristóteles de um lado, Cícero e Sêneca de outro, e Agostinho e Tomás de Aquino recolhendo tudo na tradição cristã.
Quatro autores do nosso tempo
A parte mais útil do capítulo é o retrato dos quatro autores modernos de quem Havard se serve ao longo do livro, cada um com a sua função própria. Vale ler como mapa de leituras.
O caso de Drucker é o mais instrutivo dos quatro, e Havard faz questão de registrá-lo: um dos autores mais influentes da administração no século XX considerava que o classificavam mal, e que o assunto de que realmente tratava era outro. Lido assim, boa parte da literatura de gestão aparece como aretologia que não sabe o próprio nome.
A virtude não é assunto de exortação, é objeto de uma ciência antiga, a aretologia, nome que vem do grego areté. Ela separa as virtudes do conhecer das virtudes do agir, e coloca a prudência nas duas, porque nela o saber já se ordena à decisão. Nasceu entre os gregos, foi recebida e ampliada pelos cristãos, e segue viva onde menos se espera, inclusive na melhor literatura de administração.