Liderança Virtuosa
HavardParte IIICap. 1
Parte III · Não se nasce líder, chega-se a líder · Capítulo 1

Aretologia: a ciência da virtude

Essência

A virtude tem uma ciência própria, chamada aretologia, do grego areté. Foi fundada pelos filósofos gregos e enriquecida pelo encontro com o pensamento judaico-cristão, e distingue dois tipos de virtude, as intelectuais, que ajudam a apreender a realidade, e as éticas, que ajudam a agir segundo a natureza humana. A prudência pertence às duas, por ser conhecimento ordenado à decisão. O capítulo traça a linhagem dessa ciência, de Platão e Aristóteles a Cícero, Agostinho e Tomás, e mostra que ela continua viva em autores do século XX que raramente são lidos como o que de fato são: tratadistas da virtude.

a virtude tem nome próprio em grego
e uma ciência que a estuda
que distingue virtudes do conhecer e do agir
formada pelos gregos e recebida pelo cristianismo
e ainda cultivada hoje, às vezes sem que se note

O nome e a divisão

A palavra vem do grego, e guardá-la ajuda a perceber que se trata de um campo de estudo, e não de exortação moral.

Areté.

Virtude: a excelência própria de cada coisa.

Termo grego que dá nome à aretologia

Havard divide o campo em dois. As virtudes intelectuais dizem respeito ao conhecimento humano e ajudam a apreender a realidade. As virtudes éticas dizem respeito ao comportamento e ajudam a agir de acordo com a natureza humana. A prudência, observa ele, pertence às duas famílias ao mesmo tempo: é intelectual porque envolve conhecimento, e é ética porque esse conhecimento se ordena à decisão e à ação.

Virtudes humanas, naturais ou éticaspor que os três nomes

São a mesma coisa vista de ângulos diferentes, e a variedade de nomes serve para distingui-las das virtudes divinas ou sobrenaturais de que trata a teologia moral cristã. Estas últimas serão a matéria da Parte VI.

A linhagem

Platão fixou as principais virtudes humanas em prudência, justiça, coragem e domínio de si, embora antes dele já se falasse delas na poesia e no teatro gregos. O nome que usamos até hoje veio depois: Santo Ambrósio de Milão, no século IV, chamou-as cardeais, do latim cardo, o gonzo, por serem aquilo em que as demais se articulam.

A lista de quem cultivou essa ciência atravessa a história inteira, gregos, romanos, judeus e cristãos, com Platão e Aristóteles de um lado, Cícero e Sêneca de outro, e Agostinho e Tomás de Aquino recolhendo tudo na tradição cristã.

Quatro autores do nosso tempo

A parte mais útil do capítulo é o retrato dos quatro autores modernos de quem Havard se serve ao longo do livro, cada um com a sua função própria. Vale ler como mapa de leituras.

De quem o livro se serve, e para quê
1
Josef Pieperconstrói sobre Platão e Aristóteles, Agostinho e Tomás; a força dele está em atravessar a terminologia densa dos antigos e dizê-la em linguagem moderna de clareza e precisão notáveis
2
Josemaría Escrivátrata as virtudes humanas do ponto de vista prático de quem cuidou de almas, e as vê como essenciais à santificação do trabalho profissional, que foi o tema dominante da sua pregação
3
Peter Druckero profeta da administração, cujo ensino inteiro está impregnado de considerações sobre a virtude; ele próprio observou que o descreviam como autor de gestão, coisa que dizia não ser
4
Stephen Coveyescreve sobre as virtudes de um ponto de vista psicológico, e a sua força está em mostrar por casos concretos a relação entre virtude e eficácia pessoal
Nota bene

O caso de Drucker é o mais instrutivo dos quatro, e Havard faz questão de registrá-lo: um dos autores mais influentes da administração no século XX considerava que o classificavam mal, e que o assunto de que realmente tratava era outro. Lido assim, boa parte da literatura de gestão aparece como aretologia que não sabe o próprio nome.

Pontos-chave
Aretologia é a ciência da virtude, de areté, e foi fundada pelos gregos e enriquecida pelo pensamento judaico-cristão.
Divide-se em virtudes intelectuais, que ajudam a apreender a realidade, e éticas, que ajudam a agir conforme a natureza humana.
A prudência pertence às duas, porque é conhecimento ordenado à decisão e à ação.
As virtudes humanas ou naturais se distinguem assim das sobrenaturais, matéria da Parte VI.
Platão fixou as quatro principais, e Ambrósio de Milão, no século IV, deu-lhes o nome de cardeais.
A ciência continua viva em Pieper, Escrivá, Drucker e Covey, cada um por uma via distinta.
Drucker, tido como autor de gestão, dizia não ser isso: tratava, de fato, da virtude.
Para reter

A virtude não é assunto de exortação, é objeto de uma ciência antiga, a aretologia, nome que vem do grego areté. Ela separa as virtudes do conhecer das virtudes do agir, e coloca a prudência nas duas, porque nela o saber já se ordena à decisão. Nasceu entre os gregos, foi recebida e ampliada pelos cristãos, e segue viva onde menos se espera, inclusive na melhor literatura de administração.

Fonte · Aretology: The Science of Virtue
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