O auditus fidei e o intellectus fidei
Da natureza da teologia nasce o seu método, e ele tem dois momentos. Primeiro a parte positiva, ouvir e certificar-se de que aquilo é mesmo a fé da Igreja, o auditus fidei, nas Escrituras, na Tradição e no Magistério. Depois a parte especulativa, pensar sobre o que se ouviu, o intellectus fidei, com as suas três funções, explicar, sintetizar e atualizar. O decreto Optatam totius descreve os dois momentos ao tratar da formação dos futuros sacerdotes, e a aula os demonstra num caso concreto, o da transubstanciação, mostrando onde acaba a liberdade de reformular: pode-se mudar a linguagem, desde que se conserve o mesmo sentido e o mesmo alcance.
Duas partes, e por que são duas
Se a teologia é a fé que busca compreender, o método decorre da própria definição. Primeiro é preciso certificar-se de que aquilo é mesmo a fé, e só depois pensar sobre ela. Os livros que tratam do assunto convergem nisso: uma parte positiva e uma parte especulativa.
Fica também uma dica de método de estudo, que serve para qualquer assunto: procurar um bom dicionário especializado, ler o verbete e usar a bibliografia do fim, porque ali um especialista já fez a pesquisa prévia, e aqueles livros conduzem a outros. No caso, o verbete Método no Dicionário de Teologia Fundamental, com os artigos de Guido Pozzo, sobre o método da teologia sistemática, e de Rino Fisichella, sobre o da fundamental.
A escuta da fé
No primeiro momento o teólogo procura a fé nas fontes que a contêm e exprimem, os lugares teológicos, que a próxima aula vai estudar. Nesta fase ele é herdeiro, e não autor: recebe um significado já transmitido à humanidade.
A exigência não é apenas metodológica. Ela vem do modo como o próprio Cristo quis transmitir o Evangelho: não disse aos Apóstolos que escrevessem os dogmas e depois os ensinassem, disse que fossem e pregassem a toda criatura. A pregação é o instrumento primeiro, e a escuta vem dela.
Ergo fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi.
Logo, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo.
Juliano Pomério, sacerdote do século quinto, encadeia toda a sequência no seu tratado sobre a vida contemplativa: não é da inteligência que nasce a fé, é da fé que nasce a inteligência; prega-se para que ouça quem vai crer, crê-se para compreender, e compreende-se para agir bem. E observa uma coisa fina sobre o verso do salmo, não quis entender para fazer o bem: não está escrito que não pôde, e sim que não quis, porque recusar-se a entender é não querer crer.
Si non credideritis, non intelligetis.
Se não crerdes, não entendereis.
Duas exigências governam esta fase: estar balizada pelas fontes autênticas e extrair delas o significado genuíno. E uma advertência: não se podem assumir quaisquer categorias filosóficas ou de outras ciências, porque há aquelas cujos pressupostos são incompatíveis com a Revelação, como as aulas anteriores mostraram à exaustão.
O que o Concílio prescreve
Para que não pareça escolha pessoal, a aula lê o decreto Optatam totius, de 28 de outubro de 1965, sobre a formação dos futuros sacerdotes, onde os dois momentos aparecem em sequência.
Falta ali um elemento que o próprio Concílio nomeia adiante, o Magistério. Somados, o auditus fidei se faz de Escritura, Tradição e Magistério.
Sobre a história do dogma, a aula acrescenta a imagem que evita o mal-entendido: a tradição é viva como o caroço de manga que vira muda, depois arvorezinha e por fim árvore robusta. A Igreja já cria na Assunção muito antes de 1950; quando Pio XII a definiu, houve progressão sem ruptura.
Ouvir não é duvidar
Certificar-se de que algo é a fé da Igreja não é submeter o dogma à dúvida metódica de Descartes, nem à suspeita da teoria crítica, nem à desconstrução. É perguntar honestamente se aquilo que se lê num autor ou num concílio é a fé de dois mil anos, ou apenas um modo de época.
O caso trabalhado é a transubstanciação. Antes do Concílio, teólogos holandeses perguntaram se a palavra não seria coisa datada de Tomás e de Trento, e propuseram falar antes em transignificação e transfinalização, adaptando ao existencialismo como o Aquinate teria adaptado ao aristotelismo.
A verificação percorre as fontes. Na Escritura, o escândalo do capítulo sexto de João, quando muitos foram embora, e a dureza de São Paulo, ao dizer que quem come e bebe indignamente come e bebe a própria condenação, o que não se diz de uma metáfora. Na Tradição, a fé dos Padres e o culto que a Igreja desenvolveu. Na liturgia, o tratamento único dado a essa presença. No Magistério, Trento acolhendo o termo. Olhada a totalidade, conclui-se que não era moda de um doutor, e sim a fé de todos os tempos.
A inteligência da fé
Resolvida a primeira fase, começa a segunda. A necessidade de compreender o que se ouviu não é moderna: já nos séculos terceiro e quarto, para enfrentar as primeiras heresias, foi preciso recorrer a explicações lógicas e a argumentos filosóficos que não constavam do depósito.
Função explicativa
Explicitar as ideias contidas na Escritura e na Tradição, com os recursos que a filosofia oferece, entre eles a comparação e a analogia da fé, que faz ver a multiplicidade de ligações entre os dados revelados.
Função sintética
Ordenar e sistematizar, apreendendo a estrutura orgânica da Revelação e a subordinação dos mistérios entre si.
Função atualizadora
Expor o tesouro perene de modo inteligível aos contemporâneos, atento à linguagem e à sensibilidade do momento, sem sair do espírito do Evangelho e das coordenadas da doutrina.
No exemplo, isso significa penetrar o que Tomás pensava ao dizer transubstanciação, e ver ali a distinção aristotélica entre substância e acidente, que é o instrumento pelo qual se enxerga o que a Igreja crê a respeito da Eucaristia.
Até onde vai a atualização
A regra vem do discurso de abertura do Concílio, em 11 de outubro de 1962, e a aula o cita justamente contra o preconceito de que João XXIII seria modernista: a doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, há de ser aprofundada de forma a responder às exigências do nosso tempo. Primeiro a âncora no que se ouviu, depois a expressão nova.
Uma coisa é a substância do depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina; outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes contudo o mesmo sentido e o mesmo alcance.
É exatamente onde Paulo VI põe o limite, na Mysterium Fidei, de 1965: pode-se mudar a linguagem, desde que o sentido e o alcance permaneçam. E transignificação não conserva nem um nem outro, porque substância nomeia uma realidade ontológica presente, enquanto significado desliza para o simbolismo, que nem Lutero aceitou.
Isso não impede a adaptação pastoral, que a aula defende: ao acadêmico de pressupostos marxistas, como ao rapaz da calçada, a primeira abordagem talvez deva ser mais existencial e tocar o interior da vida; a conversão vem antes, e depois se conduz a pessoa ao que Tomás disse, sem negá-lo.
O ritmo
Os dois momentos não são etapas que se cumprem uma vez. A ciência teológica oscila ritmicamente entre eles: à escuta sucede a elaboração ativa do que se escutou, e depois o teólogo recua às fontes outra vez, para certificar-se da mensagem que elas contêm e da validade das conclusões a que chegou. A teologia consiste nessa escuta atenta dos testemunhos e na consideração crítica da palavra revelada.
O método é simples de enunciar e exigente de praticar: ouvir antes de pensar. Ouvir nas fontes autênticas, sabendo que isso não é submeter a fé à dúvida, e sim perguntar honestamente se aquilo é a fé de sempre. Depois pensar, explicando, ordenando e traduzindo para o próprio tempo. E o caso da transubstanciação mostra onde está a fronteira da tradução: muda-se a palavra, nunca o sentido nem o alcance. Os dois momentos não se cumprem uma vez só; a teologia vive do vaivém entre eles.