Santo Tomás de Aquino
Tomás não contradiz Agostinho: equilibra-o. O pecado original distorceu a razão, mas não a arruinou, e a prova está no próprio ato de fé, que é ato da inteligência, movido pela vontade sob a graça, e que assente por causa da autoridade de Deus. Daí a definição de teologia que ele herda de Anselmo, fides quaerens intellectum, e o realismo que a sustenta: o ato de fé não para no enunciado, vai até a coisa. Para chegar ao que não se pode ver, a inteligência dispõe da analogia, e é ela que torna possível falar de Deus a partir das criaturas.
Situar o homem
Nasceu por volta de 1225 em Roccasecca, no reino de Nápoles, e o patronímico vem da cidade de Aquino, ali perto. Entregue aos seis anos ao mosteiro de Monte Cassino como puer oblatus, era destinado pela família a ser abade, o que manteria a influência política da casa na região. Com pouco mais de dezenove anos vestiu o hábito branco dos dominicanos, que conhecera numa temporada de estudos em Nápoles, frustrando os planos dos pais ao tornar-se mendicante. Morreu em 1274, a caminho do Concílio de Lyon.
Foram quarenta e nove anos, e neles a teologia católica ficou marcada para sempre. Não é o mestre de uma escola entre outras: é o Doutor Comum, cuja autoridade em matéria filosófica e teológica o Magistério vem reconhecendo há séculos.
O que ele corrige em Agostinho
A aula anterior deixou Agostinho diante de uma dificuldade: a razão tomada pelo orgulho vê as coisas distorcidas, e é a graça que converte e conduz à verdade. Tomás não discorda. Concede que o pecado original distorceu a razão, e nega que a tenha arruinado. E a prova está no lugar onde menos se esperaria encontrá-la: no próprio ato de fé.
Porque o ato de fé é também um ato da razão. Se o pecado tivesse corrompido totalmente a racionalidade, o ato de fé seria impossível. Opor fé e razão, portanto, é absurdo: não são realidades que competem, são realidades que se completam.
A diferença entre os dois mestres é de ênfase e de equilíbrio, não de campo. Em Agostinho, a inteligência e a vontade têm pouca parte no ato de fé, e cabe à graça dobrar o orgulho e conduzir pela humildade. Em Tomás, Deus inteiro e homem inteiro concorrem: a inteligência está no núcleo do ato de fé, e é nele o agente primário, sem deixar de precisar da graça e do império da vontade.
Por que crer é um ato da inteligência
Quando vejo um objeto, o intelecto apreende o que ele é, e a certeza nasce da evidência da própria coisa. Dois mais dois são quatro: percebo-o e tenho certeza. O ato de fé não é assim. Ele nasce da escuta. Há uma autoridade que se revela, e essa autoridade diz algo que ninguém teria pensado por conta própria, como Deus é amor. Não vejo a evidência interna disso; confio em quem o diz.
É aqui que entra a vontade. Como falta a evidência intrínseca que determinaria o intelecto por si, a vontade ordena livremente à inteligência que creia, e é a inteligência que crê e tem certeza. Por isso o ato de fé é racional, ainda que a razão não veja a razão íntima daquilo em que crê.
O firme assentimento dado pela inteligência, movida pela vontade e pela graça de Deus, às verdades reveladas, por causa da autoridade do mesmo Deus que as revelou.
E há uma observação que desmonta a suposição corrente de que a fé seria uma certeza menor: no cálculo eu posso errar a conta, mas Deus não se engana nem me engana. A autoridade divina se funda em duas coisas, a infalibilidade no conhecer e a veracidade no dizer. Por isso a certeza da fé pode ser maior que a de dois mais dois.
O que a fé não é
Ao lado do ato está o hábito. A fé é também virtude sobrenatural e teologal, isto é, qualidade boa e permanente, ao contrário do ato, que é transitório; sobrenatural pelo objeto, pelo motivo e pela origem, já que é infundida na alma com a graça santificante; e teologal porque tem a Deus por objeto e a sua autoridade por motivo.
Os cinco princípios que concorrem
Quanto à graça, exige-se auxílio prévio de iluminação e de inspiração, por duas razões: porque o ato é sobrenatural, princípio em nós da vida divina e prelibação da visão beatífica, e porque é difícil. Difícil porque pede à inteligência adesão firme a verdades que a superam, o que se opõe à soberba intelectual, e porque traz consequências práticas, emenda de vida e desprezo do pecado, o que contraria as nossas inclinações. O Concílio Vaticano I guarda os dois lados: a adesão da fé não é movimento cego da alma, e ninguém consente à pregação evangélica sem a iluminação e a inspiração do Espírito Santo.
O que é teologia, então
Nem a razão sozinha nem o ato de fé sozinho são teologia. A fórmula que melhor a exprime vem de Anselmo de Cantuária, beneditino que viveu um século antes:
Fides quaerens intellectum.
A fé que busca compreender.
Note-se o particípio presente, quaerens: a fé procurante, a fé em ato de busca. Agostinho dissera algo aparentado por outro ângulo, credo ut intelligam, creio para entender, e ainda intellege ut credas, compreende para creres. Tomás põe a ênfase no movimento: a fé, que já é ato racional, tem sede de compreender-se a si mesma, e desse trabalho nasce a ciência teológica.
Daí que a teologia seja ciência especulativa e racional, e que Tomás não tenha medo de confiar na razão. A ruptura entre fé e razão, que viria na Baixa Idade Média e é o assunto da próxima aula, produziu tragédia de longo alcance, até os totalitarismos do século XX.
O realismo: ir até a coisa
Uma frase concentra a posição inteira.
Actus autem credentis non terminatur ad enuntiabile, sed ad rem.
O ato do crente não termina no enunciado, mas na realidade.
Quando creio, aceito uma palavra que me foi revelada, Deus é amor. Mas posso parar no enunciado e ficar numa disputa de vocábulos, ou atravessar a fórmula em direção à realidade que ela significa. É o segundo caminho que faz teologia, e é por isso que o Aquinate serve de antídoto contra o relativismo e contra as brigas de palavras. A aula é direta a respeito de certos debates de internet, em que gente que se julga tomista discute vocábulos: o problema não é a palavra, é a realidade por trás dela.
Daqui se tira também o objeto último da ciência sagrada. Não é a revelação histórica considerada em si, é Deus mesmo. E o próprio Tomás dá o exemplo extremo do que isso significa: o apóstolo Tomé, ao confessar a verdadeira fé diante do Cristo ressuscitado, tornou-se naquele instante um bom teólogo.
A analogia
Mas se só temos acesso à realidade criada, como falar de Deus? A resposta é a analogia, e o exemplo dado é caseiro. A palavra espírito nasce da experiência de respirar: o ar não se vê, não se apanha, parece não pesar, é livre, e quando falta vem a morte. Dessas experiências originárias o homem passa a nomear aquilo que nada tem de material.
A correspondência intrínseca entre os seres que, pertencendo a ordens diferentes, têm em comum o existir, isto é, participar daquele que é. Permite passar de uma verdade a outra que não é da mesma ordem, e capta numa realidade sensível algo que a ultrapassa, mantidas todas as proporções.
Por esse caminho Tomás é escolástico e ao mesmo tempo profundamente evangélico, porque os tijolos da parábola são analogias: Jesus toma experiências corriqueiras para fazer transcender.
E a analogia tem por pressuposto uma confissão de ignorância. Da essência divina não sabemos o que ela é. A nossa cognição natural, estendendo-se ao sensível, pode inferir das criaturas não o que Deus é, e sim que ele é; demonstrada a existência, alcançamos um conhecimento indireto e análogo dos atributos que lhe convêm. Ninguém sentiu isso mais fortemente que o próprio Tomás, que chega a dizer que de Deus só sabemos o que ele não é. E ainda assim a teologia é possível, porque Deus, fonte de todo ser, é o analogado principal de tudo o que existe, e todo agente produz algo semelhante a si.
Se Deus se revela, é porque há no homem uma racionalidade capaz de acolher a revelação. De que adiantaria Deus falar e não haver quem o ouça?
O que isto não autoriza
Convém não confundir esse apreço pela razão com teologia construída de baixo. Tomás não parte da filosofia para chegar à fé: parte do ato de fé, dentro do qual já está a razão, e usa a filosofia e a analogia como instrumentos.
A aula marca aqui a distância em relação a certos teólogos modernos, Karl Rahner entre eles, cujo movimento é o inverso, uma espécie de ratio quaerens fidem, um intelecto em busca da fé. A ordem dos termos não é detalhe de escola: define de onde se parte e aonde se chega. A razão não é suficiente, mas é instrumento adequado e necessário.
A contribuição de Tomás cabe em três movimentos. Primeiro, reabilita a razão sem negar a ferida do pecado, mostrando que crer é ato da inteligência movido pela vontade sob a graça. Segundo, define a teologia como a fé em busca de compreensão, e a fé como adesão que não para na fórmula e vai até a realidade. Terceiro, dá o instrumento que torna isso possível apesar de não sabermos o que Deus é: a analogia, que sobe do criado ao Criador mantidas as proporções.