Conclusão da parte histórica
A parte histórica inteira foi tema e variações sobre um só problema, a relação entre fé e razão. A fé é dado de todo cristão; a dificuldade aparece quando ele se põe a explicá-la, e é aí que nasce a teologia, com os seus dois momentos, ouvir a fé e compreendê-la. A aula responde à acusação de que a Igreja teria paganizado o cristianismo ao adotar a filosofia grega, mostrando que os filósofos fizeram entre os gregos o que os profetas fizeram em Israel, combater a idolatria. E percorre o que veio depois da cisão: Pascal e a sua frase, Kant suprimindo o saber para dar lugar à crença, a teologia liberal, Bultmann e a desmitologização, e a nova hermenêutica que se apresenta como Jesus histórico.
O fio das cinco aulas
A história do método teológico pode ser resumida como tema e variações sobre o relacionamento entre fé e razão. A fé já é um dado, é aquilo que todo cristão crê; a teologia começa quando ele se põe a explicá-la.
O percurso teve a sua curva. O começo foi conflitivo, a síntese se solidificou com os primeiros Padres gregos e sobretudo com Agostinho, e chegou ao ápice em Tomás. Depois do cume veio a descida: Escoto abre o caminho sem consumar a ruptura, Ockham a consuma, e a revolução luterana cristaliza uma tendência que já vinha de dois séculos.
A acusação de paganização
Corre entre protestantes a tese de que a Igreja teria paganizado o cristianismo ao abraçar a filosofia grega, e o rótulo usado para isso é cristianismo constantiniano: o cristianismo puro seria o de raiz hebraica, e o católico um sincretismo com a cultura helênica.
A resposta, que Ratzinger repete em vários livros, parte de uma observação histórica. Os profetas de Israel combateram a idolatria escarnecendo dos deuses falsos, e foi com eles que o monoteísmo se firmou, pois antes havia o compromisso de adorar um só entre muitos, e a pregação profética passa a negar que os outros sejam deuses. Ora, essa mesma função foi exercida no mundo grego pelos filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles escarneceram da religião antiga e apontaram para um só Deus, ainda desconhecido, a ser buscado pela razão.
Houve portanto uma preparação para o Evangelho entre os judeus e outra entre os pagãos, e a apropriação das categorias gregas não é eventualidade, e sim disposição da Providência. A própria fé, aliás, já é uma afirmação filosófica, porque professa a existência de um Deus senhor de todo o universo, afirmação sobre a realidade e não símbolo do inominável.
Daqui não se tira licença para inculturar o cristianismo em qualquer filosofia da moda, alegando que os Padres fizeram o mesmo com os gregos. O que houve no caso grego foi um trabalho de combate à idolatria, análogo ao dos profetas, e é isso que o torna terreno preparado. A analogia com o presente só valeria diante de um trabalho semelhante.
O que se parte quando se parte a síntese
Renunciar à razão não deixa a fé intacta, porque a razão reflete sobre o âmbito da criação e a fé sobre o âmbito da redenção. Cortada a primeira, sobram dois deuses, como faziam os gnósticos: um deus criador, mau ou desprezível, e um deus redentor, o único aceitável. Foi por aí que a teologia da cruz deixou de lado o Deus da criação, já que falar de criação é fazer teologia natural, o que o luteranismo interdita.
Excluir a ontologia da teologia não liberta o pensamento filosófico, antes o paralisa; e suprimir a ontologia da filosofia não purifica a teologia, mas retira-lhe o chão debaixo dos pés.
A frase é de Ratzinger, em Natureza e Missão da Teologia, e descreve de antemão toda a história que veio depois de Ockham e de Lutero: uma teologia paralítica e uma filosofia nas nuvens. A divisão não fica nas ciências: passa ao próprio Deus e à mente das pessoas.
Dentro de casa: Pascal
A oposição entre fé e razão também teve lugar no catolicismo, e ali a Igreja a condenou como heresia, no caso do jansenismo. A aula toma como sintoma a experiência de Blaise Pascal, convertido em 23 de novembro de 1654, que escreveu o relato daquela noite de fogo num memorial costurado no forro do casaco, encontrado depois da sua morte, onde se lê a distinção que ficaria célebre: Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não dos filósofos e dos sábios.
A frase do Memorial é expressão de uma experiência mística, e não precisa ser lida como tese teológica. O que a aula assinala nela é o sintoma: a cisão entre o Deus experimentado e o Deus alcançado pela razão aparece dentro de um grande matemático e filósofo, e é essa cisão que a tradição católica recusa, porque para o cristão os dois são o mesmo e único Deus.
Kant, e a ponte com Lutero
Kant, morto em 1804, é conhecido como expoente do iluminismo alemão, e o é; convém lembrar também que era pietista, homem de dentro da tradição luterana, ainda que heterodoxo, e é nesse âmbito que se entende o seu projeto.
Não temos acesso às coisas como são em si mesmas, o númeno, inteiramente transcendente; temos acesso apenas às coisas tal como a nossa mente as produz e nos aparecem, o fenômeno.
O paralelo com Ockham é imediato: de um lado o Deus incógnito e o real inacessível, do outro apenas o que foi decretado ou o que aparece. E a conclusão da Crítica da Razão Pura fecha o círculo com Lutero.
Tive pois de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença.
A fórmula com que Kant justifica o limite imposto à razão.
Está criada a esquizofrenia: o filósofo crítico que aceita o empirismo e a física nova é ao mesmo tempo um crente piedoso, e não vê nisso contradição alguma. Dessa ruptura saem duas linhas permanentes, o racionalismo iluminista de um lado e o fideísmo do outro, e das tentativas de conciliá-las nasce a teologia liberal, que faria estrago considerável também dentro do catolicismo.
A aula desarma aqui um atalho comum. Pôr no Concílio Vaticano II a culpa de tudo não resolve, porque o processo vinha minando a casa muito antes dele; se o problema fosse o concílio, bastaria outro que o desdissesse. O concílio não é herético, e nenhum concílio resolve magicamente uma infiltração de séculos.
Bultmann e a hermenêutica no lugar da verdade
O exemplo contemporâneo é Rudolf Bultmann, morto em 1976, e o seu projeto de desmitologização. A Bíblia teria dois planos: o Cristo da fé, criado pela fé das primeiras comunidades, que faz milagres, anda sobre as águas e ressuscita, e o Jesus histórico, acessível à razoabilidade científica, no qual nada disso teria acontecido.
Bultmann duvida que se chegue ao Jesus histórico, e a razão que dá é instrutiva: desde Harnack, cada tentativa produz um Jesus parecidíssimo com o teólogo que o inventou. O que resta, então, é hermenêutica: o Cristo da fé seria a interpretação feita dentro da visão de mundo de dois mil anos atrás, a ser adaptada à nossa. Aluno de Heidegger, ele oferece a sua, existencialista, e Jesus vira o homem que caminha autenticamente para a morte.
O problema é que a moda passa. Saído de cena o existencialismo, entra o marxismo, e com ele um Jesus revolucionário, e é isso que a teologia da libertação oferece enquanto declara seguir o Jesus histórico: mais uma hermenêutica, agora à luz do marxismo. Sem aliança entre fé e razão, o resultado é este par: um mundo inteiramente racionalista, onde milagre não existe, e um mundo inteiramente fideísta, onde a fé é sentimento que cada um vai inventando.
A resposta católica
À cisão luterana a Igreja respondeu a partir de Trento, e a resposta se firmou no Concílio Vaticano I, que condenou o fideísmo e o racionalismo, os dois lados da mesma ruptura. Não bastou: veio o modernismo, que São Pio X combateu sem que a questão se resolvesse.
Daí a tarefa que a aula assume como sua e do curso inteiro, na linha do que fizeram João Paulo II e Bento XVI: costurar de novo a aliança entre fé e razão. Para quem quiser aprofundar, ficam indicados Natureza e Missão da Teologia e, em registro mais completo, a Teoria dos Princípios Teológicos, do mesmo autor.
Parati semper ad satisfactionem omni poscenti vos rationem de ea, quæ in vobis est, spe.
Sempre prontos a dar resposta a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós.
Fecha-se a parte histórica com o diagnóstico do curso inteiro: fé e razão se sustentam mutuamente, e cada vez que uma foi cortada, a outra adoeceu. A filosofia grega não corrompeu a fé, preparou os pagãos como os profetas prepararam Israel. Rompida a aliança, o pensamento se cinde em racionalismo e fideísmo, e a teologia passa a produzir hermenêuticas sucessivas, cada uma parecida com o seu autor. Refazer essa aliança é a tarefa que o curso assume.