O gnosticismo e o arianismo
Os dois maiores perigos dos primeiros séculos ilustram, cada um à sua maneira, o princípio da aula anterior. O gnosticismo é a mentalidade pagã que entra na Igreja sem morrer para si: adota a linguagem cristã e a esvazia, pondo dentro o próprio conteúdo. O arianismo é o batizado que, diante de duas verdades de fé em tensão, escolhe uma e descarta a outra, e nisso está a definição mesma de heresia, que em grego quer dizer escolha. Contra os dois, católico é quem crê conforme o todo.
O que o gnosticismo é, e o que não é
Convém uma precisão de início. O gnosticismo não nasce como heresia cristã, mas como mentalidade pagã, surgida ao mesmo tempo que o cristianismo e crescendo ao lado dele. À medida que a Igreja ganhava adeptos, atraiu também gnósticos; e estes entraram sem abraçar a Igreja, trazendo consigo a própria leitura do mundo.
O método era o mesmo que se reconhece hoje: adotar a linguagem cristã, parasitá-la e pôr dentro dela um conteúdo que não é o da fé. Daí a gravidade: o perigo não estava no ecletismo das fontes, mas em apresentar-se como cristão e falar em nome da ortodoxia.
Os três núcleos doutrinários
A literatura gnóstica é dispersa e dificilmente se reduz a sistema, mas certos nexos aparecem em quase todos os documentos.
No fundo, tudo se apoia em duas ideias: a de um Deus infinitamente longínquo e a da miséria e abjeção infinitas do homem. Enquanto postura diante do próprio destino, essas ideias são anteriores a Cristo; quando se querem passar por cristãs, ameaçam não só a doutrina, mas sobretudo a ordem moral.
Onde isso bate na fé
A cisão valentiniana entre o Cristo éon e o Jesus homem prefigura, sob outra orientação, a separação moderna entre o Jesus histórico e o Cristo da fé.
O retrato do gnóstico, de ontem e de hoje
O gnóstico é o arquétipo permanente de quem deseja fazer parte da Igreja, e muitas vezes falar em nome dela, mas não quer morrer para si. À Verdade revelada prefere as próprias cogitações; à Tradição, as novidades; à humildade de crer o que creem todos os fiéis de todos os tempos, o requinte intelectual.
A versão contemporânea é reconhecível. Os gnósticos antigos diziam que os bispos ignoravam o sentido secreto das parábolas, conhecido só pelos iniciados. Hoje o mesmo gesto reaparece em quem se considera teólogo gabaritado e trata a fé dos bispos como cristianismo popular e supersticioso, enquanto lê a Escritura pela lente de uma filosofia que já não crê em milagres.
A resposta veio de Santo Irineu de Lião, e vale como critério: a Igreja, espalhada pelo mundo inteiro, guarda a pregação e a fé como se morasse numa só casa, e crê do mesmo modo, como se possuísse uma só alma e um só coração. As igrejas da Germânia não creem diferentemente das da Ibéria, das dos celtas, do Oriente ou do Egito. Não existe, portanto, a fé do Brasil ou a fé da América Latina: ou é a fé da Igreja inteira, de ontem, de hoje e de amanhã, ou não é católica.
Ário e a tensão que ele não suportou
O caso do arianismo é diferente, e por isso mesmo mais instrutivo. Ário não era um infiltrado. Era presbítero em Alexandria, entrou na Igreja e adotou a sua fé. O que ele encontrou foi uma dificuldade intelectual real: se Deus é um, como dizer que são três as pessoas? Duas verdades da fé que, à nossa cabeça, aparecem em tensão.
Diante da tensão, ele escolheu. Ficou com a unidade e sacrificou a trindade: quem é Deus é o Pai, e o Filho é criatura. E é exatamente nesse gesto que está a definição da coisa.
A predileção por uma verdade de fé em detrimento de outra, com a qual ela apenas em aparência se choca. Em termos lógicos, a proposição herética opõe-se direta e imediatamente, de modo contrário ou contraditório, a uma verdade de fé católica. Ário entrou na Igreja, mas não morreu inteiramente: continuou escolhendo.
A resposta católica: crer conforme o todo
Se herético é quem escolhe, católico é quem fica com as duas. A palavra o diz: katholikós, kath’ hólon, conforme o todo. A catolicidade da fé não está apenas em ser professada em todo lugar, mas em ser conforme a todas as verdades, e não a algumas.
Restava então o trabalho propriamente teológico, que Atanásio e os capadócios fizeram ao defender a divindade do Filho e do Espírito Santo. A distinção que abriu o nó foi entre duas perguntas: natureza responde o que é; pessoa responde quem é. Sendo perguntas diferentes, não há contradição em dizer uma natureza e três pessoas.
Isso não dissolve o mistério, e a teologia não existe para dissolvê-lo. A sua função é harmonizar, mostrando que a fé não é irracional, mas de uma racionalidade superior, na qual se enxerga a lógica das coisas sem precisar desvendar o que as excede.
O mesmo padrão explica um exemplo de hoje. Cremos que Cristo é o único mediador, e cremos também que a Virgem e os santos intercedem. O protestante escolhe uma e nega a outra, mas contradiz-se na prática, pois todo pastor reza pelos seus fiéis, e o próprio São Paulo rezava. A solução católica não escolhe: não há dois mediadores, há um só Cristo, cabeça e membros, e quem intercede o faz como membro do seu corpo.
O gnosticismo é a soberba da vida travestida de teologia. O arianismo é a lição histórica de que teologia se faz de joelhos, na Igreja e com a Igreja.
Omne quod est in mundo, concupiscentia carnis est, et concupiscentia oculorum, et superbia vitæ.
Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida.
Duas maneiras de não morrer para si. O gnóstico entra na Igreja e troca o conteúdo da fé mantendo as palavras. O herético fica dentro, mas escolhe entre as verdades quando elas parecem chocar-se. Contra os dois vale a mesma regra: crer conforme o todo, e deixar que a teologia harmonize o que não pode dissolver.