Introdução ao Método Teológico
CursosIntrodução ao Método TeológicoAula 5
Padre Paulo Ricardo · Aula 5 de 15

Duns Escoto e Guilherme de Ockham

Essência

A aula começa explicando devagar o que ficara como detalhe na anterior: a diferença entre termo unívoco, equívoco e análogo, e por que só a analogia permite falar de Deus, sempre com a cautela do IV Concílio de Latrão, que manda notar entre criador e criatura uma dessemelhança maior que a semelhança. Duns Escoto, homem santo, abandona a analogia pela univocidade do ser e dá o primado à vontade sobre o intelecto, para preservar a liberdade divina. Uma geração depois, Ockham radicaliza: se a vontade de Deus não está vinculada à verdade, não há ponte entre a nossa razão e ele, e resta só acolher pela fé o que ele quiser decretar. Está armado o caminho do fideísmo, e adiante o da Reforma.

unívoco, equívoco, análogo: a distinção elementar
só a analogia permite falar de Deus, com a cautela de Latrão
Escoto troca a analogia pela univocidade do ser
e dá o primado à vontade sobre o intelecto
Ockham radicaliza e rompe a ponte entre razão e Deus

Três modos de um termo significar

A distinção que a aula retoma do começo
Unívocoum termo, uma ideia: quando digo livro, você pensa exatamente nesta realidade
Equívocoum termo, duas ideias sem relação: manga é a da batina e é o fruto
Análogoum termo, duas ideias em parte semelhantes e em parte diferentes: a minha perna e a perna da cadeira

O caso da perna mostra bem o meio-termo. São realidades diferentes, mas não totalmente diferentes: a perna da cadeira está para a cadeira como a minha perna está para mim. Há semelhança e há dessemelhança ao mesmo tempo.

Ora, teologia é falar de Deus, e aí o problema aparece inteiro. Quando digo que esta goiabada é boa e que Deus é bom, uso a palavra no mesmo sentido? Se sim, atribuo a Deus a bondade das criaturas. Se as duas bondades nada tivessem em comum, o discurso seria equívoco e eu não estaria dizendo nada. A resposta do Aquinate é a analogia: entre a bondade que experimento no mundo e a bondade que Deus é em si mesmo há relação real, embora as duas não sejam a mesma.

A cautela do Concílio

O uso da analogia não é livre. O IV Concílio de Latrão, de 1215, fixou a medida que Tomás tinha bem presente:

Inter creatorem et creaturam non potest tanta similitudo notari, quin inter eos maior sit dissimilitudo notanda.

Entre o criador e a criatura não se pode notar semelhança tão grande que não se deva notar entre eles dessemelhança ainda maior.

IV Concílio de Latrão, 1215 · Denzinger-Schönmetzer 806
Nota bene

O Denzinger, mencionado em aula, é o volume que reúne os documentos do Magistério, compilado primeiro por Heinrich Denzinger e continuado por vários editores, o que explica os nomes compostos, Denzinger e Schönmetzer, Denzinger e Hünermann. A numeração varia entre as edições: esta passagem é o número 432 nas antigas e o 806 na numeração corrente. Vale a pena tê-lo à mão para quem vai estudar teologia.

A regra prática é simples. Posso dizer que o Criador é bom, tomando a bondade de que tenho experiência, desde que reconheça que a dessemelhança é sempre maior. A analogia sobe, mas sobe sabendo que não alcança.

Um santo que errou

Uma geração depois de Tomás, o beato João Duns Escoto, franciscano escocês, morto em 1308 com pouco mais de quarenta anos, causa uma confusão considerável no campo da teologia. E a aula faz aqui uma distinção que vale por si: uma coisa é ser santo, outra é estar certo. Errar não torna ninguém herege. Quem afirmasse que a terra é plana estaria errado, e nem por isso diria heresia.

O erro de Escoto é filosófico, e as consequências virão depois, pela mão de outros. Bento XVI, numa audiência geral de 7 de julho de 2010, expôs o pensamento do Doutor Subtil com serenidade, lembrando a sua santidade e a sua importância na defesa da Imaculada Conceição, e ao fim apontou o ponto delicado: a preocupação com a transcendência divina levou-o a dar primado à vontade, e disso viria o radicalismo posterior.

O univocismo

Univocidade do entea premissa que substitui a analogia

A tese de que o conceito de ser é unívoco, isto é, estritamente uno, aplicando-se sob uma só e mesma razão a Deus e às criaturas. Escoto a adota para salvar a metafísica como ciência, julgando que um conceito de ser apenas análogo não daria unidade nem certeza ao conhecimento.

O efeito, porém, é o contrário do pretendido. Um ser dito do mesmo modo de Deus e da cadeira já não significa nada de determinado: torna-se o puro determinável, sujeito abstrato da existência, sem determinação objetiva alguma. E se a analogia foi varrida, o acesso racional a Deus se fecha: eu não conheço Deus como conheço a cadeira, logo não posso falar dele, e ele passa a habitar uma luz absolutamente inacessível.

Vale notar a legitimidade da intenção. Escoto queria preservar Deus dos limites do pensamento humano, não metê-lo na caixa das nossas categorias. Falar da racionalidade divina como se fala da humana lhe soava antropomorfismo. A preocupação é justa; o preço pago por ela é que se torna alto demais.

Uma consequência lateral, e histórica: a insegurança que essa indeterminação produziu nas ciências especulativas ajuda a explicar a paixão crescente das universidades, sobretudo inglesas, pelas ciências físicas e matemáticas. Em Ockham nada mais poderá servir de base ao conhecimento senão o que é evidente aos sentidos ou deriva necessariamente da comparação entre eles.

O voluntarismo

O segundo movimento decorre do primeiro. Se o ser participado das criaturas se torna opaco, como conceber aquele que é o próprio ser subsistente? Só sabemos de Deus o que ele quis revelar, e a sua vontade começa a sobrepor-se à sua sabedoria.

Escoto raciocina assim: Deus é amor, e o amor é livre; logo a liberdade divina se marca pelo primado da vontade, e a inteligência vem depois. Em Agostinho e em Tomás, com ênfases diferentes, o primado era da inteligência. Aqui a ordem se inverte, e é essa inversão que a geração seguinte levará ao extremo.

Ockham, ou o que acontece quando se radicaliza

Guilherme de Ockham, também franciscano, morto em 1347, leva o primado da vontade ao limite: sendo Deus infinitamente livre e onipotente, poderia decretar qualquer coisa diferente do que hoje temos por verdade. Poderia estabelecer que o primeiro mandamento fosse odiar a Deus sobre todas as coisas. Poderia, dirá a escola ockhamista, ter-se encarnado num burro, num madeiro ou numa pedra. Poderia decretar que dois mais dois fossem cinco.

Nas mãos de Deus a verdade vira massa de modelar, e as consequências se encadeiam depressa. Se a onipotência não está vinculada à verdade, abre-se um abismo intransponível entre o que chamamos razão e Deus. Não há analogia possível, porque nada aqui embaixo guarda proporção com o que está lá em cima; dois mais dois são quatro apenas porque assim foi arbitrado.

O que se fecha, uma coisa depois da outra
A analogiasem proporção entre criado e Criador, a ponte cai
A teologia naturalo esforço filosófico de dizer algo de Deus perde o fundamento
A ciência teológicaempurrada para fora do campo racional, torna-se irracional e não científica
O que restaapenas o que Deus revelar, acolhido por pura fé: o caminho do fideísmo e do sola fide

Uma pedrinha desencadeada por um frade de boa vontade tornou-se uma grande avalanche.

O que veio depois

Rompido o equilíbrio entre natureza e graça, o esforço de encontrar no cosmos os vestígios do divino se reduz às ciências físicas e matemáticas, o mundo espiritual é abandonado, a filosofia degenera em criticismo e a teologia em ceticismo. Abrem-se os caminhos da Reforma e do Renascimento, e ainda o de um voluntarismo que, deformado, virá legitimar a vontade de poder e justificar a tirania do príncipe.

Nota bene

Não se trata de responsabilizar Escoto pelos rumos que a inteligência europeia tomou depois dele, nem de negar o valor da sua obra. Trata-se de reconhecer nela, em germe, frutos que outros colheram: o nominalismo de Ockham, a cisão moderna entre fé e razão, e o longo processo de secularização que historiadores contemporâneos ligam a essas mesmas raízes.

Sola fide.

Somente pela fé.

O princípio luterano, cujos alicerces esta aula localiza dois séculos antes
Pontos-chave
Um termo é unívoco quando tem uma só ideia, equívoco quando tem duas sem relação, análogo quando tem duas em parte semelhantes.
Só a analogia permite falar de Deus: entre a bondade criada e a bondade divina há relação real, sem identidade.
O IV Concílio de Latrão, de 1215, fixa a cautela: a dessemelhança entre criador e criatura é sempre maior que a semelhança.
Duns Escoto, beato e franciscano, morto em 1308, erra em filosofia sem ser herege: estar errado não é o mesmo que ser herege.
O univocismo põe o conceito de ser como estritamente uno para Deus e para as criaturas, e assim dispensa a analogia.
O resultado é o oposto do pretendido: o ser indeterminado nada diz, e Deus se torna inacessível ao discurso racional.
A intenção de Escoto era legítima: preservar a transcendência divina de todo antropomorfismo.
O voluntarismo inverte a ordem recebida e põe a vontade divina acima da inteligência.
Ockham radicaliza: Deus poderia decretar qualquer coisa, até o contraditório, e a verdade vira massa de modelar.
Sem analogia, cai a teologia natural, e a teologia é empurrada para fora do campo racional.
Resta o que Deus revelar, acolhido por pura fé: o fideísmo, e adiante o sola fide de Lutero.
Bento XVI, em 2010, elogiou Escoto e apontou com serenidade esse ponto delicado do primado da vontade.
Termos
Unívoco
termo com uma só ideia correspondente, dita no mesmo sentido em todos os casos.
Equívoco
termo com duas ideias sem relação entre si, como manga da batina e manga fruto.
Análogo
termo com duas ideias em parte semelhantes e em parte diversas; o meio entre unívoco e equívoco.
Univocismo
a tese escotista de que o conceito de ser é estritamente uno para Deus e para as criaturas.
Voluntarismo
o primado da vontade sobre o intelecto, em Deus e no homem; em teologia, faz de Deus um legislador arbitrário.
Nominalismo
a posição de Ockham, para quem só é base de conhecimento o que é evidente aos sentidos ou dele deriva.
Fideísmo
a atitude que, fechado o caminho da razão, reduz o acesso a Deus à pura aceitação do que foi revelado.
Para reter

A aula ensina primeiro a ferramenta e depois mostra quem a quebrou. A ferramenta é a analogia, que sobe da criatura ao Criador sabendo que a dessemelhança é sempre maior. Escoto, por zelo da transcendência, troca-a pela univocidade do ser e põe a vontade divina acima da inteligência; Ockham radicaliza e desliga a onipotência da verdade, e com isso não sobra ponte entre a razão e Deus. O que resta é acolher pela fé o que for decretado, e desse lugar sai a Reforma.

Fonte · Curso em vídeo, padrepauloricardo.org
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