Duns Escoto e Guilherme de Ockham
A aula começa explicando devagar o que ficara como detalhe na anterior: a diferença entre termo unívoco, equívoco e análogo, e por que só a analogia permite falar de Deus, sempre com a cautela do IV Concílio de Latrão, que manda notar entre criador e criatura uma dessemelhança maior que a semelhança. Duns Escoto, homem santo, abandona a analogia pela univocidade do ser e dá o primado à vontade sobre o intelecto, para preservar a liberdade divina. Uma geração depois, Ockham radicaliza: se a vontade de Deus não está vinculada à verdade, não há ponte entre a nossa razão e ele, e resta só acolher pela fé o que ele quiser decretar. Está armado o caminho do fideísmo, e adiante o da Reforma.
Três modos de um termo significar
O caso da perna mostra bem o meio-termo. São realidades diferentes, mas não totalmente diferentes: a perna da cadeira está para a cadeira como a minha perna está para mim. Há semelhança e há dessemelhança ao mesmo tempo.
Ora, teologia é falar de Deus, e aí o problema aparece inteiro. Quando digo que esta goiabada é boa e que Deus é bom, uso a palavra no mesmo sentido? Se sim, atribuo a Deus a bondade das criaturas. Se as duas bondades nada tivessem em comum, o discurso seria equívoco e eu não estaria dizendo nada. A resposta do Aquinate é a analogia: entre a bondade que experimento no mundo e a bondade que Deus é em si mesmo há relação real, embora as duas não sejam a mesma.
A cautela do Concílio
O uso da analogia não é livre. O IV Concílio de Latrão, de 1215, fixou a medida que Tomás tinha bem presente:
Inter creatorem et creaturam non potest tanta similitudo notari, quin inter eos maior sit dissimilitudo notanda.
Entre o criador e a criatura não se pode notar semelhança tão grande que não se deva notar entre eles dessemelhança ainda maior.
O Denzinger, mencionado em aula, é o volume que reúne os documentos do Magistério, compilado primeiro por Heinrich Denzinger e continuado por vários editores, o que explica os nomes compostos, Denzinger e Schönmetzer, Denzinger e Hünermann. A numeração varia entre as edições: esta passagem é o número 432 nas antigas e o 806 na numeração corrente. Vale a pena tê-lo à mão para quem vai estudar teologia.
A regra prática é simples. Posso dizer que o Criador é bom, tomando a bondade de que tenho experiência, desde que reconheça que a dessemelhança é sempre maior. A analogia sobe, mas sobe sabendo que não alcança.
Um santo que errou
Uma geração depois de Tomás, o beato João Duns Escoto, franciscano escocês, morto em 1308 com pouco mais de quarenta anos, causa uma confusão considerável no campo da teologia. E a aula faz aqui uma distinção que vale por si: uma coisa é ser santo, outra é estar certo. Errar não torna ninguém herege. Quem afirmasse que a terra é plana estaria errado, e nem por isso diria heresia.
O erro de Escoto é filosófico, e as consequências virão depois, pela mão de outros. Bento XVI, numa audiência geral de 7 de julho de 2010, expôs o pensamento do Doutor Subtil com serenidade, lembrando a sua santidade e a sua importância na defesa da Imaculada Conceição, e ao fim apontou o ponto delicado: a preocupação com a transcendência divina levou-o a dar primado à vontade, e disso viria o radicalismo posterior.
O univocismo
A tese de que o conceito de ser é unívoco, isto é, estritamente uno, aplicando-se sob uma só e mesma razão a Deus e às criaturas. Escoto a adota para salvar a metafísica como ciência, julgando que um conceito de ser apenas análogo não daria unidade nem certeza ao conhecimento.
O efeito, porém, é o contrário do pretendido. Um ser dito do mesmo modo de Deus e da cadeira já não significa nada de determinado: torna-se o puro determinável, sujeito abstrato da existência, sem determinação objetiva alguma. E se a analogia foi varrida, o acesso racional a Deus se fecha: eu não conheço Deus como conheço a cadeira, logo não posso falar dele, e ele passa a habitar uma luz absolutamente inacessível.
Vale notar a legitimidade da intenção. Escoto queria preservar Deus dos limites do pensamento humano, não metê-lo na caixa das nossas categorias. Falar da racionalidade divina como se fala da humana lhe soava antropomorfismo. A preocupação é justa; o preço pago por ela é que se torna alto demais.
Uma consequência lateral, e histórica: a insegurança que essa indeterminação produziu nas ciências especulativas ajuda a explicar a paixão crescente das universidades, sobretudo inglesas, pelas ciências físicas e matemáticas. Em Ockham nada mais poderá servir de base ao conhecimento senão o que é evidente aos sentidos ou deriva necessariamente da comparação entre eles.
O voluntarismo
O segundo movimento decorre do primeiro. Se o ser participado das criaturas se torna opaco, como conceber aquele que é o próprio ser subsistente? Só sabemos de Deus o que ele quis revelar, e a sua vontade começa a sobrepor-se à sua sabedoria.
Escoto raciocina assim: Deus é amor, e o amor é livre; logo a liberdade divina se marca pelo primado da vontade, e a inteligência vem depois. Em Agostinho e em Tomás, com ênfases diferentes, o primado era da inteligência. Aqui a ordem se inverte, e é essa inversão que a geração seguinte levará ao extremo.
Ockham, ou o que acontece quando se radicaliza
Guilherme de Ockham, também franciscano, morto em 1347, leva o primado da vontade ao limite: sendo Deus infinitamente livre e onipotente, poderia decretar qualquer coisa diferente do que hoje temos por verdade. Poderia estabelecer que o primeiro mandamento fosse odiar a Deus sobre todas as coisas. Poderia, dirá a escola ockhamista, ter-se encarnado num burro, num madeiro ou numa pedra. Poderia decretar que dois mais dois fossem cinco.
Nas mãos de Deus a verdade vira massa de modelar, e as consequências se encadeiam depressa. Se a onipotência não está vinculada à verdade, abre-se um abismo intransponível entre o que chamamos razão e Deus. Não há analogia possível, porque nada aqui embaixo guarda proporção com o que está lá em cima; dois mais dois são quatro apenas porque assim foi arbitrado.
Uma pedrinha desencadeada por um frade de boa vontade tornou-se uma grande avalanche.
O que veio depois
Rompido o equilíbrio entre natureza e graça, o esforço de encontrar no cosmos os vestígios do divino se reduz às ciências físicas e matemáticas, o mundo espiritual é abandonado, a filosofia degenera em criticismo e a teologia em ceticismo. Abrem-se os caminhos da Reforma e do Renascimento, e ainda o de um voluntarismo que, deformado, virá legitimar a vontade de poder e justificar a tirania do príncipe.
Não se trata de responsabilizar Escoto pelos rumos que a inteligência europeia tomou depois dele, nem de negar o valor da sua obra. Trata-se de reconhecer nela, em germe, frutos que outros colheram: o nominalismo de Ockham, a cisão moderna entre fé e razão, e o longo processo de secularização que historiadores contemporâneos ligam a essas mesmas raízes.
Sola fide.
Somente pela fé.
A aula ensina primeiro a ferramenta e depois mostra quem a quebrou. A ferramenta é a analogia, que sobe da criatura ao Criador sabendo que a dessemelhança é sempre maior. Escoto, por zelo da transcendência, troca-a pela univocidade do ser e põe a vontade divina acima da inteligência; Ockham radicaliza e desliga a onipotência da verdade, e com isso não sobra ponte entre a razão e Deus. O que resta é acolher pela fé o que for decretado, e desse lugar sai a Reforma.