Introdução ao Método Teológico
CursosIntrodução ao Método TeológicoAula 8
Padre Paulo Ricardo · Aula 8 de 15

Definição e natureza da teologia

Essência

Abre-se a parte sistemática com a definição que atravessa o curso: teologia é a fé que busca compreender, e a Donum Veritatis a chama de crente busca da compreensão da fé. A fórmula é uma prosopopeia, porque quem busca não é a fé, é o crente. Contra a cisão herdada de Ockham e de Lutero, a aula desmonta a suposição de que crer seja irracional, examinando a psicologia do ato de fé pelo caso de Pedro na barca: há indícios de credibilidade, o intelecto apresenta à vontade como desejável o que se lhe mostrou crível, e a vontade ordena crer, tudo sob a graça. A fé é ato intelectual que deixa livre, porque Deus quer o amor e por isso se esconde. Ao fim, o senso ilativo de Newman explica como a inteligência conclui com segurança onde a lógica formal não alcança.

teologia é a fé em busca de compreensão
quem busca é o crente, não a fé personificada
crer não é irracional: há indícios de credibilidade
o intelecto propõe, a vontade ordena, a graça precede
e o senso ilativo conclui onde a lógica formal não chega

A definição, e quem é o sujeito dela

Encerrada a parte histórica, a sistemática começa pela definição tradicional, a fórmula de Anselmo: fides quaerens intellectum, a fé que procura a compreensão, com quaerens no particípio presente, a fé em ato de busca. O mesmo aparece na Donum Veritatis, logo no número um, que fala do serviço à doutrina que implica a crente busca da compreensão da fé, isto é, a teologia.

Repare-se no adjetivo, porque a aula insiste nele: o teólogo é crente, e sem fé não há teologia. E a fórmula é uma figura de linguagem: a fé não busca nada, quem busca é aquele que crê.

Nota bene

Há aqui uma nota autobiográfica que reaparecerá na aula 12: o professor trabalhou na tradução desse documento para o português, ainda diácono, junto com um sacerdote brasileiro, num dos serviços que prestou à Congregação para a Doutrina da Fé quando Ratzinger era prefeito. Conta o costume da casa, os tradutores reunidos à mesa cotejando o texto enquanto alguém lê o original, com o cardeal presente várias vezes.

A harmonia que a modernidade rompeu

A definição já elimina uma dificuldade inteira. Para Ockham e para Lutero a fé é ato irracional, e daí a cisão interior que faz a razão dizer uma coisa enquanto se crê outra. Dentro da Igreja isso não existe: há harmonia entre fé e razão, que às vezes parece tensa, mas segue o mesmo caminho.

As duas grandes correntes divergem em ênfase, não em substância. A tomista é mais intelectualista, a agostiniana fala mais do amor, e ainda assim ambas põem a fé em sintonia com a intelecção. A prova é uma frase de São Boaventura, que é da linhagem agostiniana:

Quando a fé dá o seu assentimento não por causa da razão, mas por causa do amor daquele a quem consente, deseja ainda assim encontrar razões.

Ou seja, o amor não é cego: mesmo quando diz sim por amor, quer saber por que diz sim.

A psicologia do ato de fé

De onde vem essa harmonia? Da natureza do próprio ato de crer, que já é intelectual desde o início. Antes de descrevê-lo, uma ressalva necessária: a graça precede e acompanha todo o processo, preveniente e adjuvante, como ensina o Vaticano I. Não se trata de reduzir a fé a operação humana, e sim de examinar a natureza que a graça supõe.

O exemplo é Pedro na barca. A pregação lhe aquece o coração, e ele reconhece ali algo que ilumina a vida e corresponde à sua sede de sentido. Vem depois a pesca milagrosa, e com ela o espanto. Nada disso é absurdo nem irracional: são indícios de credibilidade, algo dotado de luminosidade que interpela a inteligência sem esclarecer tudo, talvez por excesso de luz.

Os passos internos do ato de fé
A graçapreveniente e adjuvante, está antes e acompanha tudo
O intelectoencontra motivos e indícios de credibilidade, e admite como verdadeiro o que não vê por evidência intrínseca
A proposta à vontadeo crível e verdadeiro é apresentado como bom, desejável, apetecível; ninguém crê no que lhe repugna
A vontadeordena ao intelecto que creia, e nisso presta a Deus o obséquio da obediência

Præceptor, per totam noctem laborantes nihil cepimus: in verbo autem tuo laxabo rete.

Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas, por causa da tua palavra, lançarei a rede.

Lucas 5, 5

Ali está a razão formal da fé em quatro palavras: por causa da tua palavra, isto é, por causa de quem fala. E é o que define o Concílio Vaticano I: cremos ser verdade o que Deus revela, não pela verdade intrínseca das coisas conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus revelante, que não pode enganar-se nem enganar.

A certeza, e por que alguns não creem

A certeza da fédistinção a reter

A fé é assentimento certo, e não assentimento com dúvida. Distingue-se da dúvida, que permanece suspensa entre o sim e o não, e da opinião, que assente duvidando.

Daí a pergunta incômoda: se Pedro viu os milagres e creu, por que os fariseus viram e não creram? Porque o pecador não pode querer que o Evangelho seja verdadeiro. Admitir o milagre é admitir que a doutrina daquele que o faz é verdadeira, e então é preciso mudar de vida.

A aula dá exemplos duros e contemporâneos: o adolescente que se afasta não tem, no fundo, um problema de fé, tem um problema moral; o acadêmico, o empresário, o político e mesmo certos padres que precisam de uma fé adaptada aos tempos, porque crer sem alteração nos milagres obrigaria a crer sem alteração na doutrina, e a doutrina cobraria a vida.

Um ato intelectual que deixa livre

Há atos da inteligência que não deixam liberdade nenhuma. Dois mais dois são quatro, e diante disso ninguém é livre; há um copo aqui, e fechar os olhos não desfaz o que se viu. A fé é ato intelectual de outra espécie: deixa livre.

E deixa livre por um motivo que é o coração da aula. Deus quer fazer brotar o amor, e o amor tem de ser livre. Se Deus se apresentasse tal como é, acabaria a liberdade. Por isso ele se esconde, e nesse esconder-se dá a oportunidade de responder livremente com a fé.

O senso ilativo, de Newman

Falta explicar aquele primeiro passo, o do intelecto diante dos indícios. É aí que entra a noção que John Henry Newman desenvolveu na Gramática do Assentimento, e que a aula apresenta pelos exemplos de Napoleão na guerra e de Newton na ciência: homens que chegavam a conclusões certeiras por uma capacidade que não se reduz ao raciocínio formal.

Senso ilativoo conceito central da aula

O poder de julgar e inferir levado à sua perfeição. Não é perícia argumentativa, é a própria faculdade raciocinativa da inteligência, que alcança verdades para além de qualquer processo lógico-formal, porque a mente é organismo vivo e não sistema mecânico.

Newman o demonstra pela investigação histórica: nem o domínio dos fatos nem a instrução lógica bastam ao historiador, que trabalha sempre com subsídios colaterais não demonstrados e pressupostos que vêm do seu próprio estado de pensamento. Daí não se segue que não haja verdade objetiva; segue-se que as nossas diferenças são mais profundas que o acidente das circunstâncias, e que é preciso a interposição de um Poder maior que o ensino e o argumento humanos para tornar verdadeiras as nossas crenças e uma só as nossas mentes.

Quatro propriedades do senso ilativo
É um sóo mesmo em qualquer matéria: não se raciocina de um modo na química e de outro na religião
É desigualcada pessoa o exerce em campos definidos, podendo tê-lo na história e não na filosofia
Procede sempre do mesmo modopelo método de raciocínio que é o princípio elementar do cálculo
É o critério últimonão há, na ciência experimental, na história ou na teologia, teste derradeiro além da fiabilidade dele

Quanto à fé, Newman aceita a premissa escolástica de que os preâmbulos da fé podem ser demonstrados racionalmente, e observa que o assentimento a eles se dá antes por um ato do senso ilativo do que por persuasão lógica, sem excluir a graça nem a vontade. Com isso a fé se torna assentimento real às realidades reveladas, e não apenas concordância nocional com fórmulas. E é nesse ponto que, tendo divergido de Tomás na psicologia da fé, ele acaba perfeitamente tomista: para ambos, a fé não para nos enunciados e atinge a própria Realidade que eles exprimem.

Uma realidade mística

Resta o que a definição de Anselmo não diz e a tradição sempre soube. Sendo realidade eclesial, exercida em comunhão com todo o Corpo, a teologia não é investigação acadêmica feita à margem do que a Igreja sente e crê; ela se manifesta no teólogo, ao cabo de um trabalho de purificação da vida e das potências interiores, como vigília espiritual e oração incessante.

Εἰ θεολόγος εἶ, προσεύξῃ ἀληθῶς· καὶ εἰ ἀληθῶς προσεύξῃ, θεολόγος εἶ.

Se és teólogo, oras verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo.

Evágrio Pôntico, Sobre a Oração, 61

Por esse vínculo entre teologia e oração, todo verdadeiro teólogo é também um místico, e ao grau de assimilação a Cristo corresponde percepção proporcionalmente mais acurada das realidades divinas, não porque elas virem objeto de conhecimento sistemático, mas porque santificam a vida e a inteligência de quem estuda.

Pontos-chave
A parte sistemática abre com a definição de Anselmo: a fé em ato de busca da compreensão.
A Donum Veritatis fala da crente busca da compreensão da fé: sem fé não há teólogo.
A fórmula é prosopopeia: quem busca não é a fé, é aquele que crê.
Para Ockham e Lutero a fé é irracional; na tradição católica fé e razão estão em harmonia.
Tomistas e agostinianos divergem na ênfase, não na substância: Boaventura diz que o amor deseja ter razões.
A graça é preveniente e adjuvante: está antes do ato de fé e o acompanha inteiro.
No caso de Pedro há indícios de credibilidade: a doutrina que ilumina e o milagre que espanta.
O intelecto admite o que não vê por evidência própria; a vontade, atraída pelo bem, ordena que creia.
Por causa da tua palavra: a razão formal da fé é a autoridade de quem revela, que não se engana nem engana.
A fé é assentimento certo, distinto da dúvida, que fica suspensa, e da opinião, que assente duvidando.
Os fariseus viram e não creram porque admitir o milagre obriga a admitir a doutrina, e a doutrina cobra a vida.
A fé é o raro ato intelectual que deixa livre, porque Deus quer o amor e por isso se esconde.
O senso ilativo é o poder de julgar e inferir em sua perfeição, além do processo lógico-formal.
Ele é o mesmo em toda matéria, desigual em cada pessoa, e é o critério último das nossas inferências.
O assentimento aos preâmbulos da fé se dá mais por ato do senso ilativo que por persuasão lógica.
Newman termina tomista: a fé não para nos enunciados e alcança a Realidade que eles exprimem.
A teologia é também realidade mística: quem ora verdadeiramente é teólogo, e quem é teólogo ora.
Termos
Fides quaerens intellectum
a fé em ato de busca da compreensão; definição tradicional de teologia, formulada por Anselmo.
Indícios de credibilidade
os sinais que tornam razoável o assentimento sem dar evidência intrínseca do que se crê.
Graça preveniente e adjuvante
a que precede o ato de fé, movendo a crer, e a que o acompanha do princípio ao fim.
Certeza da fé
assentimento firme, sem dúvida; distingue-se da suspensão do juízo e da opinião.
Senso ilativo
a faculdade raciocinativa levada à perfeição, que conclui com segurança onde a lógica formal não alcança.
Preambula fidei
as verdades que precedem a fé e podem ser demonstradas pela razão, embora o assentimento a elas se dê por ato ilativo.
Para reter

A aula responde a uma acusação antiga, a de que crer seria abdicar da razão, desmontando o ato de fé por dentro: há indícios que tornam razoável o assentimento, o intelecto propõe à vontade o que se lhe mostrou crível e bom, e a vontade manda crer, com a graça antes e ao redor de tudo. A fé é o ato intelectual que deixa livre, e deixa porque Deus quer amor e se esconde para obtê-lo. Newman explica o resto: a inteligência conclui com segurança por uma faculdade que excede a lógica formal. E fica o critério de Evágrio: quem ora verdadeiramente é teólogo.

Fonte · Curso em vídeo, padrepauloricardo.org
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