Definição e natureza da teologia
Abre-se a parte sistemática com a definição que atravessa o curso: teologia é a fé que busca compreender, e a Donum Veritatis a chama de crente busca da compreensão da fé. A fórmula é uma prosopopeia, porque quem busca não é a fé, é o crente. Contra a cisão herdada de Ockham e de Lutero, a aula desmonta a suposição de que crer seja irracional, examinando a psicologia do ato de fé pelo caso de Pedro na barca: há indícios de credibilidade, o intelecto apresenta à vontade como desejável o que se lhe mostrou crível, e a vontade ordena crer, tudo sob a graça. A fé é ato intelectual que deixa livre, porque Deus quer o amor e por isso se esconde. Ao fim, o senso ilativo de Newman explica como a inteligência conclui com segurança onde a lógica formal não alcança.
A definição, e quem é o sujeito dela
Encerrada a parte histórica, a sistemática começa pela definição tradicional, a fórmula de Anselmo: fides quaerens intellectum, a fé que procura a compreensão, com quaerens no particípio presente, a fé em ato de busca. O mesmo aparece na Donum Veritatis, logo no número um, que fala do serviço à doutrina que implica a crente busca da compreensão da fé, isto é, a teologia.
Repare-se no adjetivo, porque a aula insiste nele: o teólogo é crente, e sem fé não há teologia. E a fórmula é uma figura de linguagem: a fé não busca nada, quem busca é aquele que crê.
Há aqui uma nota autobiográfica que reaparecerá na aula 12: o professor trabalhou na tradução desse documento para o português, ainda diácono, junto com um sacerdote brasileiro, num dos serviços que prestou à Congregação para a Doutrina da Fé quando Ratzinger era prefeito. Conta o costume da casa, os tradutores reunidos à mesa cotejando o texto enquanto alguém lê o original, com o cardeal presente várias vezes.
A harmonia que a modernidade rompeu
A definição já elimina uma dificuldade inteira. Para Ockham e para Lutero a fé é ato irracional, e daí a cisão interior que faz a razão dizer uma coisa enquanto se crê outra. Dentro da Igreja isso não existe: há harmonia entre fé e razão, que às vezes parece tensa, mas segue o mesmo caminho.
As duas grandes correntes divergem em ênfase, não em substância. A tomista é mais intelectualista, a agostiniana fala mais do amor, e ainda assim ambas põem a fé em sintonia com a intelecção. A prova é uma frase de São Boaventura, que é da linhagem agostiniana:
Quando a fé dá o seu assentimento não por causa da razão, mas por causa do amor daquele a quem consente, deseja ainda assim encontrar razões.
Ou seja, o amor não é cego: mesmo quando diz sim por amor, quer saber por que diz sim.
A psicologia do ato de fé
De onde vem essa harmonia? Da natureza do próprio ato de crer, que já é intelectual desde o início. Antes de descrevê-lo, uma ressalva necessária: a graça precede e acompanha todo o processo, preveniente e adjuvante, como ensina o Vaticano I. Não se trata de reduzir a fé a operação humana, e sim de examinar a natureza que a graça supõe.
O exemplo é Pedro na barca. A pregação lhe aquece o coração, e ele reconhece ali algo que ilumina a vida e corresponde à sua sede de sentido. Vem depois a pesca milagrosa, e com ela o espanto. Nada disso é absurdo nem irracional: são indícios de credibilidade, algo dotado de luminosidade que interpela a inteligência sem esclarecer tudo, talvez por excesso de luz.
Præceptor, per totam noctem laborantes nihil cepimus: in verbo autem tuo laxabo rete.
Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas, por causa da tua palavra, lançarei a rede.
Ali está a razão formal da fé em quatro palavras: por causa da tua palavra, isto é, por causa de quem fala. E é o que define o Concílio Vaticano I: cremos ser verdade o que Deus revela, não pela verdade intrínseca das coisas conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus revelante, que não pode enganar-se nem enganar.
A certeza, e por que alguns não creem
A fé é assentimento certo, e não assentimento com dúvida. Distingue-se da dúvida, que permanece suspensa entre o sim e o não, e da opinião, que assente duvidando.
Daí a pergunta incômoda: se Pedro viu os milagres e creu, por que os fariseus viram e não creram? Porque o pecador não pode querer que o Evangelho seja verdadeiro. Admitir o milagre é admitir que a doutrina daquele que o faz é verdadeira, e então é preciso mudar de vida.
A aula dá exemplos duros e contemporâneos: o adolescente que se afasta não tem, no fundo, um problema de fé, tem um problema moral; o acadêmico, o empresário, o político e mesmo certos padres que precisam de uma fé adaptada aos tempos, porque crer sem alteração nos milagres obrigaria a crer sem alteração na doutrina, e a doutrina cobraria a vida.
Um ato intelectual que deixa livre
Há atos da inteligência que não deixam liberdade nenhuma. Dois mais dois são quatro, e diante disso ninguém é livre; há um copo aqui, e fechar os olhos não desfaz o que se viu. A fé é ato intelectual de outra espécie: deixa livre.
E deixa livre por um motivo que é o coração da aula. Deus quer fazer brotar o amor, e o amor tem de ser livre. Se Deus se apresentasse tal como é, acabaria a liberdade. Por isso ele se esconde, e nesse esconder-se dá a oportunidade de responder livremente com a fé.
O senso ilativo, de Newman
Falta explicar aquele primeiro passo, o do intelecto diante dos indícios. É aí que entra a noção que John Henry Newman desenvolveu na Gramática do Assentimento, e que a aula apresenta pelos exemplos de Napoleão na guerra e de Newton na ciência: homens que chegavam a conclusões certeiras por uma capacidade que não se reduz ao raciocínio formal.
O poder de julgar e inferir levado à sua perfeição. Não é perícia argumentativa, é a própria faculdade raciocinativa da inteligência, que alcança verdades para além de qualquer processo lógico-formal, porque a mente é organismo vivo e não sistema mecânico.
Newman o demonstra pela investigação histórica: nem o domínio dos fatos nem a instrução lógica bastam ao historiador, que trabalha sempre com subsídios colaterais não demonstrados e pressupostos que vêm do seu próprio estado de pensamento. Daí não se segue que não haja verdade objetiva; segue-se que as nossas diferenças são mais profundas que o acidente das circunstâncias, e que é preciso a interposição de um Poder maior que o ensino e o argumento humanos para tornar verdadeiras as nossas crenças e uma só as nossas mentes.
Quanto à fé, Newman aceita a premissa escolástica de que os preâmbulos da fé podem ser demonstrados racionalmente, e observa que o assentimento a eles se dá antes por um ato do senso ilativo do que por persuasão lógica, sem excluir a graça nem a vontade. Com isso a fé se torna assentimento real às realidades reveladas, e não apenas concordância nocional com fórmulas. E é nesse ponto que, tendo divergido de Tomás na psicologia da fé, ele acaba perfeitamente tomista: para ambos, a fé não para nos enunciados e atinge a própria Realidade que eles exprimem.
Uma realidade mística
Resta o que a definição de Anselmo não diz e a tradição sempre soube. Sendo realidade eclesial, exercida em comunhão com todo o Corpo, a teologia não é investigação acadêmica feita à margem do que a Igreja sente e crê; ela se manifesta no teólogo, ao cabo de um trabalho de purificação da vida e das potências interiores, como vigília espiritual e oração incessante.
Εἰ θεολόγος εἶ, προσεύξῃ ἀληθῶς· καὶ εἰ ἀληθῶς προσεύξῃ, θεολόγος εἶ.
Se és teólogo, oras verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo.
Por esse vínculo entre teologia e oração, todo verdadeiro teólogo é também um místico, e ao grau de assimilação a Cristo corresponde percepção proporcionalmente mais acurada das realidades divinas, não porque elas virem objeto de conhecimento sistemático, mas porque santificam a vida e a inteligência de quem estuda.
A aula responde a uma acusação antiga, a de que crer seria abdicar da razão, desmontando o ato de fé por dentro: há indícios que tornam razoável o assentimento, o intelecto propõe à vontade o que se lhe mostrou crível e bom, e a vontade manda crer, com a graça antes e ao redor de tudo. A fé é o ato intelectual que deixa livre, e deixa porque Deus quer amor e se esconde para obtê-lo. Newman explica o resto: a inteligência conclui com segurança por uma faculdade que excede a lógica formal. E fica o critério de Evágrio: quem ora verdadeiramente é teólogo.