Lugares teológicos
Lugar teológico é a casa onde mora um argumento da fé. O termo vem da tópica de Aristóteles, passa por Cícero e Quintiliano e chega a Tomás, que distingue o lugar fundado na razão humana, o mais frágil, do fundado na revelação divina, o mais eficaz. Coube a Melchior Cano, dominicano de Salamanca e padre conciliar em Trento, sistematizar dez desses lugares, sete próprios e três adscritos, exatamente como resposta ao monismo bíblico da sola scriptura. Eles não se deixam hierarquizar de modo simples, porque são de naturezas diversas e dependem uns dos outros; funcionam como os sentidos diante de um mesmo objeto, e é essa sinfonia que dá catolicidade à teologia. Por isso o método teológico depende da eclesiologia que se tem.
De onde vem a palavra
Lugar, locus, no grego tópos, no sentido de princípio ou fonte de argumentos para uma disputa, aparece primeiro nos Tópicos de Aristóteles, cujo objetivo é achar um método pelo qual se possa argumentar sobre qualquer assunto proposto sem cair em contradição.
A tradição retórica posterior vive disso. Cícero chama os lugares de fontes de onde promanam os argumentos, e faz deles o princípio da arte de encontrar e ordenar o que dizer. Quintiliano é ainda mais plástico: lugar é a morada onde os argumentos residem e devem ser procurados. Os dialéticos renascentistas se comprazem em listá-los, e um humanista como Rodolfo Agrícola chega a enumerar trinta.
O lugar próprio da teologia
A noção não é estranha à teologia. Tomás defende o direito de a ciência sagrada argumentar a partir da autoridade da revelação, e faz ali uma distinção decisiva.
Licet locus ab auctoritate quæ fundatur super ratione humana sit infirmissimus, locus tamen ab auctoritate quæ fundatur super revelatione divina est efficacissimus.
Ainda que o lugar fundado na autoridade da razão humana seja o mais frágil de todos, o lugar fundado na autoridade da revelação divina é o mais eficaz.
Toda argumentação parte da razão ou de alguma autoridade, porque a inteligência só adere à verdade pela evidência do objeto ou pela autoridade de quem a proclama. Nas disciplinas profanas quem conduz é a razão; na teologia o lugar de destaque é da autoridade divina, e as razões entram como hóspedes ou peregrinas.
Cano e o motivo do seu tratado
Melchior Cano, dominicano espanhol, professor por longo tempo em Salamanca e presente ao Concílio de Trento entre 1551 e 1552, morto em 1560, foi o primeiro a tratar formalmente da questão, e tinha consciência disso: diz no proêmio que nenhum teólogo até então havia versado sobre esse gênero de problema, e que o teólogo precisa, além da arte de argumentar que recebe dos dialéticos, de outros lugares próprios, donde tire argumentos para confirmar os dogmas e refutar os adversários. O tratado, De Locis Theologicis, é póstumo.
A data já diz muito. A obra responde ao monismo bíblico da Reforma: reduzir o objeto da teologia à Escritura cria uma bolha em que teologia vira apenas teologia bíblica. Nunca se fez teologia assim, e a palavra católica quer dizer justamente teologia do todo, que não exclui os demais lugares.
O tratado está disponível em latim na internet, e há tradução espanhola publicada pela BAC, em Madri, em 2006, sob edição de Juan Belda Plans, o mesmo autor da Historia de la Teología citada na aula sobre Lutero.
Os dez lugares
Depois de Trento a manualística tenderá a concentrar-se nos dois primeiros, e eles são de fato preponderantes. Mas parar neles é abrir mão da catolicidade: os dez se fecundam mutuamente, e é dessa fecundação que a aula fala.
Por que não se hierarquizam simplesmente
Os lugares são de naturezas muito diversas. Uma coisa é tratar um texto inspirado, outra é a tradição oral; uma coisa é analisar atos magisteriais, outra é ouvir os filósofos. Pedir uma hierarquia simples entre eles é como perguntar se este ruído é mais luminoso que a luz da tela: são coisas de ordens diferentes.
Há também dependência mútua. Escritura e Tradição formam o núcleo da Revelação, e ainda assim não subsistem, na vida da Igreja, sem um magistério que as guarde e interprete. A autoridade da Igreja prevalece sobre a dos Padres e dos teólogos, e no entanto esses Padres e teólogos estão dentro da Igreja, e é muitas vezes apoiado neles que o Magistério se pronuncia. Não há Igreja sem Papa nem Papa sem Igreja; não há concílio sem o colégio episcopal, e não há colégio sem o Papa.
Isso não dissolve as diferenças de peso. A Escritura é inspirada; uma definição conciliar tem assistência divina e garantia de infalibilidade, mas serve à Palavra de Deus sem ser a Palavra de Deus. E a prova está na consciência litúrgica da Igreja: ninguém põe um decreto conciliar no ambão para incensá-lo, como se faz com o Evangelho.
A sinfonia dos sentidos
A casa onde habita a fé da Igreja, isto é, a sede autorizada de onde o teólogo tira os argumentos para definir e defender a doutrina. Cada lugar é como um sentido do corpo diante de um mesmo objeto: um apreende o som, outro a luz, outro o peso.
A analogia responde ao problema de método que a aula levanta antes. Numa ciência, o objeto determina o método: não se estuda a metafísica com a picareta do arqueólogo. Ora, a teologia tem objetos muito diversos, e daí o risco de fragmentar-se numa multidão de disciplinas que não se falam.
A saída é olhá-los como sentidos convergindo sobre a mesma coisa. Quando investigo um objeto pelo som, pelo cheiro, pelo tato, pelo peso e pela luz, e reúno os dados, a certeza cresce. Assim também a Escritura dá o seu testemunho, e a Tradição o seu, e os Padres, os concílios, os papas e os teólogos os seus, sobre o mesmo objeto, que é a fé da Igreja.
O método depende da eclesiologia
Aqui está o centro da aula, e parece um salto, mas não é. Quem tem uma eclesiologia de comunhão pode investigar a Palavra de Deus com esse respiro amplo, nas várias casas da casa universal. Quem não a tem fica no samba de uma nota só, perguntando apenas onde está escrito na Bíblia.
Porque a revelação não se reduz ao livro: a Palavra de Deus é uma Pessoa, o Verbo encarnado, que vive ao longo dos séculos, e é essa Pessoa viva que se encontra nas várias casas. A Igreja é um corpo com membros diversos em comunhão, continuação do mistério da Encarnação, e cada lugar teológico desempenha nele a sua função, sem que ninguém seja excluído nem tratado como leproso, e sem que o teólogo na academia receba a mesma autoridade de um concílio ecumênico.
Ignorar o lugar teológico leva a ler as fontes a partir de si mesmas, absolutizando os textos. Uma teologia assim tem mais sabor de exegese do que de teologia.
Se estamos nessa continuidade, há um princípio unificante: não são várias teologias nem fragmentos, e sim um só corpo, uma só Igreja, uma só fé.
Ut potens sit exhortari in doctrina sana, et eos qui contradicunt arguere.
Para que seja capaz de exortar segundo a sã doutrina e de refutar os que a contradizem.
A aula responde a uma pergunta de método com uma tese de eclesiologia. Os dez lugares de Cano não são uma lista de fontes a ser hierarquizada, e sim os sentidos de um mesmo corpo diante do mesmo objeto: cada um apreende o que os outros não alcançam, e a convergência dá certeza. Quem reduz tudo ao texto bíblico não fica com uma teologia mais pura, fica com exegese; e quem quiser a amplitude precisa antes crer na Igreja como corpo vivo em que a Palavra continua a habitar.