Teologia da libertação e o pobre como lugar teológico
Cano previu que alguém quereria acrescentar lugares à sua lista, e na América Latina propôs-se o pobre como lugar teológico, apoiado na presença de Cristo nos pequeninos, em Mateus 25. A objeção da aula não é à presença, que se professa, e sim ao método: a teologia da libertação não parte de um dado revelado a ser compreendido, parte de uma opção prévia. Sobrino chega a substituir o intellectus fidei por um intellectus amoris, e a crítica mais contundente vem de dentro, de Clodovis Boff: sem a luz da fé produz-se teoria humanitária, marxista ou liberal, nunca teologia cristã. A raiz é a viragem antropocêntrica, e o resultado, uma gnose nova, sem transcendência.
A proposta
O próprio Cano previu, no século XVI, que haveria quem quisesse reduzir a sua lista e quem quisesse ampliá-la. Na América Latina a teologia da libertação propõe um lugar teológico novo, o pobre, e a base escriturística invocada é o capítulo 25 de Mateus, onde o Senhor declara a sua presença naquele que tinha fome, sede, nudez, prisão.
Convém guardar como a aula formula isso, porque a nuance importa: a presença real e concreta de Cristo no pobre é professada, sem ironia nenhuma. A pergunta é outra: essa presença basta para constituir um lugar teológico, isto é, uma sede de onde se tirem argumentos da fé?
O erro está no método
A teologia da libertação não parte de um dado da fé a ser ouvido, sobre o qual depois se reflita, e sim de uma escolha prévia, a opção preferencial pelo pobre. Falta responder à pergunta que o método exige: o que está sendo revelado aqui, e que se possa submeter à inteligência da fé?
A ordem tradicional é conhecida da aula anterior: primeiro a escuta, para certificar-se de que o objeto da especulação é de fato a fé da Igreja, e depois a especulação. Invertida a ordem, o que se reflete já não é o que Deus revelou, e sim o que se escolheu antes de ouvir.
Diante desse impasse, João Sobrino propôs uma saída de método: no lugar do intellectus fidei, um intellectus amoris, e ainda um intellectus misericordiæ ou um intellectus justitiæ, já que se trata de libertar o pobre e fazer justiça. O trabalho teológico passa a ser entendido como reação da misericórdia diante de povos crucificados, e a teologia, de ciência da fé, escorrega para práxis libertadora, com a redenção convertida em processo político inteiramente entregue às mãos do homem.
A crítica que vem de dentro
A objeção mais contundente não é externa. Clodovis Boff, na sua Teoria do Método Teológico, faz um esforço que a aula chama de admirável e honesto: preservar a identidade do método teológico tradicional e, ao mesmo tempo, acolher o que a teologia latino-americana tem de próprio. E é dali que vem a pergunta decisiva sobre a epistemologia do amor.
O amor de que se fala há de ser discernido: corresponde ao ágape do Novo Testamento? Se fosse claro para todos em que consiste o amor, Jesus não precisaria ter insistido tanto nele a ponto de selar a lição com o próprio sangue.
A conclusão é seca: para conhecer o conteúdo do amor é preciso recorrer à luz da fé e aos Evangelhos, e sem isso pode-se produzir qualquer teoria humanitária, marxista ou liberal, mas nunca teologia realmente cristã. O intellectus amoris supõe o intellectus fidei e só dentro dele se situa, como uma especificação sua.
E há a inversão que Boff põe a nu: não se trata em primeiro lugar do nosso amor a Deus, mas do amor de Deus por nós, testemunhado pela Palavra da fé. Não é o amor humano que motiva a teologia. Boff chega a dizer que muitos teólogos da libertação substituíram Deus pelo pobre.
A raiz: a viragem antropocêntrica
Cavando abaixo do método, encontra-se a inversão moderna. Deus deixa de ser a chave de compreensão da realidade e cede o lugar ao homem: a natureza, que era obra de Deus e sinal da sua sabedoria, vira objeto de domínio técnico; a sociedade, que era comunhão ordenada à santificação, vira campo de choque entre vontades autônomas; e no Século das Luzes o próprio Deus é intimado a sentar-se no banco dos réus do tribunal da razão.
A aula desenha a linhagem filosófica sem rodeios: de Kant, que nega o acesso ao transcendente, a Hegel, em que o absoluto passa a evoluir dentro da história, e daí a Nietzsche, a Heidegger, à teoria crítica e aos relativismos contemporâneos. São todas filosofias do homem fechado, sem transcendência.
Neognosticismo
Usar uma filosofia sem transcendência para fazer teologia produz gnose nova. A comparação retoma a segunda aula do curso. A gnose antiga apropriou-se da linguagem cristã, falava do Pai, do Verbo, da Sabedoria, do Espírito, e por baixo corria uma filosofia pagã que nada tinha de cristão. Entrou como parasita, e teria matado a Igreja se ela não tivesse reagido.
O sintoma é visível na cristologia. Quando se hesita em predicar a divindade de Jesus, é coerente: não se pode lançar ao transcendente quem se decidiu manter deste lado. E os milagres se dissolvem um a um: a multiplicação dos pães vira partilha, a cura do leproso vira inclusão social, a cura do cego vira queda das escamas da ideologia.
Imanentismo, partidarismo, ortopraxia
Sobre as estruturas de pecado, a Congregação para a Doutrina da Fé faz a distinção que evita os dois erros. Existem estruturas iníquas e geradoras de iniquidade, e é preciso coragem para mudá-las; mas elas são fruto da ação humana, e portanto consequências antes de serem causas. A raiz do mal está nas pessoas livres e responsáveis, que precisam ser convertidas pela graça para agir no amor ao próximo e na busca eficaz da justiça.
O que veio depois da crise
A parte mais original da aula vem de uma conferência do cardeal Ratzinger aos presidentes das comissões episcopais para a doutrina da fé da América Latina, em Guadalajara, em 1996. Caído o Muro em 1989, a teologia da libertação entrou em crise, e a leitura de Ratzinger é que isso não seria a sua morte, e sim uma metamorfose.
Do desencanto, diz ele, restou um rastro de destruição, e sobre a cidade em ruínas nasceu o relativismo. Relativismo teológico significou, muito concretamente, abolição da cristologia: quando nada é definitivo, Cristo deixa de poder ser o centro e começa a atrapalhar, e passa-se a falar de Deus em geral. Onde havia um Cristo libertador, instala-se uma religiosidade mundial em que todas as religiões valem igualmente, e Cristo vira uma das formas do espírito divino na história.
O passo seguinte é o renascimento do paganismo, com a mãe terra e os seus ecologismos, e a aula nomeia Leonardo Boff como quem não teve receio de dá-lo. E, no limite, o antihumanismo: o homem descrito como câncer da terra, a ser extirpado.
Tudo começou com a vontade ingênua de valorizar o homem. Mas valorizar o homem sem Cristo e sem Deus é desvalorizá-lo, e pô-lo abaixo da própria natureza.
Do projeto inteiro sobrou a ortopraxia, porque o relativismo precisava de um osso para roer, e ficou com a engenharia social. Daí a frase com que a aula se encerra: se isto é libertação, prefiro as cadeias opressoras de uma teologia romana.
O que a Igreja afirma no lugar disso
A recusa do método não é indiferença ao sofrimento. São legítimos os empreendimentos que combatem toda forma de escravidão política, econômica ou social, porque o cristão é sal da terra e luz do mundo, e é chamado a trabalhar pela civilização do amor.
O que se acrescenta é a ordem correta: a libertação que o Redentor veio trazer é a de um mal mais radical, o pecado e o poder da morte, sem a qual não há liberdade genuína. E o Reino, embora já iniciado, não é deste mundo, e o seu crescimento não se confunde com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica. É o mesmo amor, porém, que leva a Igreja a cuidar do bem temporal dos homens e a prodigalizar ajuda sobretudo aos mais pobres.
Cristo no centro.
O cristocentrismo, que a aula aponta como uma das contribuições maiores do Concílio Vaticano II, é exatamente o que o relativismo dissolve.
Amen dico vobis, quamdiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis.
Em verdade vos digo: todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.
A pergunta da aula é se o pobre pode ser lugar teológico, e a resposta separa duas coisas que costumam andar juntas. Cristo está realmente presente nos pequeninos, e combater a injustiça é dever cristão; mas lugar teológico é sede de onde se ouve o que Deus revelou, e uma opção anterior à escuta inverte o método. A crítica mais dura veio de dentro, com Clodovis Boff: o amor precisa ser discernido pela fé, senão o que se produz é teoria social com vocabulário cristão. E o percurso posterior, lido por Ratzinger, mostra aonde a inversão leva: relativismo, cristologia dissolvida e, no fim, um humanismo que se volta contra o homem.