Martinho Lutero
Em Ockham a ruptura foi acadêmica; com Lutero ela vira apostasia em massa. Ockhamista assumido, ele rejeita Aristóteles e Tomás em bloco e opõe teologia e filosofia, o que se pode chamar de uma quarta sola: só a teologia. A fé deixa de ser ato do intelecto movido pela vontade e passa a ser pura confiança, e a razão, que lhe torturava a consciência com um Deus de ira, é chamada prostituta do diabo. Da disputa de Heidelberg sai a theologia crucis: Deus se manifesta sob a espécie contrária, e o objeto da teologia deixa de ser Deus em si e passa a ser o homem réu de pecado diante do Deus que o justifica. A teologia se dissolve em economia, e o caminho fica aberto ao antropocentrismo.
Revolução, não reforma
A aula começa corrigindo a palavra. Reforma é quando se toma uma coisa e se lhe dá um ajeite; quando se arrancam as raízes e se põe outra coisa no lugar, o que houve foi revolução. Lutero viveu de 1483 a 1546, e a sua ação se estende por cerca de trinta anos, contados das noventa e cinco teses afixadas em Wittenberg, em 1517.
A diferença em relação à aula anterior está na escala. Em Ockham a ruptura se deu dentro do contexto acadêmico e teológico; aqui ela se torna cisma, e mais que cisma, apostasia em massa.
Um ockhamista assumido
Lutero rejeita a teologia de Santo Tomás e faz da filosofia aristotélica um cavalo de batalha. Alguns objetam que ele critica Ockham em vários textos, e é verdade; não se trata de dizer que estivessem em pleno acordo, mas de tomar a sua própria confissão: declara-se da facção, isto é, da escola de Ockham, e ockhamista de fundo permanecerá até o fim da carreira.
Sabem-se de cor as suas fórmulas, sola scriptura, sola gratia, sola fide. A aula acrescenta outra, tomada do dominicano Giovanni Cavalcoli: uma sola theologia, só a teologia, no sentido de que a possibilidade mesma de filosofar é rejeitada. Nasce ali a oposição entre teologia e filosofia que reaparece na teologia liberal contemporânea, no contraste entre o Deus dos filósofos e o Deus vivo e verdadeiro.
A formação explica parte do caminho. Lutero estudou em Erfurt a partir de 1501, quando o ockhamismo já era o modelo padrão do ensino escolástico, e conheceu a teologia sobretudo pela ótica ockhamista de Gabriel Biel. Ao mundo da via antiga, que combateu a vida inteira, nunca chegou a ter acesso autêntico.
A fé reduzida a confiança
Na aula sobre Tomás ficou assentado que a fé é ato do intelecto, no qual entra a vontade ordenando que se creia. Lutero rejeita isso e faz da fé pura confiança, fé fiducial. Não se nega que a fé seja também confiança; o que a aula assinala é o anti-intelectualismo que essa redução carrega, e as consequências que dele virão.
O drama interior
Para entender a doutrina é preciso olhar o homem. Lutero era religiosamente angustiado, e o seu drama consistia em sentir-se sempre culpado: se pecava, sentia-se culpado; se praticava a virtude, envaidecia-se e sentia-se culpado outra vez. Essa culpa vinha da sua própria racionalidade, e assim a razão tornou-se para ele objeto de tortura.
Daí a identificação decisiva: o Deus a que se chega pelo raciocínio passa a ser, para ele, um Deus torturador, o Deus da ira que só pode condenar. E Cristo teria vindo romper com esse Deus racional para dar um Deus de misericórdia, diante do qual, faça o que fizer, o homem será salvo.
Pecca fortiter, sed fortius fide.
Peca fortemente, mas crê mais fortemente ainda.
A frase só se sustenta sobre o Deus de Ockham. Se a onipotência não está presa à verdade nem à racionalidade, Deus pode decretar que eu, miserável, sou justo e serei salvo, e com isso o conflito interior se resolve. À razão, que continua a protestar, resta o nome que ele lhe dá: prostituta do diabo. A racionalidade, diz, fabrica um Deus falso, um ídolo que condena.
A teologia da cruz
A revolução propriamente metodológica não está nas noventa e cinco teses, e sim no ano seguinte, na disputa de Heidelberg, no convento agostiniano, em 1518. A vigésima das suas teses dá a chave: merece ser chamado teólogo aquele que compreende que as coisas visíveis e manifestas de Deus são vistas através do sofrimento e da cruz.
A tese de que só na cruz se conhece Deus, e de que ele se manifesta sempre sob a espécie contrária: da morte vem a vida, da injustiça vem a justificação, da perdição vem a salvação. Contrapõe-se à theologia gloriæ atribuída à escolástica.
Lê-se aí um Deus paradoxal, e a cruz funciona como crucificação também da razão humana, uma espécie de dois mais dois igual a cinco. A teologia deixa de ser ciência racional, deixa de ser fides quaerens intellectum, e vira exercício de espiritualidade, ciência prática, porque o seu objeto não cabe nos moldes da razão.
O objeto trocado
Num comentário ao Salmo 51 está a formulação mais consequente: o objeto próprio da teologia é o homem réu de pecado e o Deus que o justifica. O foco deixa de ser teocêntrico. Estudar Deus em si mesmo passa a ser fabricar um ídolo, uma quimera; o que se estuda é Deus como se manifestou na cruz, e o pecador em relação com ele.
A aula anota o eco distante disso. Não é por acaso que da Alemanha luterana saíram os três mestres da suspeita, como Ricœur os chamou, Marx, Nietzsche e Freud: transformada a teologia em grande estudo sobre o homem, o passo seguinte estava dado. E entre os herdeiros modernos da mesma redução a aula cita Jürgen Moltmann.
A anatomia da heresia
Aqui está a lição de método mais útil da aula. Heresia é resolver um paradoxo teológico cortando um dos seus lados. Na Bíblia há um Deus de justiça e um Deus de misericórdia, e os dois estão lá; o trabalho da teologia é conciliá-los, usando o intelecto. Lutero não consegue, sente-se dilacerado e escolhe um lado.
O movimento lembra Marcião e os gnósticos, que davam a justiça ao Deus do Antigo Testamento e a misericórdia ao do Novo, ainda que Lutero não o faça nesses termos: ele identifica o Deus da justiça com o Deus da razão e o da misericórdia com o Deus bíblico. Julga rejeitar o Deus da escolástica e acaba rejeitando o Deus bíblico, para abraçar o Deus de Ockham.
E o pior é que o paradoxo que ele abraça é maior que o que quis resolver: um Deus arbitrariamente misericordioso continua arbitrário, e um Deus arbitrário não dá garantia nenhuma.
É por isso que o drama não se encerra: ele viveu até o fim aquela mesma angústia, agora sem instrumento para tratá-la.
O lado eclesiológico
Falta um último dado do método. Lutero não rejeita apenas a filosofia: rejeita o Magistério. É com ele que nasce a tensão, ainda viva, entre Magistério e teologia, e é o teólogo que se torna o parâmetro. Critica o papa, os concílios, Aristóteles e Tomás, declarando falíveis, e mais que falíveis, errados, a razão filosófica e o magistério eclesial. Quem não erra é ele.
O que se apresentava como liberdade produz outro despotismo. Em termos técnicos, a cátedra pastoral, que é a do Magistério, passa a submeter-se à cátedra magistral, que é a dos teólogos. O sintoma contemporâneo é visível: entre o ensinamento de um papa ou de um bispo fiel à tradição e o último artigo da última revista de teologia, muita gente prefere o artigo. É o livre exame, que de liberdade passa a libertinagem e inviabiliza a teologia cristã.
Justus autem ex fide vivit.
O justo vive da fé.
Lutero herda de Ockham um Deus desligado da verdade e uma razão sem acesso a ele, e resolve com isso um tormento pessoal: se Deus pode decretar o que quiser, pode decretar-me justo. O preço é alto e a aula o enumera: a fé vira confiança sem intelecto, a razão vira inimiga, a cruz vira o único lugar teológico, e o objeto da ciência sagrada deixa de ser Deus e passa a ser o homem diante da salvação. Fica também a definição de heresia que serve para todo o curso: cortar um lado do paradoxo em vez de conciliá-lo.