Iniciação à ciência sagrada
A teologia é ciência verdadeira, natural e sobrenatural, que trata de Deus e das suas obras à luz da Revelação. Distingue-se da filosofia pela luz de que se serve, e da fé pelo modo de proceder: a fé adere pela autoridade de Deus num ato simples, a teologia trabalha por discurso. Mas nenhuma dessas distinções basta, porque a ciência sagrada exige do estudioso mais do que hábitos intelectuais: exige conversão. Sem mudança de vida não há teólogo, apenas erudição.
O que este curso quer
O propósito é apresentar de modo conciso as principais disciplinas teológicas, dando ao aluno uma cultura teológica básica com a qual possa depois orientar-se e aprofundar-se por conta própria. Mais do que conteúdo, o que se entrega é um instrumento de estudo ulterior, tendo por critério não as opiniões de quem ensina, mas o que a Igreja professa.
O percurso tem duas partes. A primeira é histórica e olha as coisas de modo diacrônico, para enraizar o estudante na Tradição. Aqui há uma advertência de método que vale guardar: muitos usam a história para relativizar, mostrando que numa época se pensava assim e noutra assado, e apresentando a fé como metamorfose ambulante. A intenção é a oposta: mostrar continuidade, e não ruptura. A segunda parte é sistemática, e olha o mesmo material de modo sincrônico, amarrando as pontas que ficaram soltas.
As divisões da teologia
A teologia, ciência sobrenatural que trata de Deus e das suas obras na medida em que a Ele se referem como princípio e fim, divide-se em partes que são modos específicos de perscrutar a Revelação. Três são capitais, e este curso pertence à primeira delas.
Ao lado desses pilares há muitos outros campos, como a teologia pastoral, a teologia bíblica com as suas ciências auxiliares e o direito canônico.
Filosofia e teologia: o mesmo todo, luzes diferentes
As demais ciências recortam a realidade: a medicina trata do corpo e da saúde, e não do resto. Filosofia e teologia fazem outra coisa, procuram dizer uma palavra a respeito do todo. A diferença entre elas não está no objeto, mas na luz: a filosofia serve-se apenas das forças naturais da razão, a teologia usa a razão iluminada pela luz sobrenatural da fé.
A sabedoria que procede das verdades reveladas e conhecidas sob a luz sobrenatural da fé. Investiga as coisas na medida em que se podem conhecer à luz da Revelação divina.
Os antigos já pressentiam isso. Platão dizia que atravessamos este oceano numa pequena jangada, por falta de um veículo melhor, e que esse veículo melhor seria uma palavra divina. Um filósofo pagão admitindo que, se houvesse revelação, as coisas ficariam melhores: a teologia é exatamente esse passo a mais de que a filosofia não dispõe.
Por que a teologia é ciência
Ela cumpre as três condições que toda verdadeira ciência deve cumprir.
É ciência natural, porque exige do homem o esforço de extrair conclusões dos dogmas com apoio da razão e de um método. E é sobrenatural sob tríplice título: pelo objeto, que são as verdades reveladas; pela luz, que é a da fé; e pela adesão, porque, auxiliada pela mesma fé, opera com mais segurança.
Theologia procedit ex veritatibus revelatis, sub lumine supernaturali fidei cognitis.
A teologia procede das verdades reveladas, conhecidas sob a luz sobrenatural da fé.
A teologia não é a fé
A fé é virtude sobrenatural infusa por Deus na alma, e crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Ela adere não porque as verdades apareçam evidentes à razão, mas por causa da autoridade de Deus que revela e que não pode enganar nem enganar-se. Daí três distinções.
As disposições que o estudo exige
Como o atleta precisa de um corpo condicionado, o estudioso precisa de hábitos que o predisponham a encontrar e abraçar a verdade. E quanto mais nobre o objeto, mais exigente a disposição: tendo por objeto o próprio Deus, a ciência sagrada requer, além dos hábitos intelectuais, a fé sobrenatural e as disposições morais.
Sobre a reta intenção há a distinção clássica dos cinco modos de querer saber: há quem queira saber por saber, e é curiosidade; quem queira ser conhecido, e é vaidade; quem queira vender a ciência, e é ganância; quem queira edificar os outros, e é caridade; e quem queira edificar-se a si, e é prudência.
Sobre o amor à verdade, Tanquerey adverte que não faltam teólogos que atenuem as objeções dos contraditores para as dirimir mais facilmente, ou distorçam textos e fatos para responder sem embaraço. A verdade, para defender-se, não precisa das nossas mentiras.
A mudança de sujeito
Na filosofia antiga isso tinha nome. Platão chamava periagogé ao voltar-se sobre si mesmo, o giro de cento e oitenta graus que muda a direção de quem pensa. No Evangelho o nome é outro e a exigência é maior: metanoia, conversão, que não é trocar de ideias como quem troca de camisa.
Ratzinger descreve o que isso significa de fato: a conversão é muito mais radical do que a revisão de opiniões e atitudes, é um processo de morte. O eu deixa de ser sujeito autônomo, é arrancado de si próprio e introduzido num sujeito novo. Não que desapareça, mas tem de deixar-se cair inteiramente para ser concebido de novo num eu maior. E esse processo é sacramental, isto é, de Igreja: o batismo reveste de Cristo, e é o Cristo total, cabeça e membros, que passa a ser o sujeito de quem faz teologia.
Vivo autem, iam non ego: vivit vero in me Christus.
Vivo, mas já não eu: é Cristo que vive em mim.
Historicamente, a cisão entre vida e pensamento tem endereço. Antes das universidades havia as escolas monásticas e as escolas catedrais, onde se ensinavam ao mesmo tempo a matéria e as virtudes, num projeto global de educação. A ruptura veio quando o conhecimento se tornou realidade acadêmica e abstrata, dispensada de vida reta. O vício continua alastrado hoje, e produz pensamento sobre o qual ninguém consegue viver: quem ensina que tudo é relativo não aceita relativismo nenhum quando falta um zero no seu saldo bancário.
Você pode ter belíssima cultura teológica e jamais ser teólogo, se não quiser converter-se. A verdadeira teologia se faz de joelhos.
A teologia é ciência: tem princípios, método e unidade, e conhece sob a luz da fé o que a filosofia só alcança pela razão. Mas a competência não basta. Exige unidade de vida, reta intenção, amor à verdade, humildade e perseverança, e antes de tudo a mudança de sujeito: já não eu, mas Cristo em mim, dentro da Igreja.