Introdução ao Método Teológico
CursosIntrodução ao Método TeológicoAula 1
Padre Paulo Ricardo · Aula 1 de 15

Iniciação à ciência sagrada

Essência

A teologia é ciência verdadeira, natural e sobrenatural, que trata de Deus e das suas obras à luz da Revelação. Distingue-se da filosofia pela luz de que se serve, e da fé pelo modo de proceder: a fé adere pela autoridade de Deus num ato simples, a teologia trabalha por discurso. Mas nenhuma dessas distinções basta, porque a ciência sagrada exige do estudioso mais do que hábitos intelectuais: exige conversão. Sem mudança de vida não há teólogo, apenas erudição.

as divisões da teologia
por que é ciência
como difere da fé
as disposições que ela exige
a mudança de sujeito

O que este curso quer

O propósito é apresentar de modo conciso as principais disciplinas teológicas, dando ao aluno uma cultura teológica básica com a qual possa depois orientar-se e aprofundar-se por conta própria. Mais do que conteúdo, o que se entrega é um instrumento de estudo ulterior, tendo por critério não as opiniões de quem ensina, mas o que a Igreja professa.

O percurso tem duas partes. A primeira é histórica e olha as coisas de modo diacrônico, para enraizar o estudante na Tradição. Aqui há uma advertência de método que vale guardar: muitos usam a história para relativizar, mostrando que numa época se pensava assim e noutra assado, e apresentando a fé como metamorfose ambulante. A intenção é a oposta: mostrar continuidade, e não ruptura. A segunda parte é sistemática, e olha o mesmo material de modo sincrônico, amarrando as pontas que ficaram soltas.

As divisões da teologia

A teologia, ciência sobrenatural que trata de Deus e das suas obras na medida em que a Ele se referem como princípio e fim, divide-se em partes que são modos específicos de perscrutar a Revelação. Três são capitais, e este curso pertence à primeira delas.

Os três tratados capitais
1
Teologia fundamentala antiga apologética: ciência dos motivos de credibilidade, disciplina preparatória que busca as razões para crer. É onde este curso se situa
2
Teologia dogmáticaou sistemática: reflete sobre os dogmas e resolve as dificuldades que suscitam, e defende-os das objeções. É o que se entende comumente por teologia
3
Teologia moralo estudo científico da atividade humana, pelos princípios da fé e da razão, na consecução do fim último sobrenatural

Ao lado desses pilares há muitos outros campos, como a teologia pastoral, a teologia bíblica com as suas ciências auxiliares e o direito canônico.

Filosofia e teologia: o mesmo todo, luzes diferentes

As demais ciências recortam a realidade: a medicina trata do corpo e da saúde, e não do resto. Filosofia e teologia fazem outra coisa, procuram dizer uma palavra a respeito do todo. A diferença entre elas não está no objeto, mas na luz: a filosofia serve-se apenas das forças naturais da razão, a teologia usa a razão iluminada pela luz sobrenatural da fé.

A teologiadefinição a reter

A sabedoria que procede das verdades reveladas e conhecidas sob a luz sobrenatural da fé. Investiga as coisas na medida em que se podem conhecer à luz da Revelação divina.

Os antigos já pressentiam isso. Platão dizia que atravessamos este oceano numa pequena jangada, por falta de um veículo melhor, e que esse veículo melhor seria uma palavra divina. Um filósofo pagão admitindo que, se houvesse revelação, as coisas ficariam melhores: a teologia é exatamente esse passo a mais de que a filosofia não dispõe.

Por que a teologia é ciência

Ela cumpre as três condições que toda verdadeira ciência deve cumprir.

As três condições
1
Princípios certosas verdades reveladas fazem as vezes de premissas das quais se inferem outras verdades
2
Método adequadoum modo próprio de tirar conclusões a partir desses princípios
3
Unidadea capacidade de coligir essas conclusões num corpo coeso

É ciência natural, porque exige do homem o esforço de extrair conclusões dos dogmas com apoio da razão e de um método. E é sobrenatural sob tríplice título: pelo objeto, que são as verdades reveladas; pela luz, que é a da fé; e pela adesão, porque, auxiliada pela mesma fé, opera com mais segurança.

Theologia procedit ex veritatibus revelatis, sub lumine supernaturali fidei cognitis.

A teologia procede das verdades reveladas, conhecidas sob a luz sobrenatural da fé.

I. Gredt, Elementa Philosophiæ Aristotelico-Thomisticæ

A teologia não é a fé

A fé é virtude sobrenatural infusa por Deus na alma, e crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Ela adere não porque as verdades apareçam evidentes à razão, mas por causa da autoridade de Deus que revela e que não pode enganar nem enganar-se. Daí três distinções.

Onde uma difere da outra
Objetoa fé ocupa-se das verdades reveladas; a teologia, dessas mesmas verdades e das conclusões que delas se inferem
Motivoa fé crê pela autoridade de Deus; a teologia apoia-se no valor e na coerência da ilação lógica
Modoa fé crê por um ato simples do intelecto; a teologia procede por análise, síntese, comparação e dedução

As disposições que o estudo exige

Como o atleta precisa de um corpo condicionado, o estudioso precisa de hábitos que o predisponham a encontrar e abraçar a verdade. E quanto mais nobre o objeto, mais exigente a disposição: tendo por objeto o próprio Deus, a ciência sagrada requer, além dos hábitos intelectuais, a fé sobrenatural e as disposições morais.

As cinco disposições
1
Unidade de vidaa vida moral não se divorcia da intelectual; não há teólogo sem esforço sincero de conversão e configuração a Cristo
2
Reta intençãoa motivação há de ser a glória de Deus e o zelo pela salvação das almas, não a curiosidade nem a vaidade
3
Sincero amor pela verdadeexpor os argumentos contrários no sentido que os seus autores lhes dão, sem atenuá-los para vencê-los mais fácil
4
Humildadeobedecer docilmente ao Magistério e reverenciar o que sentem e ensinam os Santos e Doutores
5
Perseverançaaplicar-se constante e ardentemente, pois as verdades são perenes mas sempre se podem expor de modos novos

Sobre a reta intenção há a distinção clássica dos cinco modos de querer saber: há quem queira saber por saber, e é curiosidade; quem queira ser conhecido, e é vaidade; quem queira vender a ciência, e é ganância; quem queira edificar os outros, e é caridade; e quem queira edificar-se a si, e é prudência.

Nota bene

Sobre o amor à verdade, Tanquerey adverte que não faltam teólogos que atenuem as objeções dos contraditores para as dirimir mais facilmente, ou distorçam textos e fatos para responder sem embaraço. A verdade, para defender-se, não precisa das nossas mentiras.

A mudança de sujeito

Na filosofia antiga isso tinha nome. Platão chamava periagogé ao voltar-se sobre si mesmo, o giro de cento e oitenta graus que muda a direção de quem pensa. No Evangelho o nome é outro e a exigência é maior: metanoia, conversão, que não é trocar de ideias como quem troca de camisa.

Ratzinger descreve o que isso significa de fato: a conversão é muito mais radical do que a revisão de opiniões e atitudes, é um processo de morte. O eu deixa de ser sujeito autônomo, é arrancado de si próprio e introduzido num sujeito novo. Não que desapareça, mas tem de deixar-se cair inteiramente para ser concebido de novo num eu maior. E esse processo é sacramental, isto é, de Igreja: o batismo reveste de Cristo, e é o Cristo total, cabeça e membros, que passa a ser o sujeito de quem faz teologia.

Vivo autem, iam non ego: vivit vero in me Christus.

Vivo, mas já não eu: é Cristo que vive em mim.

Gálatas 2, 20 · tradução da Vulgata Clementina

Historicamente, a cisão entre vida e pensamento tem endereço. Antes das universidades havia as escolas monásticas e as escolas catedrais, onde se ensinavam ao mesmo tempo a matéria e as virtudes, num projeto global de educação. A ruptura veio quando o conhecimento se tornou realidade acadêmica e abstrata, dispensada de vida reta. O vício continua alastrado hoje, e produz pensamento sobre o qual ninguém consegue viver: quem ensina que tudo é relativo não aceita relativismo nenhum quando falta um zero no seu saldo bancário.

Você pode ter belíssima cultura teológica e jamais ser teólogo, se não quiser converter-se. A verdadeira teologia se faz de joelhos.

Pontos-chave
A teologia é ciência sobrenatural que trata de Deus e das suas obras enquanto a Ele se referem como princípio e fim.
Divide-se em fundamental, dogmática e moral; este curso pertence à fundamental, a antiga apologética.
Filosofia e teologia falam ambas do todo; distinguem-se pela luz, razão natural de um lado, razão sob a luz da fé do outro.
É ciência porque tem princípios certos, método para inferir e unidade de corpo; é natural pelo esforço e sobrenatural pelo objeto, pela luz e pela adesão.
Difere da fé pelo objeto, pelo motivo e pelo modo: a fé adere pela autoridade de Deus, a teologia procede por discurso.
Exige cinco disposições: unidade de vida, reta intenção, sincero amor pela verdade, humildade e perseverança.
A conversão exigida é mudança de sujeito, processo de morte e de incorporação eclesial, não revisão de opiniões.
A cisão entre vida e pensamento nasce com o modelo acadêmico e é o vício que arruína a filosofia e a teologia contemporâneas.
Termos
Teologia fundamental
a antiga apologética; ciência dos motivos de credibilidade, que prepara a inteligência para o assentimento da fé.
Teologia dogmática
ou sistemática; reflexão sobre os dogmas, com finalidade teorética e polêmica. É o que se chama comumente de teologia.
Teologia moral
estudo científico da atividade humana, pelos princípios da fé e da razão, rumo ao fim último sobrenatural.
Periagogé
em Platão, o voltar-se sobre si mesmo, mudança de direção de quem quer filosofar.
Metanoia
a conversão evangélica; não troca de ideias, mas mudança do sujeito que pensa, operada sacramentalmente na Igreja.
Sub lumine fidei
sob a luz da fé; o modo próprio de a teologia conhecer, que a distingue da filosofia.
Para reter

A teologia é ciência: tem princípios, método e unidade, e conhece sob a luz da fé o que a filosofia só alcança pela razão. Mas a competência não basta. Exige unidade de vida, reta intenção, amor à verdade, humildade e perseverança, e antes de tudo a mudança de sujeito: já não eu, mas Cristo em mim, dentro da Igreja.

Fonte · Curso em vídeo, padrepauloricardo.org
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