A vocação eclesial do teólogo
A aula toma por instrumento a Donum Veritatis, de 1990, para fincar o pé numa tese incômoda: a cientificidade da teologia é diretamente proporcional à sua eclesialidade. Quanto menos eclesial, menos científica e mais ideológica. Antes de chegar lá, refaz o caminho da cisão até Kant, que restringiu a razão ao comprovável e ao factível e, com isso, expulsou a fé para o campo do irracional, onde a religião vira convicção privada e o missionário parece um imperialista. A resposta está no princípio: no princípio era o Logos, e a racionalidade está na base do ser, não imposta de fora. Por isso a fé não é psicoterapia: o que o cristianismo oferece chama-se verdade.
O documento e a tese
O instrumento escolhido para arrematar o curso é a Instrução sobre a Vocação Eclesial do Teólogo, a Donum Veritatis, publicada em 24 de maio de 1990, vinte e cinco anos depois do encerramento do Concílio Vaticano II. A razão da escolha é simples: ela finca os pés na realidade eclesial.
A cientificidade da teologia é diretamente proporcional à sua eclesialidade. Uma teologia com pouco contato com a Igreja será menos científica e cada vez mais ideológica; a dificuldade da teologia contemporânea está em que muitos teólogos não querem lembrar-se de que são Igreja.
O comentário de referência é o último capítulo de Natureza e Missão da Teologia, de Ratzinger, dedicado justamente a essa Instrução. O professor menciona ter prestado serviço de tradução para a Congregação enquanto o documento era elaborado, e descreve o trabalho colegial de burilar cada expressão, com Ratzinger no papel de timoneiro.
Por que o tema apareceu quando apareceu
Da modernidade até o Concílio, e sobretudo no século XIX, o trabalho teológico foi ocupação de um número restrito de clérigos, cuja voz quase não despertava interesse na opinião pública da Igreja. Esse encastelamento se rompeu com a reorientação teológica que veio depois da Primeira Guerra, quando os movimentos bíblico, litúrgico, ecumênico e mariano criaram um clima espiritual novo, e dele nasceu um modo de fazer teologia que se tornou fecundo para toda a Igreja no Vaticano II.
Encerrado o Concílio, porém, e sem que estivessem claros os limites dessa evolução, muitos teólogos passaram a sentir-se os verdadeiros mestres da Igreja, inclusive dos pastores, que às vezes mal conheciam a teologia nova. Os meios de comunicação fizeram o resto: transformaram teólogos em formadores de opinião e apresentaram o magistério como resquício de um autoritarismo fracassado, uma instância extracientífica que se intrometia na livre investigação. Foi para ordenar essa relação, e não para vencer uma disputa, que a Instrução foi escrita.
Como se chegou aqui
O exame de Kant é minucioso. Ele delimita o espaço da razão àquilo que se pode comprovar, as certezas matemáticas e a física de Newton, e àquilo que se pode fazer, a técnica. Fora desse recorte sobra um mundo enorme, o dos sentimentos, o das convicções morais, o da fé, e a frase que soa piedosa, restringi o espaço da razão para dar lugar à crença, é justamente a que faz o estrago.
As consequências estão à vista. O cristianismo foi excomungado do mundo racional: religião passa a ser assunto privado e subjetivo, e quem quer mostrar a verdade da fé parece um imperialista impondo convicção irracional aos outros. Se é tudo irracional, ser missionário não faz sentido, cada um fica com a sua religião, e temos o pluralismo relativista em que vivemos.
A vingança do irracional
A onda de esoterismo que observamos hoje mostra que, no racionalismo positivista dominante, as camadas mais profundas da condição humana já não conseguem ser integradas, e por isso as formas atávicas de superstição voltam a ganhar ascendência sobre o homem.
A observação é de Ratzinger, e a aula a ilustra com o inventário do que ocupou o vazio: cristais, chás, energias, pirâmides, floráis, chakras. A razão amarrada ficou paraplégica, sem movimento no mundo propriamente humano, e o irracional tomou as rédeas precisamente dentro de uma sociedade racionalista.
No fundo, o positivismo nega a capacidade do homem para a verdade. A razão kantiana não alcança o ser das coisas, alcança o modo como aparecem, o fenômeno, ou volta-se para si mesma, o transcendental. O conhecimento fica limitado ao que se pode comprovar e ao que se pode fabricar.
No princípio era o Logos
A resposta cristã não é um remendo, é o primeiro artigo do abecedário da fé.
In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus.
O termo grego logos costuma ser traduzido por Verbo ou Palavra, e carrega mais do que isso: carrega razão e sentido, a mesma raiz de lógica. Dizer que no princípio era o Logos é dizer que a racionalidade está na base do ser das coisas, e não imposta de fora sobre um mundo que seria caótico, como resultaria do esquema de Ockham.
É por isso que a Igreja sustenta, contra as correntes que herdam Kant, que o homem pode chegar à verdade pelas forças da razão, e a partir das criaturas conhecer com certeza a existência de Deus. Defender a capacidade da razão humana de conhecer a Deus é afirmar que a fé não é movimento irracional do espírito, porque se apoia na própria Razão divina, princípio e fundamento de todas as coisas, que por isso são razoáveis desde a origem.
Invisibilia enim ipsius, a creatura mundi, per ea quæ facta sunt, intellecta, conspiciuntur.
Porque as suas perfeições invisíveis se tornam visíveis à inteligência, desde a criação do mundo, por meio das obras que ele fez.
A fé não é psicoterapia
Daqui sai uma das passagens mais diretas da aula. Quando a fé é tida por irracional, a religião vira tratamento: algo que serve para a pessoa sentir-se bem, lidar com a crueldade do irracional por meio de mitos e jogos de linguagem. Freud via na religião a neurose; depois dele, passou-se a vê-la como remédio, e certa psicologia de arquétipos se julga religiosa por tratar as pessoas com material simbólico.
O problema é que isso continua dentro da fronteira kantiana: lida-se com a máquina do homem, não se vai à verdade. E a resposta da aula é seca: a psicoterapia que o cristianismo oferece chama-se verdade. A verdade que liberta dói, mas liberta.
Duas consequências se seguem imediatamente. Só quem tem verdade pode ser missionário, e é por isso que o cristianismo é universal. E só assim existe teologia, que é fenômeno especificamente cristão, resultante da estrutura da fé: a razão, elevada pela graça, comporta-se como razão e busca compreender.
Por que a fé precisa ser eclesial
Nada disso funciona com fé privada, a minha, a sua, a de cada um, pois então já não estamos na verdade. Só há teologia se houver a fé da Igreja, e quem atesta onde ela está é o Magistério.
A analogia é de laboratório. Um químico não faz experiência sem elementos puros e garantidos: precisa saber que aquilo é mesmo arsênico, que aquilo é mesmo água. Assim também o pressuposto da ciência teológica é uma palavra de verdade que precede a reflexão do teólogo. Os lugares teológicos dizem onde essa palavra está; o Magistério põe nela o selo de garantia, e é a partir daí que a reflexão começa.
Não é que o Magistério tenha a última palavra. Bem entendido, é Deus quem tem a primeira.
E isso não escraviza o teólogo nem lhe tira a liberdade. Ele se move como cientista dentro do âmbito dessa palavra, como servidor da Palavra cuja tarefa principal é auscultar e compreender o sentido da Revelação, associando-se à herança eclesial e ajudando os pastores a manter viva e íntegra a fé. A sua pesquisa só respira com verdadeira liberdade dentro da fé da Igreja.
A aula fecha o curso no lugar de onde ele partiu, a relação entre fé e razão, mas agora aplicada ao próprio teólogo. Se a razão foi encolhida até caber no comprovável, a fé sobra como sentimento privado, e nesse terreno não há ciência teológica possível, apenas opinião. A saída é o primeiro artigo do abecedário cristão, no princípio era o Logos, que põe a razão dentro do ser e não fora dele. E a consequência prática é a analogia do laboratório: o teólogo precisa de material garantido, e é isso que o Magistério lhe dá, sem escravizá-lo, porque a primeira palavra é de Deus.