Introdução ao Método Teológico
CursosIntrodução ao Método TeológicoAula 12
Padre Paulo Ricardo · Aula 12 de 15

A vocação eclesial do teólogo

Essência

A aula toma por instrumento a Donum Veritatis, de 1990, para fincar o pé numa tese incômoda: a cientificidade da teologia é diretamente proporcional à sua eclesialidade. Quanto menos eclesial, menos científica e mais ideológica. Antes de chegar lá, refaz o caminho da cisão até Kant, que restringiu a razão ao comprovável e ao factível e, com isso, expulsou a fé para o campo do irracional, onde a religião vira convicção privada e o missionário parece um imperialista. A resposta está no princípio: no princípio era o Logos, e a racionalidade está na base do ser, não imposta de fora. Por isso a fé não é psicoterapia: o que o cristianismo oferece chama-se verdade.

a teologia é científica na medida em que é eclesial
Kant reduziu a razão e exilou a fé no irracional
daí a religião como assunto privado e o esoterismo
mas no princípio era o Logos: a razão está no ser
e a fé da Igreja, atestada pelo Magistério, precede o teólogo

O documento e a tese

O instrumento escolhido para arrematar o curso é a Instrução sobre a Vocação Eclesial do Teólogo, a Donum Veritatis, publicada em 24 de maio de 1990, vinte e cinco anos depois do encerramento do Concílio Vaticano II. A razão da escolha é simples: ela finca os pés na realidade eclesial.

A tese da aulao conceito central

A cientificidade da teologia é diretamente proporcional à sua eclesialidade. Uma teologia com pouco contato com a Igreja será menos científica e cada vez mais ideológica; a dificuldade da teologia contemporânea está em que muitos teólogos não querem lembrar-se de que são Igreja.

Nota bene

O comentário de referência é o último capítulo de Natureza e Missão da Teologia, de Ratzinger, dedicado justamente a essa Instrução. O professor menciona ter prestado serviço de tradução para a Congregação enquanto o documento era elaborado, e descreve o trabalho colegial de burilar cada expressão, com Ratzinger no papel de timoneiro.

Por que o tema apareceu quando apareceu

Da modernidade até o Concílio, e sobretudo no século XIX, o trabalho teológico foi ocupação de um número restrito de clérigos, cuja voz quase não despertava interesse na opinião pública da Igreja. Esse encastelamento se rompeu com a reorientação teológica que veio depois da Primeira Guerra, quando os movimentos bíblico, litúrgico, ecumênico e mariano criaram um clima espiritual novo, e dele nasceu um modo de fazer teologia que se tornou fecundo para toda a Igreja no Vaticano II.

Encerrado o Concílio, porém, e sem que estivessem claros os limites dessa evolução, muitos teólogos passaram a sentir-se os verdadeiros mestres da Igreja, inclusive dos pastores, que às vezes mal conheciam a teologia nova. Os meios de comunicação fizeram o resto: transformaram teólogos em formadores de opinião e apresentaram o magistério como resquício de um autoritarismo fracassado, uma instância extracientífica que se intrometia na livre investigação. Foi para ordenar essa relação, e não para vencer uma disputa, que a Instrução foi escrita.

Como se chegou aqui

A tensão entre fé e razão, em quatro estações
Os gnósticosa razão manipuladora modela a fé à sua imagem e troca-lhe o conteúdo
Os arianosas dificuldades intelectuais em conceber o Deus uno e trino são impostas à fé
Ockhampara salvar a onipotência, desliga Deus da razão e abre a cisão
Kantconsuma o divórcio ao restringir a razão e mandar a fé para fora dela

O exame de Kant é minucioso. Ele delimita o espaço da razão àquilo que se pode comprovar, as certezas matemáticas e a física de Newton, e àquilo que se pode fazer, a técnica. Fora desse recorte sobra um mundo enorme, o dos sentimentos, o das convicções morais, o da fé, e a frase que soa piedosa, restringi o espaço da razão para dar lugar à crença, é justamente a que faz o estrago.

As consequências estão à vista. O cristianismo foi excomungado do mundo racional: religião passa a ser assunto privado e subjetivo, e quem quer mostrar a verdade da fé parece um imperialista impondo convicção irracional aos outros. Se é tudo irracional, ser missionário não faz sentido, cada um fica com a sua religião, e temos o pluralismo relativista em que vivemos.

A vingança do irracional

A onda de esoterismo que observamos hoje mostra que, no racionalismo positivista dominante, as camadas mais profundas da condição humana já não conseguem ser integradas, e por isso as formas atávicas de superstição voltam a ganhar ascendência sobre o homem.

A observação é de Ratzinger, e a aula a ilustra com o inventário do que ocupou o vazio: cristais, chás, energias, pirâmides, floráis, chakras. A razão amarrada ficou paraplégica, sem movimento no mundo propriamente humano, e o irracional tomou as rédeas precisamente dentro de uma sociedade racionalista.

No fundo, o positivismo nega a capacidade do homem para a verdade. A razão kantiana não alcança o ser das coisas, alcança o modo como aparecem, o fenômeno, ou volta-se para si mesma, o transcendental. O conhecimento fica limitado ao que se pode comprovar e ao que se pode fabricar.

No princípio era o Logos

A resposta cristã não é um remendo, é o primeiro artigo do abecedário da fé.

In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus.

João 1, 1

O termo grego logos costuma ser traduzido por Verbo ou Palavra, e carrega mais do que isso: carrega razão e sentido, a mesma raiz de lógica. Dizer que no princípio era o Logos é dizer que a racionalidade está na base do ser das coisas, e não imposta de fora sobre um mundo que seria caótico, como resultaria do esquema de Ockham.

É por isso que a Igreja sustenta, contra as correntes que herdam Kant, que o homem pode chegar à verdade pelas forças da razão, e a partir das criaturas conhecer com certeza a existência de Deus. Defender a capacidade da razão humana de conhecer a Deus é afirmar que a fé não é movimento irracional do espírito, porque se apoia na própria Razão divina, princípio e fundamento de todas as coisas, que por isso são razoáveis desde a origem.

Invisibilia enim ipsius, a creatura mundi, per ea quæ facta sunt, intellecta, conspiciuntur.

Porque as suas perfeições invisíveis se tornam visíveis à inteligência, desde a criação do mundo, por meio das obras que ele fez.

Romanos 1, 20, o texto que o Concílio Vaticano I retoma na Dei Filius

A fé não é psicoterapia

Daqui sai uma das passagens mais diretas da aula. Quando a fé é tida por irracional, a religião vira tratamento: algo que serve para a pessoa sentir-se bem, lidar com a crueldade do irracional por meio de mitos e jogos de linguagem. Freud via na religião a neurose; depois dele, passou-se a vê-la como remédio, e certa psicologia de arquétipos se julga religiosa por tratar as pessoas com material simbólico.

O problema é que isso continua dentro da fronteira kantiana: lida-se com a máquina do homem, não se vai à verdade. E a resposta da aula é seca: a psicoterapia que o cristianismo oferece chama-se verdade. A verdade que liberta dói, mas liberta.

Duas consequências se seguem imediatamente. Só quem tem verdade pode ser missionário, e é por isso que o cristianismo é universal. E só assim existe teologia, que é fenômeno especificamente cristão, resultante da estrutura da fé: a razão, elevada pela graça, comporta-se como razão e busca compreender.

Por que a fé precisa ser eclesial

Nada disso funciona com fé privada, a minha, a sua, a de cada um, pois então já não estamos na verdade. Só há teologia se houver a fé da Igreja, e quem atesta onde ela está é o Magistério.

A analogia é de laboratório. Um químico não faz experiência sem elementos puros e garantidos: precisa saber que aquilo é mesmo arsênico, que aquilo é mesmo água. Assim também o pressuposto da ciência teológica é uma palavra de verdade que precede a reflexão do teólogo. Os lugares teológicos dizem onde essa palavra está; o Magistério põe nela o selo de garantia, e é a partir daí que a reflexão começa.

Não é que o Magistério tenha a última palavra. Bem entendido, é Deus quem tem a primeira.

E isso não escraviza o teólogo nem lhe tira a liberdade. Ele se move como cientista dentro do âmbito dessa palavra, como servidor da Palavra cuja tarefa principal é auscultar e compreender o sentido da Revelação, associando-se à herança eclesial e ajudando os pastores a manter viva e íntegra a fé. A sua pesquisa só respira com verdadeira liberdade dentro da fé da Igreja.

Pontos-chave
A Donum Veritatis, de 1990, trata da vocação eclesial do teólogo e da sua relação com o Magistério.
A cientificidade da teologia é diretamente proporcional à sua eclesialidade.
Uma teologia pouco eclesial não fica mais livre: fica mais ideológica.
Até o Concílio a teologia era ocupação de poucos clérigos; os movimentos do século XX mudaram esse clima.
No pós-concílio muitos teólogos passaram a sentir-se os verdadeiros mestres da Igreja, amplificados pela imprensa.
A tensão entre fé e razão passa pelos gnósticos, pelos arianos, por Ockham e se consuma em Kant.
Kant limita a razão ao comprovável e ao factível, e a frase sobre suprimir o saber é o que faz o estrago.
Exilada no irracional, a fé vira assunto privado, e a missão passa a parecer imposição.
O vazio deixado pelo racionalismo é ocupado pelo esoterismo e pelas formas atávicas de superstição.
O positivismo nega a capacidade humana para a verdade: alcança o fenômeno, não o ser.
No princípio era o Logos: a racionalidade está na base do ser, não imposta de fora a um mundo caótico.
A Igreja sustenta que a razão pode conhecer com certeza a existência de Deus a partir das criaturas.
A fé não é psicoterapia; a psicoterapia que o cristianismo oferece chama-se verdade.
Só quem tem verdade pode ser missionário, e por isso o cristianismo é universal.
A teologia é fenômeno especificamente cristão, resultante da estrutura da fé.
Não há ciência teológica sobre fé privada: é preciso a fé da Igreja, atestada pelo Magistério.
Como o químico precisa de elementos garantidos, o teólogo precisa de uma palavra de verdade que preceda a reflexão.
O Magistério não tem a última palavra: Deus tem a primeira, e o selo apenas atesta onde ela está.
A liberdade do teólogo é real, e só respira dentro da fé da Igreja.
Termos
Donum Veritatis
Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé, de 24 de maio de 1990, sobre a vocação eclesial do teólogo.
Eclesialidade
o enraizamento da teologia na fé da Igreja; medida direta da sua cientificidade.
Fenômeno e transcendental
em Kant, aquilo que aparece à mente e a própria estrutura da mente; entre eles fica excluído o ser das coisas.
Logos
Verbo, palavra, razão e sentido; afirmar que no princípio era o Logos é afirmar a racionalidade do próprio ser.
Selo de garantia
a função do Magistério de atestar onde está a fé da Igreja, dando ao teólogo o material seguro sobre o qual refletir.
Vocação do teólogo
chamado a aprofundar, pela contemplação e pelo estudo, o conhecimento da verdade revelada, em benefício de todos os fiéis.
Para reter

A aula fecha o curso no lugar de onde ele partiu, a relação entre fé e razão, mas agora aplicada ao próprio teólogo. Se a razão foi encolhida até caber no comprovável, a fé sobra como sentimento privado, e nesse terreno não há ciência teológica possível, apenas opinião. A saída é o primeiro artigo do abecedário cristão, no princípio era o Logos, que põe a razão dentro do ser e não fora dele. E a consequência prática é a analogia do laboratório: o teólogo precisa de material garantido, e é isso que o Magistério lhe dá, sem escravizá-lo, porque a primeira palavra é de Deus.

Fonte · Curso em vídeo, padrepauloricardo.org
← Anterior
O pobre como lugar
Próximo →
Teólogo e Magistério