Santo Agostinho
Agostinho é estudado aqui como método, não como biografia. O seu itinerário mostra por dentro o que as duas aulas anteriores afirmaram: o orgulho maniqueu enlouquece a razão, o ceticismo a desanima, o neoplatonismo ilumina sem libertar, e só a graça, encontrada por Ambrósio e por São Paulo, alcança as duas potências que fazem o teólogo. A fé ilumina o intelecto, a graça liberta a vontade, e o que casa as duas é a humildade. Por isso a verdade, para ele, não é exercício acadêmico: é beatificadora.
Por que ele, e não outro
Agostinho é um monumento isolado. Durante mais de mil anos a sua autoridade foi tal que uma frase sua bastava para encerrar uma disputa teológica. Nascido em Tagaste em 354 e morto em Hipona em 430, quando os vândalos cercavam a cidade, ele atravessa o crepúsculo do Império e abre a Idade Média.
Estudá-lo num curso de método significa olhar o seu itinerário, porque é ali que aparecem as opções fundamentais do seu modo de fazer teologia. O ponto de viragem é 386, com o batismo na Páscoa de 387 pelas mãos de Ambrósio, junto do filho Adeodato e do amigo Alípio.
Os dois abismos
Antes de chegar lá, ele passou pelos dois modos possíveis de não buscar a verdade.
Nos maniqueus ele viu o método pelo avesso. A razão precede a fé, e quando a Escritura confirma a filosofia deles é aceita, e quando contraria é descartada. Foi lendo o Hortênsio de Cícero, obra hoje perdida, que percebeu a farsa. Do lado oposto, porém, o ceticismo ciceroniano oferecia apenas desilusão, e nessa armadilha ele não caiu.
O orgulho como mentira contada a si mesmo
Aqui está uma das observações mais duras da aula. O orgulho não é uma mentira que se conta aos outros, é uma mentira que se conta a si mesmo. É uma opção que se faz porque a verdade dói: já que dói, o orgulhoso produz uma verdade sua, e a razão, perdendo o contato com o real, enlouquece.
É por isso que a inteligência do soberbo vê monstros. Não lhe falta potência: falta-lhe a humildade que a manteria ancorada no mundo como ele é.
Luz sem força
Depois vieram os neoplatônicos, Plotino e Porfírio, e com eles a descoberta de que a razão humana pode conhecer a verdade. Agostinho, que tinha estatura intelectual enorme, finalmente encontrou matéria à altura dos seus dentes. E encontrou também o limite oposto ao dos maniqueus: um espiritualismo desencarnado, que ilumina o pensamento e não muda a vida. Ele estudava o que havia de mais alto e continuava escravo da própria concupiscência.
A saída não veio de mais leitura. Veio pela pregação de Ambrósio e, por ela, de São Paulo, que lhe deu a chave: a graça.
As duas potências que a graça toca
A conversão de Agostinho não é um episódio devocional, é uma tese de método. A revelação liberta o intelecto do ceticismo; a graça liberta a vontade da carne. Uma sem a outra não faz teólogo: não se abraça o que não se conhece, e não se abraça o que se conhece sem força para querer.
A verdadeira filosofia, e por extensão a verdadeira teologia, pressupõe um ato de adesão à ordem sobrenatural. A vontade, sob a moção da graça, desembaraça-se da concupiscência; a inteligência, iluminada pela Revelação, liberta-se do ceticismo.
Convém desarmar desde já um preconceito corrente: Agostinho não é voluntarista, não põe a vontade acima do intelecto. A vontade está a serviço da realidade intelectual. O que ele afirma é que as duas estão casadas, e que divorciá-las arruína o trabalho.
A humildade, três vezes
Reduzida ao essencial, a experiência de Agostinho é uma descoberta da humildade. O erro da inteligência está ligado à corrupção do coração pelo orgulho, e o homem só encontra a verdade beatificadora ao curvar a inteligência à fé e a vontade à graça. Perguntado qual o caminho, ele responde três vezes o mesmo.
Ea autem est prima, humilitas; secunda, humilitas; tertia, humilitas.
O caminho é, primeiro, humildade; segundo, humildade; terceiro, humildade.
E há aqui algo que separa Agostinho da academia: a verdade é buscada porque queremos ser felizes. Ela é o sumo bem, não um objeto de estudo. Contra essa humildade opõe-se aquela ciência inútil pela qual nos orgulhamos de saber o que disseram os antigos, só para parecermos doutos.
Nota sobre o pecado original
Corre no Brasil, sobretudo em certa teologia da libertação, a tese de que a doutrina do pecado original teria sido invenção de Agostinho, e que dela não haveria traço na Escritura nem em São Paulo. A afirmação é falsa. A realidade já estava no pensamento cristão antes dele, ainda que não elaborada como ele a elaborou.
E há um argumento de experiência, na linha de Chesterton: o pecado original é a única parte do dogma da redenção que se verifica diretamente. Que Deus se tenha feito homem e morrido por nós, é preciso aceitar pela fé; que exista dentro de nós uma inclinação que nos puxa para baixo, bastam cinco minutos de exame de consciência honesto.
Onde a herança se rompeu
O casamento agostiniano entre vida e pensamento sobreviveu nas escolas monásticas e nas escolas catedrais, que um historiador chamou de inveja dos anjos, porque ali se ensinava a matéria e a virtude juntas. A ruptura aparece no conflito entre São Bernardo de Claraval, que representava essa tradição, e Pedro Abelardo, o tipo do teólogo que não vê ligação necessária entre o que pensa e como vive.
Com a universidade, o conhecimento tornou-se realidade acadêmica e abstrata, e nesse aspecto houve regresso, não progresso. A objeção é imediata: grandes santos foram professores universitários. E a resposta é que Tomás e Boaventura eram frades, formados na tradição ascética das ordens, e foram justamente por isso hostilizados nas universidades, acusados e ameaçados de expulsão por um clero que já havia largado essa vida.
Se o pecado é projeto de vida, esqueça a teologia: dali sairão monstros teológicos, não reflexão.
Fecisti nos ad te, et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te.
Fizeste-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Vós.
Agostinho passou pelo orgulho que enlouquece a razão, pelo ceticismo que a desanima e pelo espiritualismo que ilumina sem libertar. Só a graça alcançou as duas potências: a fé ilumina o intelecto, a graça liberta a vontade, e a humildade casa as duas. Buscamos a verdade porque queremos ser felizes, e o coração fica inquieto enquanto não repousa em Deus.