Introdução ao Método Teológico
CursosIntrodução ao Método TeológicoAula 3
Padre Paulo Ricardo · Aula 3 de 15

Santo Agostinho

Essência

Agostinho é estudado aqui como método, não como biografia. O seu itinerário mostra por dentro o que as duas aulas anteriores afirmaram: o orgulho maniqueu enlouquece a razão, o ceticismo a desanima, o neoplatonismo ilumina sem libertar, e só a graça, encontrada por Ambrósio e por São Paulo, alcança as duas potências que fazem o teólogo. A fé ilumina o intelecto, a graça liberta a vontade, e o que casa as duas é a humildade. Por isso a verdade, para ele, não é exercício acadêmico: é beatificadora.

retórica e maniqueísmo: o orgulho
Cícero: o ceticismo
neoplatonismo: luz sem força
Ambrósio e Paulo: a graça
a humildade casa intelecto e vontade

Por que ele, e não outro

Agostinho é um monumento isolado. Durante mais de mil anos a sua autoridade foi tal que uma frase sua bastava para encerrar uma disputa teológica. Nascido em Tagaste em 354 e morto em Hipona em 430, quando os vândalos cercavam a cidade, ele atravessa o crepúsculo do Império e abre a Idade Média.

Estudá-lo num curso de método significa olhar o seu itinerário, porque é ali que aparecem as opções fundamentais do seu modo de fazer teologia. O ponto de viragem é 386, com o batismo na Páscoa de 387 pelas mãos de Ambrósio, junto do filho Adeodato e do amigo Alípio.

Os dois abismos

Antes de chegar lá, ele passou pelos dois modos possíveis de não buscar a verdade.

Duas formas de nunca encontrar
Julgar que já se possuio orgulho dos maniqueus, que dispensa a busca porque se supõe de posse da verdade
Não esperar encontraro ceticismo que Agostinho encontrou em Cícero, e que tira o ânimo de procurar

Nos maniqueus ele viu o método pelo avesso. A razão precede a fé, e quando a Escritura confirma a filosofia deles é aceita, e quando contraria é descartada. Foi lendo o Hortênsio de Cícero, obra hoje perdida, que percebeu a farsa. Do lado oposto, porém, o ceticismo ciceroniano oferecia apenas desilusão, e nessa armadilha ele não caiu.

O orgulho como mentira contada a si mesmo

Aqui está uma das observações mais duras da aula. O orgulho não é uma mentira que se conta aos outros, é uma mentira que se conta a si mesmo. É uma opção que se faz porque a verdade dói: já que dói, o orgulhoso produz uma verdade sua, e a razão, perdendo o contato com o real, enlouquece.

É por isso que a inteligência do soberbo vê monstros. Não lhe falta potência: falta-lhe a humildade que a manteria ancorada no mundo como ele é.

Luz sem força

Depois vieram os neoplatônicos, Plotino e Porfírio, e com eles a descoberta de que a razão humana pode conhecer a verdade. Agostinho, que tinha estatura intelectual enorme, finalmente encontrou matéria à altura dos seus dentes. E encontrou também o limite oposto ao dos maniqueus: um espiritualismo desencarnado, que ilumina o pensamento e não muda a vida. Ele estudava o que havia de mais alto e continuava escravo da própria concupiscência.

A saída não veio de mais leitura. Veio pela pregação de Ambrósio e, por ela, de São Paulo, que lhe deu a chave: a graça.

As duas potências que a graça toca

A conversão de Agostinho não é um episódio devocional, é uma tese de método. A revelação liberta o intelecto do ceticismo; a graça liberta a vontade da carne. Uma sem a outra não faz teólogo: não se abraça o que não se conhece, e não se abraça o que se conhece sem força para querer.

A premissa agostinianasegundo Gilson

A verdadeira filosofia, e por extensão a verdadeira teologia, pressupõe um ato de adesão à ordem sobrenatural. A vontade, sob a moção da graça, desembaraça-se da concupiscência; a inteligência, iluminada pela Revelação, liberta-se do ceticismo.

Nota bene

Convém desarmar desde já um preconceito corrente: Agostinho não é voluntarista, não põe a vontade acima do intelecto. A vontade está a serviço da realidade intelectual. O que ele afirma é que as duas estão casadas, e que divorciá-las arruína o trabalho.

A humildade, três vezes

Reduzida ao essencial, a experiência de Agostinho é uma descoberta da humildade. O erro da inteligência está ligado à corrupção do coração pelo orgulho, e o homem só encontra a verdade beatificadora ao curvar a inteligência à fé e a vontade à graça. Perguntado qual o caminho, ele responde três vezes o mesmo.

Ea autem est prima, humilitas; secunda, humilitas; tertia, humilitas.

O caminho é, primeiro, humildade; segundo, humildade; terceiro, humildade.

Agostinho, Carta 118

E há aqui algo que separa Agostinho da academia: a verdade é buscada porque queremos ser felizes. Ela é o sumo bem, não um objeto de estudo. Contra essa humildade opõe-se aquela ciência inútil pela qual nos orgulhamos de saber o que disseram os antigos, só para parecermos doutos.

Nota sobre o pecado original

Corre no Brasil, sobretudo em certa teologia da libertação, a tese de que a doutrina do pecado original teria sido invenção de Agostinho, e que dela não haveria traço na Escritura nem em São Paulo. A afirmação é falsa. A realidade já estava no pensamento cristão antes dele, ainda que não elaborada como ele a elaborou.

E há um argumento de experiência, na linha de Chesterton: o pecado original é a única parte do dogma da redenção que se verifica diretamente. Que Deus se tenha feito homem e morrido por nós, é preciso aceitar pela fé; que exista dentro de nós uma inclinação que nos puxa para baixo, bastam cinco minutos de exame de consciência honesto.

Onde a herança se rompeu

O casamento agostiniano entre vida e pensamento sobreviveu nas escolas monásticas e nas escolas catedrais, que um historiador chamou de inveja dos anjos, porque ali se ensinava a matéria e a virtude juntas. A ruptura aparece no conflito entre São Bernardo de Claraval, que representava essa tradição, e Pedro Abelardo, o tipo do teólogo que não vê ligação necessária entre o que pensa e como vive.

Com a universidade, o conhecimento tornou-se realidade acadêmica e abstrata, e nesse aspecto houve regresso, não progresso. A objeção é imediata: grandes santos foram professores universitários. E a resposta é que Tomás e Boaventura eram frades, formados na tradição ascética das ordens, e foram justamente por isso hostilizados nas universidades, acusados e ameaçados de expulsão por um clero que já havia largado essa vida.

Se o pecado é projeto de vida, esqueça a teologia: dali sairão monstros teológicos, não reflexão.

Fecisti nos ad te, et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te.

Fizeste-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Vós.

Agostinho, Confissões I, 1
Pontos-chave
Agostinho é estudado como método: o seu itinerário revela as opções que governam o seu modo de fazer teologia.
Há duas formas de não buscar a verdade: julgar que já se possui, como os maniqueus, e não esperar encontrá-la, como os céticos.
No método maniqueu a razão precede a fé, e a Escritura é aceita quando confirma a filosofia e descartada quando a contraria.
O orgulho é a mentira que se conta a si mesmo; a razão soberba perde o contato com o real e enlouquece.
O neoplatonismo deu luz sem força: iluminava o pensamento e deixava a vontade escrava.
A graça toca as duas potências: a Revelação liberta o intelecto do ceticismo, a graça liberta a vontade da concupiscência.
A chave de tudo é a humildade, e por ela a verdade se torna beatificadora, não exercício acadêmico.
A cisão entre vida e pensamento aparece em Abelardo contra Bernardo, e se consolida com a universidade.
Termos
Maniqueísmo
seita de raiz gnóstica que Agostinho seguiu na juventude; punha a razão acima da fé e usava a Escritura como ilustração da própria filosofia.
Os dois abismos
crer que já se tem a verdade, e não ter esperança de encontrá-la; o orgulho e o ceticismo.
Concupiscência
a inclinação que põe as criaturas no lugar do Criador; a carne de que fala São Paulo, da qual só a graça liberta.
Verdade beatificadora
a verdade buscada como sumo bem e felicidade, e não como objeto de erudição.
Escolas catedrais
o modelo educativo anterior à universidade, em que a matéria e a virtude se ensinavam juntas.
Para reter

Agostinho passou pelo orgulho que enlouquece a razão, pelo ceticismo que a desanima e pelo espiritualismo que ilumina sem libertar. Só a graça alcançou as duas potências: a fé ilumina o intelecto, a graça liberta a vontade, e a humildade casa as duas. Buscamos a verdade porque queremos ser felizes, e o coração fica inquieto enquanto não repousa em Deus.

Fonte · Curso em vídeo, padrepauloricardo.org
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