O fim do homem e a glória de Deus
Fui criado para a glória de Deus. Esse é o fim último e o único bem essencial de toda criatura; a felicidade do homem é fim segundo, anexado a essa glória e dela dependente.
Antes de qualquer método, a vida interior começa por uma pergunta: para que existo. A resposta da tradição é uma só: Deus criou tudo para si, e a sua glória é o fim último de toda criatura. Para o homem, esse fim é também o seu único bem essencial: não há felicidade fora dele, porque a felicidade não foi posta ao lado da glória de Deus, mas dentro dela, como fim segundo, anexado e dependente. Deus primeiro, eu segundo: essa ordem, uma vez vista, contém em germe toda a doutrina espiritual.
O fundo desse verbete é inaciano. É o Princípio e Fundamento dos Exercícios de Santo Inácio: o homem foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, e as criaturas são meios ordenados a esse fim. Os autores do acervo o recebem por caminhos diversos, uns como ponto de partida dedutivo, outros como parte da definição da vida cristã, mas nenhum o contesta.
Como os autores o tratam
Faz deste ponto o fundamento único de que tudo o mais se deduz. O Prefácio fixa o programa: reconduzir toda a piedade a um só princípio, a glória de Deus, e extrair dele, por via racional, as conclusões mais altas. A felicidade do homem é fim secundário anexado à glória, nela encontrado e dela dependente. É o autor que leva o Princípio e Fundamento às últimas consequências.
Põe a glória da Trindade como fim último absoluto, ao qual tudo cede: nem a própria salvação é fim último. A santificação, medida pela união com Deus na caridade, é o fim próximo, a que todos são chamados. A formulação é escolar e precisa, e converge no fundo com a de Pollien.
Trata o fim dentro da definição da própria ciência: a teologia ascética e mística tem por objeto a perfeição da vida cristã, união com Deus que prepara a visão beatífica. O fim do homem aparece assim no quadro da vida cristã e do preceito da caridade, sem a ênfase dedutiva de Pollien.
Abre a obra com a única coisa necessária: a vida interior como conversa íntima com Deus, idêntica ao caminho da salvação e da santidade. Não há céu sem santidade; tender a ela não é opcional. O fim do homem é tratado, como em Tanquerey, dentro do preceito do amor.
Convergências e divergências
A convergência é forte e de fundo inaciano: Pollien e Royo Marín afirmam nos mesmos termos que a glória de Deus é o fim único e que a felicidade, ou mesmo a salvação, se ordena a ela como fim segundo. Tanquerey e Garrigou ensinam o mesmo, mas o situam dentro da definição de vida cristã e do preceito da caridade, com menos peso no fim único como princípio dedutivo. A diferença é de método e de ênfase, não de doutrina.
Omnia in gloriam Dei facite.
Fazei tudo para a glória de Deus.
Deus primeiro, eu segundo: a glória de Deus é o fim, e a minha felicidade é fim segundo, encontrado dentro dela.