A teologia moral de Santo Afonso de Ligório
No combate espiritual, são os que fogem que vencem.
O sermão responde a uma acusação dupla, a de rigorismo e a de relaxamento, mostrando que ela é o sintoma previsto por Aristóteles: quem está num extremo enxerga o justo meio como o extremo contrário. Daí passa ao sistema moral de Santo Afonso, que a Igreja aprovou em termos sem paralelo, e o reduz a dois movimentos que só parecem contrários. Nenhuma obrigação duvidosa deve ser imposta às almas, porque cada lei a mais é uma ocasião a mais de queda; e nenhum perigo deve ser tolerado, mesmo quando aquilo que o cria não seja pecado em si, porque não é lícito expor as almas ao risco de ofender a Deus. A segunda metade organiza a vida inteira como uma travessia de deserto, com seis perigos nomeados e a precaução devida a cada um.
A capela não tem moral própria
A primeira coisa afirmada é uma negativa. Não existe uma teologia moral desta ou daquela capela: não se criou aqui um sistema próprio sobre o que é virtude e o que é pecado, sobre o que pode e o que não pode, sobre como a vida católica deve ser levada. O que se transmite é o que se recebeu, e o que se recebeu é a teologia moral católica. Os padres não aplicam um sistema pessoal sobre os fiéis; usam o da Igreja para formá-los.
A ressalva importa porque na matéria moral se opina com extrema facilidade. Fala-se de tudo sobre a moral da Igreja e sobre Santo Afonso sem pensar, e quase sempre pelo mesmo motivo: já se tem uma inclinação, um apego, uma preferência, e procura-se um modo de sustentar o comportamento que já se escolheu. É matéria delicada, que pede o cuidado de um bom anatomista do comportamento, formado ao longo de anos de estudo, correção e vida ordenada.
E há um obstáculo mais fundo: reconhecer que se está errado num ponto do comportamento, e reconhecê-lo diante dos outros, exige um grau de mortificação do amor próprio que não é comum encontrar. Por isso a discussão moral raramente é discussão; é defesa.
Por que o equilíbrio é sempre acusado dos dois lados
A explicação do fenômeno vem do livro II da Ética a Nicômaco. A virtude não é o oposto absoluto do vício, e sim um justo meio entre dois extremos defeituosos, um por exagero e outro por falta. A observação decisiva, porém, é psicológica e social: como os extremos estão distantes do centro razoável, eles não conseguem ver a virtude como equilíbrio, e cada um projeta no virtuoso o vício contrário ao seu.
Cada extremo empurra o meio para o lado do outro. Para quem está habituado ao vício, qualquer movimento em direção ao equilíbrio parece uma inclinação para o erro oposto: o covarde chama o corajoso de temerário, e o temerário chama o corajoso de covarde.
Os exemplos se multiplicam sozinhos. O avarento vê no homem generoso um esbanjador; o esbanjador vê naquele que ajuda com medida um avarento, que deveria dar mais. Quem não tem prazer em nada, e nisso não há virtude alguma, vê o moderado como intemperante; e o intemperante, que busca os prazeres sem medida, vê o moderado como alguém sem vida. Daí a queixa perene: os padres não me deixam fazer nada.
O sermão observa que Nosso Senhor passou por isto. A geração que ele comparou às crianças da praça, que não querem brincar nem de velório nem de casamento, disse de João Batista que tinha demônio, porque não comia nem bebia, e do Filho do Homem que era comilão e beberrão, porque entrava na casa dos outros e jantava com eles. A acusação vinha dos dois lados porque os dois lados estavam fora do centro.
Venit Ioannes neque manducans neque bibens, et dicunt: Daemonium habet. Venit Filius hominis manducans et bibens, et dicunt: Ecce homo vorax et potator vini.
Veio João, que não comia nem bebia, e dizem: tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: eis um comilão e bebedor de vinho.
A conclusão prática é sóbria: ser virtuoso é difícil porque o alvo é estreito, cercado por áreas imensas de todos os modos possíveis de errar. Há muitas maneiras de errar e uma só de acertar. E como a percepção que cada um tem da virtude depende de onde ele mesmo está, quanto mais alguém está mergulhado num vício, mais a virtude lhe parecerá o vício oposto.
O que a Igreja declarou sobre Santo Afonso

Advogado napolitano antes de sacerdote, bispo de Santa Ágata dos Godos e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor. Doutor da Igreja em 1871 e padroeiro dos confessores e moralistas em 1950.
Antes de expor o sistema, o sermão apresenta as suas credenciais, e elas são de um tipo que nenhum outro autor eclesiástico recebeu. Duas declarações bastam.
O sermão diz “1931” e deixa o ano do primeiro decreto pela metade. As datas corretas são 1803 e 1831, e a segunda é a resposta da Sagrada Penitenciaria a uma consulta sobre confessores e professores de teologia moral. O reconhecimento seguiu adiante: Santo Afonso foi declarado doutor da Igreja em 1871 e padroeiro dos confessores e moralistas em 1950.
A conclusão que o sermão extrai daí não é de erudição, e sim de exame de consciência. Quem tem restrições a Santo Afonso deveria perguntar-se o que lhe dá tanta confiança nas próprias ideias a respeito de como deveria ser a moral da Igreja, sobretudo porque um dos componentes daquele sistema é justamente a desconfiança de si.
Ciência e consciência
A primeira distinção técnica do sistema separa dois planos que se confundem o tempo todo: o que se pode sustentar em teoria e o que se pode aplicar às pessoas. Não se trata do dito preguiçoso de que na prática a teoria é outra, porque se na prática a teoria é outra a teoria está errada. Trata-se de levar em conta a fraqueza real de quem vai receber a orientação.
Em teologia moral, provável não quer dizer estatisticamente frequente, e sim aquilo que se pode provar: uma tese sustentada por razões sérias, que o teólogo alega e defende. É por isso que duas opiniões contrárias podem ser ambas prováveis.
No plano da ciência é lícito adotar qualquer opinião que pareça provável, e discuti-la em sala de aula, em tese, na universidade. No plano da consciência exige-se uma reserva maior, que consiste em não pregar como coisa a ser seguida uma opinião que, embora especulativamente sustentável, é perigosa na prática.
O exemplo dado é o das danças. Algumas são pecaminosas por natureza e sempre condenáveis. Outras, muito perigosas, talvez não sejam em si mesmas pecado. Pode o pastor apoiar-se nesse talvez para permiti-las? Um teólogo pouco caridoso responderia que sim, alegando que não se pode obrigar ninguém a partir de uma dúvida. A resposta de Santo Afonso é enérgica: não, porque se não é certo que sejam pecado, é certo que são gravemente perigosas, e não é permitido expor as almas ao perigo de ofender a Deus.
O argumento é de caridade, e vale a pena vê-lo pelo avesso, porque costuma ser invocado ao contrário. O ato próprio da caridade é buscar os interesses de Deus. Quem tolera o perigo alegando caridade pergunta-se pouco que interesse de Deus está buscando ao deixar as almas confiadas a ele expostas.
A dúvida, e os dois modos errados de resolvê-la
A vida está cheia de situações obscuras em que não se sabe se há obrigação ou não. É sexta-feira e não se tem certeza se o prato servido leva carne. Viaja-se por uma região onde vigora uma lei particular de abstinência, e não se sabe se ela alcança quem está de passagem. Diante disso aparecem duas respostas, e as duas erram do mesmo modo, concedendo à opinião humana uma força que ela não tem.
A saída não está em escolher um dos dois, e sim em recusar a premissa comum aos dois. Quem não sabe o que pode fazer deve procurar as regras seguras que conduzem nas incertezas da vida, e elas existem: a fé, o ensinamento da Igreja, a luz natural da razão apoiada em princípios certos. Consultadas essas regras, a pessoa saberá caminhar com segurança mesmo em caminho sem luz.
Este é o espírito de Santo Afonso na teologia moral: nunca impor obrigações duvidosas sobre as almas, e nunca ver com olhos tranquilos o perigo, ainda que aquilo que o cria não seja pecado em si mesmo.
Os dois movimentos parecem opostos e são o mesmo. Impor obrigação duvidosa multiplica as quedas; tolerar o perigo entrega a alma ao risco. Nos dois casos a pergunta é uma só, e é a pergunta da caridade: o que assegura a salvação desta alma?
O sermão dá o exemplo concreto que os moralistas costumam trazer. Ainda que um beijo superficial entre noivos não seja em si mesmo pecado, como o são a mentira, a blasfêmia, a apostasia ou o adultério, eles recomendam constantemente que noivos e namorados entrem em acordo de não se beijarem até o casamento. O padre que proíbe o que não é pecado, mas é perigoso, não é rigorista: é caridoso. O que nunca proíbe nada que não seja estritamente pecado, no fim das contas não cuida das almas.
Qui amat periculum, in illo peribit.
Quem ama o perigo nele perecerá.
Desconfiar de si
Daqui sai o princípio que sustenta tudo o mais. O cristão desconfia de si mesmo. Sabe que, apesar dos bons propósitos e da reta intenção, continua filho de Adão, e que um nada basta para fazê-lo mudar de ideia. Sabe sobretudo isto: antes da ocasião ele não quer pecar, e quando estiver na ocasião a ocasião o fará mudar de ideia.
A imagem usada para descrever Santo Afonso vem do Pe. Achille Desurmont e é exata. Um avarento de bens espirituais: alguém que quer acumular e tem medo de perder, e que por isso é cauteloso, precavido, minucioso, tomando todos os cuidados para afastar os olhares e os perigos do tesouro. Nele, o temor da perda iguala o desejo do ganho. Como escritor, como doutor e como missionário, foi sempre um homem de precauções.
Achille Desurmont (1828-1898), redentorista, provincial da França, é a fonte de boa parte do que o sermão desenvolve daqui em diante; suas lições de teologia pastoral estão em La Charité sacerdotale, publicada em Paris em 1899, depois da sua morte. Sobre a linha de transmissão mencionada no sermão, convém a precisão: São Clemente Maria Hofbauer entrou para os redentoristas em Roma em 1784 e professou em 1785, ainda em vida do fundador, mas as biografias correntes não registram que os dois tenham se encontrado.
Vem daí a comparação que o sermão retoma de Desurmont. O homem moderno é um mortal feliz, segurado contra tudo: incêndio, naufrágio, granizo, peste, morte. Falta um só seguro, o seguro contra o inferno, e nenhuma companhia o oferece, por falta de clientes. Os santos pensaram nisso, e entre eles ninguém aperfeiçoou tanto quanto Santo Afonso a arte de assegurar a própria salvação.
O corolário é sobre os livros dele. Foram escritos, diz o sermão, para responder à queixa das Lamentações, de que os pequeninos pediram pão e não houve quem lho repartisse. São repetitivos, cheios de citações dos Padres, e não agradam aos paladares mais delicados; são a grande ciência reduzida a pequenos pedaços de pão, para que os ignorantes vão recebendo luz. Tomados em conjunto, formam um código completo de precauções contra o naufrágio eterno.
Parvuli petierunt panem, et non erat qui frangeret eis.
Os pequeninos pediram pão, e não havia quem lho repartisse.
O caminho do cristão viajante
A vida é um deserto a ser atravessado, e a travessia tem perigos que não mudam. O sermão os enumera um a um, e a cada perigo faz corresponder a precaução que Santo Afonso ensina, com o livro onde ela é ensinada. É a parte central da pregação e o seu resumo prático.
- Os assassinos e os ladrõesA ocasião próxima de pecadoHá um malfeitor tão esperto quanto cruel, que primeiro rouba da alma os seus propósitos mais firmes e a sua melhor vontade, e depois de roubá-los mata a alma. Uma pessoa convertida, separada do mundo, guarda o que prometeu a Deus enquanto está isolada do perigo. Aparece então uma criatura amada demais, sedutora demais, e se não se foge dela os bons propósitos já foram levados. Um só olhar, uma só palavra basta. Tanto poder tem a ocasião sobre quem fica arriscando com ela. Entre os médicos das almas, muitos desconhecem esta lei, e deixam a ovelha caminhar com os lobos e o queimado pisar de novo as brasas.A precauçãoFugir da ocasião, que é a primeira garantia de salvação.O grito de guerra contra este inimigo atravessa todos os livros de Santo Afonso.
- As feridas do combateO pecado já cometidoQuem pecou permanece ferido e doente. As doenças morais são sempre humilhantes: exigem uma operação penosa, que é dizer no confessionário o que se fez. Por serem humilhantes nós as escondemos, e porque o remédio dói preferimos os charlatães aos médicos de verdade. A vida inteira de Santo Afonso esgotou-se em convencer as almas feridas a se apresentarem ao sacerdote, e em ensinar aos feridos o segredo das curas verdadeiras, que não são as ilusórias.A precauçãoLevar a ferida ao médico, e usar a confissão com fidelidade.Os livros de Santo Afonso trazem o que ajuda a confessar-se e o que ajuda a confessar os outros.
- O desfalecimento e a fomeO deserto sem águaNão é preciso um assassino para morrer no caminho: basta ficar sem comida e sem água. A vida é um deserto onde o alimento não se encontra por acaso, e como o israelita só podia viver do maná que caía do céu e da água que saiu da rocha, quem não busca todos os dias esse maná e essa água desfalecerá no caminho. Santo Afonso conduz a três reservatórios sagrados: o Santíssimo Sacramento, a Paixão do Senhor e o colo da Santíssima Virgem. Se Deus é a fonte, a oração é o canal e a chave do tesouro.A precauçãoIr todos os dias às fontes da graça, pela oração.Visitas ao Santíssimo Sacramento · As Glórias de Maria · Do Grande Meio da Oração
- As surpresas do inimigoA tentação que chega de repenteMesmo alimentado pelo maná e saciado pela água, o viajante pode ser assaltado sem aviso. A tentação é o salto do leão que ruge em volta buscando a quem devorar, e é um olhar que aterroriza e fascina ao mesmo tempo. Aqui a tática de Santo Afonso tem uma finura própria: na hora da tentação é preciso clamar por socorro, mas perturbado como se estará naquele momento, não se pedirá ajuda. Logo, peça-se antes.A precauçãoPedir a Deus, antes da tentação, a graça de saber rezar quando ela vier.Se orardes, estareis salvos; se não orardes, estareis perdidos.
- O cansaço da viagemO caminho é longo demais para a nossa constânciaAinda que o caminho não tivesse precipícios nem inimigos, ele é muito longo, e isso por si só já é um perigo, porque nós somos a encarnação da inconstância. Acrescentar um dia a mais à vida é um problema real: um dia após o outro na prática do bem é dificuldade para um coração que muda, e as nossas vontades se cansam e se desviam da rota mais rápido do que imaginamos.A precauçãoPedir todos os dias a graça da perseverança.O pedido reaparece em cada página dos livros de Santo Afonso.
- O último passoA chegadaEmbora a boa morte resulte de uma vida bem vivida, entre as duas coisas não há vínculo necessário: por mais santo que tenha sido, quem chega ao fim precisa contar com a misericórdia de Deus. Daí a última precaução, e a razão dela: obtemos na morte aquilo que pedimos durante a vida.A precauçãoPedir cada dia a graça de morrer bem.Preparação para a Morte
Seguidos esses conselhos, o cristão viajante chega à vida eterna. É o que a Igreja pede na coleta da missa de Santo Afonso: que iluminados pelos seus salutares avisos e fortalecidos pelos seus exemplos, cheguemos enfim até vós.
A frase que fica
Duas frases do sermão condensam tudo, e as duas são citações. A primeira é o princípio da fuga, dito com o paradoxo que o torna inesquecível.
Nelle battaglie della castità vincono i codardi, cioè quelli che fuggono.
Nas batalhas da castidade vencem os covardes, isto é, os que fogem.
O sermão atribui a frase a “um outro grande santo” sem nomeá-lo. A atribuição tradicional é a São Filipe Néri, e a sentença circula em português numa forma abreviada: na guerra da pureza, só vencem os que fogem. O mesmo princípio, sem o paradoxo, é a regra da fuga no Combate Espiritual de Lourenço Scupoli, que trata da ocasião como terreno onde não se deve lutar, e sim não estar.
A segunda é o diagnóstico do capítulo sobre o cansaço, e vale por um exame de consciência inteiro: nós somos a encarnação da inconstância, e o simples fato de acrescentar mais um dia à nossa vida já é um problema, porque as vontades se cansam e se desviam da rota mais rápido do que se imagina. É por isso que a perseverança se pede todo dia, e não uma vez.
O que isso decide na prática
O sermão fecha voltando ao ponto de partida, agora com a razão à vista. Uma pastoral formada nesses princípios não impõe obrigações que não existem, para não colocar os fiéis em risco de cair mais vezes, e não olha com tranquilidade para o perigo de pecado, ainda que ele não seja em si mesmo pecado.
Como o justo meio é lido pelos extremos como o extremo contrário, essa posição recebe as duas acusações ao mesmo tempo, exatamente como aconteceu com Santo Afonso, que teve contra si tanto os jansenistas, rigoristas que sobrecarregavam a religião de prescrições impossíveis, quanto os que empurravam as almas para o relaxo. Ser acusado pelos dois lados é, nesta matéria, indício de estar no lugar certo.
Emitte lucem tuam et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt, et adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua.
Enviai a vossa luz e a vossa verdade: elas me guiaram e me conduziram ao vosso monte santo e aos vossos tabernáculos.
Guardar o mecanismo antes das conclusões: quem está num extremo lê o equilíbrio como o extremo oposto, e por isso a acusação simultânea de rigor e de relaxamento não prova nada contra quem a recebe. Sobre a matéria em si, os dois movimentos de Santo Afonso são um só: nenhuma obrigação duvidosa, porque cada lei a mais é uma queda a mais; nenhum perigo tolerado, porque não é lícito expor a alma ao risco. E o resumo prático cabe nas seis precauções, que respondem, uma a uma, aos seis modos de se perder no caminho.
