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SermõesA teologia moral de Santo Afonso de Ligório
Sermão · Pe. Luiz Fernando Pasquotto, IBP

A teologia moral de Santo Afonso de Ligório

Publicado como “Para entender a Teologia moral da Capela Nossa Senhora das Dores (e honrar Santo Afonso)”.

No combate espiritual, são os que fogem que vencem.

São Filipe Néri
Essência

O sermão responde a uma acusação dupla, a de rigorismo e a de relaxamento, mostrando que ela é o sintoma previsto por Aristóteles: quem está num extremo enxerga o justo meio como o extremo contrário. Daí passa ao sistema moral de Santo Afonso, que a Igreja aprovou em termos sem paralelo, e o reduz a dois movimentos que só parecem contrários. Nenhuma obrigação duvidosa deve ser imposta às almas, porque cada lei a mais é uma ocasião a mais de queda; e nenhum perigo deve ser tolerado, mesmo quando aquilo que o cria não seja pecado em si, porque não é lícito expor as almas ao risco de ofender a Deus. A segunda metade organiza a vida inteira como uma travessia de deserto, com seis perigos nomeados e a precaução devida a cada um.

os extremos acusam o justo meio de ser o extremo oposto
por isso a moral equilibrada é chamada de rigorista e de relaxada
a Igreja aprovou a moral de Santo Afonso sem reserva alguma
ela não impõe obrigações duvidosas, que multiplicariam as quedas
mas afasta o perigo, mesmo o que não é pecado em si
e arma o viajante com uma precaução para cada perigo do caminho

A capela não tem moral própria

A primeira coisa afirmada é uma negativa. Não existe uma teologia moral desta ou daquela capela: não se criou aqui um sistema próprio sobre o que é virtude e o que é pecado, sobre o que pode e o que não pode, sobre como a vida católica deve ser levada. O que se transmite é o que se recebeu, e o que se recebeu é a teologia moral católica. Os padres não aplicam um sistema pessoal sobre os fiéis; usam o da Igreja para formá-los.

A ressalva importa porque na matéria moral se opina com extrema facilidade. Fala-se de tudo sobre a moral da Igreja e sobre Santo Afonso sem pensar, e quase sempre pelo mesmo motivo: já se tem uma inclinação, um apego, uma preferência, e procura-se um modo de sustentar o comportamento que já se escolheu. É matéria delicada, que pede o cuidado de um bom anatomista do comportamento, formado ao longo de anos de estudo, correção e vida ordenada.

E há um obstáculo mais fundo: reconhecer que se está errado num ponto do comportamento, e reconhecê-lo diante dos outros, exige um grau de mortificação do amor próprio que não é comum encontrar. Por isso a discussão moral raramente é discussão; é defesa.

Por que o equilíbrio é sempre acusado dos dois lados

A explicação do fenômeno vem do livro II da Ética a Nicômaco. A virtude não é o oposto absoluto do vício, e sim um justo meio entre dois extremos defeituosos, um por exagero e outro por falta. A observação decisiva, porém, é psicológica e social: como os extremos estão distantes do centro razoável, eles não conseguem ver a virtude como equilíbrio, e cada um projeta no virtuoso o vício contrário ao seu.

Os extremos repelem o justo meioAristóteles, Ética a Nicômaco, II

Cada extremo empurra o meio para o lado do outro. Para quem está habituado ao vício, qualquer movimento em direção ao equilíbrio parece uma inclinação para o erro oposto: o covarde chama o corajoso de temerário, e o temerário chama o corajoso de covarde.

Os exemplos se multiplicam sozinhos. O avarento vê no homem generoso um esbanjador; o esbanjador vê naquele que ajuda com medida um avarento, que deveria dar mais. Quem não tem prazer em nada, e nisso não há virtude alguma, vê o moderado como intemperante; e o intemperante, que busca os prazeres sem medida, vê o moderado como alguém sem vida. Daí a queixa perene: os padres não me deixam fazer nada.

O sermão observa que Nosso Senhor passou por isto. A geração que ele comparou às crianças da praça, que não querem brincar nem de velório nem de casamento, disse de João Batista que tinha demônio, porque não comia nem bebia, e do Filho do Homem que era comilão e beberrão, porque entrava na casa dos outros e jantava com eles. A acusação vinha dos dois lados porque os dois lados estavam fora do centro.

Venit Ioannes neque manducans neque bibens, et dicunt: Daemonium habet. Venit Filius hominis manducans et bibens, et dicunt: Ecce homo vorax et potator vini.

Veio João, que não comia nem bebia, e dizem: tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: eis um comilão e bebedor de vinho.

São Mateus 11, 18-19 (Vulgata Clementina)

A conclusão prática é sóbria: ser virtuoso é difícil porque o alvo é estreito, cercado por áreas imensas de todos os modos possíveis de errar. Há muitas maneiras de errar e uma só de acertar. E como a percepção que cada um tem da virtude depende de onde ele mesmo está, quanto mais alguém está mergulhado num vício, mais a virtude lhe parecerá o vício oposto.

O que a Igreja declarou sobre Santo Afonso

Gravura setecentista de Santo Afonso Maria de Ligório, de hábito, com um crucifixo na mão esquerda.
Santo Afonso Maria de Ligório
1696 — 1787

Advogado napolitano antes de sacerdote, bispo de Santa Ágata dos Godos e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor. Doutor da Igreja em 1871 e padroeiro dos confessores e moralistas em 1950.

Gravura a buril e ponteado, entre 1750 e 1800, autor desconhecido · Maurits Sabbebibliotheek, KU Leuven · domínio público

Antes de expor o sistema, o sermão apresenta as suas credenciais, e elas são de um tipo que nenhum outro autor eclesiástico recebeu. Duas declarações bastam.

As duas aprovações da Santa Sé
Decreto de 18 de maio de 1803examinadas todas as obras impressas de Santo Afonso, nada foi encontrado digno de censura.
Resposta da Penitenciaria de 5 de julho de 1831a sua teologia moral pode ser seguida em todas as suas partes com inteira segurança de consciência, e um professor pode ensinar as opiniões dele.
Nota bene

O sermão diz “1931” e deixa o ano do primeiro decreto pela metade. As datas corretas são 1803 e 1831, e a segunda é a resposta da Sagrada Penitenciaria a uma consulta sobre confessores e professores de teologia moral. O reconhecimento seguiu adiante: Santo Afonso foi declarado doutor da Igreja em 1871 e padroeiro dos confessores e moralistas em 1950.

A conclusão que o sermão extrai daí não é de erudição, e sim de exame de consciência. Quem tem restrições a Santo Afonso deveria perguntar-se o que lhe dá tanta confiança nas próprias ideias a respeito de como deveria ser a moral da Igreja, sobretudo porque um dos componentes daquele sistema é justamente a desconfiança de si.

Ciência e consciência

A primeira distinção técnica do sistema separa dois planos que se confundem o tempo todo: o que se pode sustentar em teoria e o que se pode aplicar às pessoas. Não se trata do dito preguiçoso de que na prática a teoria é outra, porque se na prática a teoria é outra a teoria está errada. Trata-se de levar em conta a fraqueza real de quem vai receber a orientação.

Opinião provávelo vocabulário da moral, não o da estatística

Em teologia moral, provável não quer dizer estatisticamente frequente, e sim aquilo que se pode provar: uma tese sustentada por razões sérias, que o teólogo alega e defende. É por isso que duas opiniões contrárias podem ser ambas prováveis.

No plano da ciência é lícito adotar qualquer opinião que pareça provável, e discuti-la em sala de aula, em tese, na universidade. No plano da consciência exige-se uma reserva maior, que consiste em não pregar como coisa a ser seguida uma opinião que, embora especulativamente sustentável, é perigosa na prática.

O exemplo dado é o das danças. Algumas são pecaminosas por natureza e sempre condenáveis. Outras, muito perigosas, talvez não sejam em si mesmas pecado. Pode o pastor apoiar-se nesse talvez para permiti-las? Um teólogo pouco caridoso responderia que sim, alegando que não se pode obrigar ninguém a partir de uma dúvida. A resposta de Santo Afonso é enérgica: não, porque se não é certo que sejam pecado, é certo que são gravemente perigosas, e não é permitido expor as almas ao perigo de ofender a Deus.

Nota bene

O argumento é de caridade, e vale a pena vê-lo pelo avesso, porque costuma ser invocado ao contrário. O ato próprio da caridade é buscar os interesses de Deus. Quem tolera o perigo alegando caridade pergunta-se pouco que interesse de Deus está buscando ao deixar as almas confiadas a ele expostas.

A dúvida, e os dois modos errados de resolvê-la

A vida está cheia de situações obscuras em que não se sabe se há obrigação ou não. É sexta-feira e não se tem certeza se o prato servido leva carne. Viaja-se por uma região onde vigora uma lei particular de abstinência, e não se sabe se ela alcança quem está de passagem. Diante disso aparecem duas respostas, e as duas erram do mesmo modo, concedendo à opinião humana uma força que ela não tem.

Os dois erros simétricos
O rigoristabasta haver dúvida para haver obrigação, porque é mais seguro proibir. Impõe um peso insuportável e multiplica as ocasiões de queda: quanto mais leis, mais vezes se cai.
O relaxadobasta haver dúvida para não haver obrigação nenhuma, e então faça-se o que se quiser. Expõe a consciência a ilusões de todo tipo e compromete a salvação.

A saída não está em escolher um dos dois, e sim em recusar a premissa comum aos dois. Quem não sabe o que pode fazer deve procurar as regras seguras que conduzem nas incertezas da vida, e elas existem: a fé, o ensinamento da Igreja, a luz natural da razão apoiada em princípios certos. Consultadas essas regras, a pessoa saberá caminhar com segurança mesmo em caminho sem luz.

Este é o espírito de Santo Afonso na teologia moral: nunca impor obrigações duvidosas sobre as almas, e nunca ver com olhos tranquilos o perigo, ainda que aquilo que o cria não seja pecado em si mesmo.

Os dois movimentos parecem opostos e são o mesmo. Impor obrigação duvidosa multiplica as quedas; tolerar o perigo entrega a alma ao risco. Nos dois casos a pergunta é uma só, e é a pergunta da caridade: o que assegura a salvação desta alma?

O sermão dá o exemplo concreto que os moralistas costumam trazer. Ainda que um beijo superficial entre noivos não seja em si mesmo pecado, como o são a mentira, a blasfêmia, a apostasia ou o adultério, eles recomendam constantemente que noivos e namorados entrem em acordo de não se beijarem até o casamento. O padre que proíbe o que não é pecado, mas é perigoso, não é rigorista: é caridoso. O que nunca proíbe nada que não seja estritamente pecado, no fim das contas não cuida das almas.

Qui amat periculum, in illo peribit.

Quem ama o perigo nele perecerá.

Eclesiástico 3, 27 (Vulgata Clementina)

Desconfiar de si

Daqui sai o princípio que sustenta tudo o mais. O cristão desconfia de si mesmo. Sabe que, apesar dos bons propósitos e da reta intenção, continua filho de Adão, e que um nada basta para fazê-lo mudar de ideia. Sabe sobretudo isto: antes da ocasião ele não quer pecar, e quando estiver na ocasião a ocasião o fará mudar de ideia.

A imagem usada para descrever Santo Afonso vem do Pe. Achille Desurmont e é exata. Um avarento de bens espirituais: alguém que quer acumular e tem medo de perder, e que por isso é cauteloso, precavido, minucioso, tomando todos os cuidados para afastar os olhares e os perigos do tesouro. Nele, o temor da perda iguala o desejo do ganho. Como escritor, como doutor e como missionário, foi sempre um homem de precauções.

Nota bene

Achille Desurmont (1828-1898), redentorista, provincial da França, é a fonte de boa parte do que o sermão desenvolve daqui em diante; suas lições de teologia pastoral estão em La Charité sacerdotale, publicada em Paris em 1899, depois da sua morte. Sobre a linha de transmissão mencionada no sermão, convém a precisão: São Clemente Maria Hofbauer entrou para os redentoristas em Roma em 1784 e professou em 1785, ainda em vida do fundador, mas as biografias correntes não registram que os dois tenham se encontrado.

Vem daí a comparação que o sermão retoma de Desurmont. O homem moderno é um mortal feliz, segurado contra tudo: incêndio, naufrágio, granizo, peste, morte. Falta um só seguro, o seguro contra o inferno, e nenhuma companhia o oferece, por falta de clientes. Os santos pensaram nisso, e entre eles ninguém aperfeiçoou tanto quanto Santo Afonso a arte de assegurar a própria salvação.

O corolário é sobre os livros dele. Foram escritos, diz o sermão, para responder à queixa das Lamentações, de que os pequeninos pediram pão e não houve quem lho repartisse. São repetitivos, cheios de citações dos Padres, e não agradam aos paladares mais delicados; são a grande ciência reduzida a pequenos pedaços de pão, para que os ignorantes vão recebendo luz. Tomados em conjunto, formam um código completo de precauções contra o naufrágio eterno.

Parvuli petierunt panem, et non erat qui frangeret eis.

Os pequeninos pediram pão, e não havia quem lho repartisse.

Lamentações 4, 4 (Vulgata Clementina)
A travessia

O caminho do cristão viajante

A vida é um deserto a ser atravessado, e a travessia tem perigos que não mudam. O sermão os enumera um a um, e a cada perigo faz corresponder a precaução que Santo Afonso ensina, com o livro onde ela é ensinada. É a parte central da pregação e o seu resumo prático.

  1. Os assassinos e os ladrões
    A ocasião próxima de pecado
    Há um malfeitor tão esperto quanto cruel, que primeiro rouba da alma os seus propósitos mais firmes e a sua melhor vontade, e depois de roubá-los mata a alma. Uma pessoa convertida, separada do mundo, guarda o que prometeu a Deus enquanto está isolada do perigo. Aparece então uma criatura amada demais, sedutora demais, e se não se foge dela os bons propósitos já foram levados. Um só olhar, uma só palavra basta. Tanto poder tem a ocasião sobre quem fica arriscando com ela. Entre os médicos das almas, muitos desconhecem esta lei, e deixam a ovelha caminhar com os lobos e o queimado pisar de novo as brasas.
    A precaução
    Fugir da ocasião, que é a primeira garantia de salvação.
    O grito de guerra contra este inimigo atravessa todos os livros de Santo Afonso.
  2. As feridas do combate
    O pecado já cometido
    Quem pecou permanece ferido e doente. As doenças morais são sempre humilhantes: exigem uma operação penosa, que é dizer no confessionário o que se fez. Por serem humilhantes nós as escondemos, e porque o remédio dói preferimos os charlatães aos médicos de verdade. A vida inteira de Santo Afonso esgotou-se em convencer as almas feridas a se apresentarem ao sacerdote, e em ensinar aos feridos o segredo das curas verdadeiras, que não são as ilusórias.
    A precaução
    Levar a ferida ao médico, e usar a confissão com fidelidade.
    Os livros de Santo Afonso trazem o que ajuda a confessar-se e o que ajuda a confessar os outros.
  3. O desfalecimento e a fome
    O deserto sem água
    Não é preciso um assassino para morrer no caminho: basta ficar sem comida e sem água. A vida é um deserto onde o alimento não se encontra por acaso, e como o israelita só podia viver do maná que caía do céu e da água que saiu da rocha, quem não busca todos os dias esse maná e essa água desfalecerá no caminho. Santo Afonso conduz a três reservatórios sagrados: o Santíssimo Sacramento, a Paixão do Senhor e o colo da Santíssima Virgem. Se Deus é a fonte, a oração é o canal e a chave do tesouro.
    A precaução
    Ir todos os dias às fontes da graça, pela oração.
    Visitas ao Santíssimo Sacramento · As Glórias de Maria · Do Grande Meio da Oração
  4. As surpresas do inimigo
    A tentação que chega de repente
    Mesmo alimentado pelo maná e saciado pela água, o viajante pode ser assaltado sem aviso. A tentação é o salto do leão que ruge em volta buscando a quem devorar, e é um olhar que aterroriza e fascina ao mesmo tempo. Aqui a tática de Santo Afonso tem uma finura própria: na hora da tentação é preciso clamar por socorro, mas perturbado como se estará naquele momento, não se pedirá ajuda. Logo, peça-se antes.
    A precaução
    Pedir a Deus, antes da tentação, a graça de saber rezar quando ela vier.
    Se orardes, estareis salvos; se não orardes, estareis perdidos.
  5. O cansaço da viagem
    O caminho é longo demais para a nossa constância
    Ainda que o caminho não tivesse precipícios nem inimigos, ele é muito longo, e isso por si só já é um perigo, porque nós somos a encarnação da inconstância. Acrescentar um dia a mais à vida é um problema real: um dia após o outro na prática do bem é dificuldade para um coração que muda, e as nossas vontades se cansam e se desviam da rota mais rápido do que imaginamos.
    A precaução
    Pedir todos os dias a graça da perseverança.
    O pedido reaparece em cada página dos livros de Santo Afonso.
  6. O último passo
    A chegada
    Embora a boa morte resulte de uma vida bem vivida, entre as duas coisas não há vínculo necessário: por mais santo que tenha sido, quem chega ao fim precisa contar com a misericórdia de Deus. Daí a última precaução, e a razão dela: obtemos na morte aquilo que pedimos durante a vida.
    A precaução
    Pedir cada dia a graça de morrer bem.
    Preparação para a Morte

Seguidos esses conselhos, o cristão viajante chega à vida eterna. É o que a Igreja pede na coleta da missa de Santo Afonso: que iluminados pelos seus salutares avisos e fortalecidos pelos seus exemplos, cheguemos enfim até vós.

A frase que fica

Duas frases do sermão condensam tudo, e as duas são citações. A primeira é o princípio da fuga, dito com o paradoxo que o torna inesquecível.

Nelle battaglie della castità vincono i codardi, cioè quelli che fuggono.

Nas batalhas da castidade vencem os covardes, isto é, os que fogem.

São Filipe Néri
Nota bene

O sermão atribui a frase a “um outro grande santo” sem nomeá-lo. A atribuição tradicional é a São Filipe Néri, e a sentença circula em português numa forma abreviada: na guerra da pureza, só vencem os que fogem. O mesmo princípio, sem o paradoxo, é a regra da fuga no Combate Espiritual de Lourenço Scupoli, que trata da ocasião como terreno onde não se deve lutar, e sim não estar.

A segunda é o diagnóstico do capítulo sobre o cansaço, e vale por um exame de consciência inteiro: nós somos a encarnação da inconstância, e o simples fato de acrescentar mais um dia à nossa vida já é um problema, porque as vontades se cansam e se desviam da rota mais rápido do que se imagina. É por isso que a perseverança se pede todo dia, e não uma vez.

O que isso decide na prática

O sermão fecha voltando ao ponto de partida, agora com a razão à vista. Uma pastoral formada nesses princípios não impõe obrigações que não existem, para não colocar os fiéis em risco de cair mais vezes, e não olha com tranquilidade para o perigo de pecado, ainda que ele não seja em si mesmo pecado.

Como o justo meio é lido pelos extremos como o extremo contrário, essa posição recebe as duas acusações ao mesmo tempo, exatamente como aconteceu com Santo Afonso, que teve contra si tanto os jansenistas, rigoristas que sobrecarregavam a religião de prescrições impossíveis, quanto os que empurravam as almas para o relaxo. Ser acusado pelos dois lados é, nesta matéria, indício de estar no lugar certo.

Emitte lucem tuam et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt, et adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua.

Enviai a vossa luz e a vossa verdade: elas me guiaram e me conduziram ao vosso monte santo e aos vossos tabernáculos.

Salmo 42, 3 (Vulgata Clementina), das orações ao pé do altar
Pontos-chave
Não há moral própria de uma capela: o que se transmite é a moral católica.
Na matéria moral opina-se para sustentar a inclinação que já se tem.
Reconhecer erro no próprio comportamento exige mortificação do amor próprio.
A virtude é justo meio entre dois extremos defeituosos, um por exagero e outro por falta.
Cada extremo projeta no virtuoso o vício contrário ao seu.
Há muitos modos de errar e um só de acertar; o alvo é estreito.
Quanto mais mergulhado num vício, mais a virtude parecerá o vício oposto.
A Igreja declarou que nada nas obras de Santo Afonso é digno de censura (1803).
E que a sua moral pode ser seguida em todas as partes com segurança de consciência (1831).
Opinião provável, em teologia, é a que se pode provar por razões, não a estatisticamente frequente.
O que se sustenta em ciência nem sempre se prega em consciência.
Não é permitido expor as almas ao perigo de ofender a Deus.
Impor obrigação duvidosa multiplica as leis e, com elas, as quedas.
Negar toda obrigação na dúvida entrega a consciência a ilusões.
Na dúvida, recorrer às regras seguras: a fé, o ensino da Igreja, a razão sobre princípios certos.
Proibir o que não é pecado, mas é perigoso, é ato de caridade, não de rigor.
O cristão desconfia de si: antes da ocasião não quer pecar, e na ocasião muda de ideia.
Os livros de Santo Afonso formam um código completo de precauções.
As seis precauções: fugir da ocasião, confessar-se, ir às fontes, pedir antes a graça de rezar, pedir a perseverança, pedir a boa morte.
Obtemos na morte o que pedimos durante a vida.
Termos
Justo meio
a virtude como equilíbrio entre dois extremos defeituosos, um por exagero e outro por falta, e não como oposto absoluto ao vício.
Opinião provável
em teologia moral, a tese que se pode sustentar por razões sérias; nada tem a ver com frequência estatística.
Opinião de ciência e opinião de consciência
o que um teólogo pode defender na discussão especulativa e o que ele pode propor como norma de vida a quem o ouve.
Ocasião próxima de pecado
a circunstância que, sem ser pecado, torna a queda moralmente provável para esta pessoa; a precaução devida a ela não é a luta, mas a fuga.
Lei duvidosa
aquela cuja obrigatoriedade não está provada; Santo Afonso nega que obrigue, para não sobrecarregar a consciência com pesos incertos.
Jansenismo
o rigorismo que sobrecarrega a religião de prescrições e proibições impossíveis, e que destruiu a vida católica onde apareceu.
Para reter

Guardar o mecanismo antes das conclusões: quem está num extremo lê o equilíbrio como o extremo oposto, e por isso a acusação simultânea de rigor e de relaxamento não prova nada contra quem a recebe. Sobre a matéria em si, os dois movimentos de Santo Afonso são um só: nenhuma obrigação duvidosa, porque cada lei a mais é uma queda a mais; nenhum perigo tolerado, porque não é lícito expor a alma ao risco. E o resumo prático cabe nas seis precauções, que respondem, uma a uma, aos seis modos de se perder no caminho.

Quadro da travessia do cristão viajante: duas colunas lado a lado, os seis passos que o cristão deve dar e as seis precauções do caminho, ligados por setas de um a um, com o contexto da homilia à esquerda e os pontos importantes à direita.
As duas sequências lado a lado, que é o modo mais claro de ver a travessia: à esquerda os seis passos, o que o cristão deve fazer; à direita as seis precauções de Santo Afonso, o que ele deve evitar, ligadas uma a uma por setas. Fugir da ocasião corresponde a conhecer a verdade, o confessionário ao combate dos vícios, as fontes da graça à prática das virtudes, e assim até o último passo.(Quadro-resumo do oratório. oratio.leo · por Leonardo Jacobsen)
Quadro do oratório · clique para ampliar e ler as duas colunas
Síntese própria a partir do sermão · a pregação é de Pe. Luiz Fernando Pasquotto, IBP · estampa: St. Alphonsus, litografia, 1871, Popular Graphic Arts · Library of Congress · domínio público