Ansiedade e alma humana
Toda proposição condicional que causa inquietação vem do demônio.
A ansiedade tem nomes antigos na teologia espiritual, inquietação, perturbação, solicitude excessiva, e uma definição precisa: é a perda da paz interior. Isso a torna o veneno da vida espiritual, porque a paz é o ambiente sem o qual Deus não trabalha na alma. O sermão a disseca em três camadas. Como desordem das paixões, é mistura de temor do mal futuro e de tristeza desse mal tornado presente pela imaginação, e o efeito é o tumor da alma, que ocupa todos os espaços da inteligência. Como divisão, ela parte a alma em duas, quando a caridade faria o contrário. E como estratégia do inimigo, ela é o seu maior aliado, porque em água turva o demônio pesca, e o alvo dele não é o pecado grave de imediato, é roubar a paz do coração.
Os nomes antigos de uma coisa nova
O sermão começa por um serviço de vocabulário. A noção que a psicologia atual chama de ansiedade não é novidade nos livros de ascética e mística: está lá com três nomes já consagrados, e convém reconhecê-los, porque é sob eles que a tradição a tratou.
E o texto de referência é o Sermão da Montanha, que o pregador chama, sem meias palavras, de arsenal contra a ansiedade. A expressão latina que ali aparece é a que dá o nome técnico à coisa.
Nolite ergo solliciti esse in crastinum: crastinus enim dies sollicitus erit sibi ipsi. Sufficit diei malitia sua.
Não andeis, pois, ansiosos pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. A cada dia basta o seu próprio mal.
Vale notar o modo verbal, que o sermão sublinha: nolite é imperativo plural. Não é conselho para temperamentos delicados, é ordem dada a todos. E a razão que o Senhor dá é a paternidade de Deus: buscai primeiro o Reino, e o resto vos será acrescentado.
A definição, e por que ela é grave
A definição é de uma linha, e é dela que todo o resto decorre.
A perda da paz interior. E a paz interior é o ambiente necessário para que Deus aja nas almas, o que torna a ansiedade não um incômodo, mas o veneno da vida espiritual.
A imagem que explica a gravidade é de São João Bosco, e é doméstica. Ele comparava o cuidado das almas a uma estufa de plantação: se o agricultor fica o tempo todo mexendo nos pés de alface, eles não crescem direito. É preciso deixá-los em paz, e na paz eles crescem.
Daí a razão pela qual todas as escolas de espiritualidade, carmelita, franciscana, redentorista, cartuxa ou inaciana, por diferentes que sejam nas nuances, ensinam a mesma coisa: é necessário um mínimo de recolhimento todos os dias. O sermão usa uma comparação com a vida intelectual, reconhecendo o seu limite: quem pretende estudar a fundo um grande problema não chega a nada sem anos de disciplina no silêncio; se é assim para o estudo, quanto mais para a vida interior. A comparação não é perfeita, porque a vida espiritual floresce também em gente simples, mas o ponto é outro e é válido: ela sempre exige recolhimento, com constância, regularidade e tempo. É o grande trabalho de que fala Dom Chautard em A Alma de Todo Apostolado.
Primeira camada: uma desordem das paixões
A análise propriamente dita começa em São Tomás, e parte do quadro das paixões. São onze, no elenco que vem de Aristóteles e passa por toda a escolástica, e o princípio que as governa é claro: a vida espiritual depende do governo das paixões pela razão, uma razão iluminada pela fé. E o sermão faz questão de dizer o que isso não significa: não é erradicá-las, nem abafá-las, nem invalidá-las, e sim racionalizá-las.
A ansiedade ataca exatamente esse governo. E a etimologia que São Tomás explora mostra por quê.
Composta de sollus, o todo, e citus, movido: estar inteiramente agitado. Não se trata da diligência devida, que é virtude, e sim do vício da inquietação excessiva da alma, dessa movimentação rápida e interna que tira a paz.
O primeiro efeito: a alma se divide
O primeiro efeito é estrutural. A ansiedade divide a pessoa dentro dela, e a alma deve ser una: ninguém faz bem o que faz sem ter a inteligência, a vontade e os afetos voltados para aquilo. A ansiedade produz divisão de atenção, e a caridade faz exatamente o contrário.
| O que faz na alma | Para onde a volta | |
|---|---|---|
| A caridade | une a alma e dirige tudo para Deus | para fora de si: busca os interesses de Deus, e não interessa o que aconteça comigo |
| A ansiedade | divide a alma e lhe reparte a atenção | para dentro de si: os meus medos, a minha insegurança, o meu futuro |
E o sermão dá o exemplo concreto de como a unidade se faz sem sair da vida comum. Trocar fralda, dar banho, fazer comida, levar o filho ao judô e ao violino, ouvir o marido ou a esposa, fazer a oração da manhã: se em tudo isso se buscam os interesses de Deus, faz-se uma coisa só, e isso é a unidade da alma.
A página do Evangelho que corresponde a essa divisão é a de Betânia, e é a que dá nome ao vício:
Martha, Martha, sollicita es, et turbaris erga plurima: porro unum est necessarium.
Marta, Marta, andas ansiosa e te perturbas com muitas coisas; mas uma só é necessária.
As duas palavras que o Senhor usa aqui são justamente duas das três com que a tradição nomeia a ansiedade, sollicita e turbaris. E a resposta não é uma repreensão ao trabalho de Marta: é a indicação de que uma só coisa é necessária, e que é a multiplicidade do querer, não a das tarefas, que perturba.
A raiz: querer controlar o futuro
De onde nasce? Muitas vezes de um desejo desordenado de controlar o futuro, que São Tomás liga ao vício da curiosidade: o desejo desregrado de saber o que não nos diz respeito. E o futuro não nos diz respeito, porque pertence a Deus.
O argumento que o sermão constrói a partir daí é de uma delicadeza que vale reproduzir. Deus criou cada um sabendo muito bem o que iria pedir dele; cada um tem uma missão. Só que ele não conta tudo de uma vez, como fez com os anjos, e sim vai mostrando pouco a pouco, um dia depois do outro. A cada dia bastam os seus problemas é o modo gentil de dizer: eu vos criei sabendo o que queria de vós, mas vos pedirei cada coisa no seu tempo.
E há um teste prático, que o pregador propõe em três segundos de reflexão: se você soubesse tudo o que vai acontecer, ficaria tranquilo? Como vai morrer, quando, o que acontecerá com os seus filhos e com o seu dinheiro. A melhor coisa, conclui, é não saber nada dessas coisas.
A mecânica: temor mais tristeza
Aqui está a parte mais técnica do sermão, e a mais útil, porque explica por que a ansiedade cansa tanto. Ela é uma mistura de duas paixões, cada uma com o seu objeto próprio.
É a paixão que responde a um mal que ainda não chegou. Enquanto o mal permanece futuro, a resposta é apenas temor.
Ao pensar no mal futuro, eu o torno de algum modo presente, do mesmo jeito que a memória torna presente o passado. A imaginação faz real, para a alma, aquilo que ainda não aconteceu.
Porque a tristeza tem por objeto o mal presente. Logo, quem vive antecipando males vive sentindo a tristeza deles antes de eles chegarem. É por isso que a ansiedade prolongada degenera em tristeza crônica.
A prova por simetria está no mesmo lugar e é bonita: quando se está com saudade de alguém, a lembrança dessa pessoa alivia, porque de algum modo a torna presente, e um bem presente causa alegria. O mesmo mecanismo que consola na saudade é o que atormenta na ansiedade.
E o efeito da tristeza é o que fecha o círculo. São Tomás ensina que a tristeza torna a alma pesada, incapaz de se levantar para Deus, porque a preocupação toma conta da mente. Ele usa uma expressão forte para descrever isso.
Tumor, em latim, é inchaço. A alma fica absolutamente tomada por uma coisa que enche todos os espaços da inteligência, de modo que ela não consegue pensar em outra coisa: aquilo incha por dentro e ocupa tudo. São Tomás o descreve sobretudo como efeito da ira, em que a pessoa fica obcecada pelo objeto da raiva, e o sermão nota que a tristeza tem efeito semelhante.
A conclusão é que a ansiedade atua como um peso, prendendo a alma às possibilidades catastróficas imaginárias do futuro, e assim impede a oração e a contemplação. Donde a sentença unânime dos mestres de vida espiritual, que o sermão cita mais de uma vez: depois do pecado, a ansiedade é o maior mal que pode acontecer a uma alma.
O sermão faz aqui uma ponte com a neurologia, e ela é dele, não de São Tomás. O córtex pré-frontal cuida da reflexão e da associação de imagens; o sistema límbico responde pelas emoções; e quando a emoção fica muito intensa, ela desliga o disjuntor da reflexão. O pregador vê nisso a confirmação empírica de uma razão antiga para a mortificação: paixão não governada impede o pensamento, e é tudo o que o inimigo quer, que as pessoas não reflitam.
Terceira camada: o inimigo pesca em água turva
A afirmação de São Francisco de Sales na Filoteia é a mais citada do sermão, e a formulação importa.
A inquietação é, depois do pecado, o maior mal que pode acontecer a uma alma.
E a precisão que vem a seguir é decisiva: a ansiedade não é uma tentação em si, é a origem de muitas tentações. A razão está na imagem do pescador: o demônio pesca em águas turvas. Ele não precisa criar o pecado; basta embaçar a reflexão, e então nada se vê direito, o discernimento da vontade de Deus fica impossível, e ele tira proveito.
A segunda imagem salesiana é a dos pássaros presos na rede: quanto mais se debatem, mais se enredam. É a alma ansiosa querendo sair de um problema ansiosamente, e complicando o problema. E a raiz disso é diagnosticada sem piedade: a ansiedade por vencer um defeito ou alcançar uma virtude costuma impedir o progresso, porque se apoia na ideia de resolver os próprios problemas pelas próprias forças, e não confia na providência.
Daí o paradoxo de Scupoli, no Combate Espiritual, que o sermão destaca como uma das lições mais estranhas e mais verdadeiras da ascética.
A paz é uma arma de guerra. Uma das maiores armas de um católico é manter-se interiormente em paz durante a guerra.
Scupoli ensina que o objetivo principal do inimigo não é fazer a alma cair num pecado grave logo de início, e sim roubar-lhe a paz do coração, porque o coração é uma fortaleza, e sem paz ele fica vulnerável. O argumento militar fecha o raciocínio: quem luta ansioso luta mal, porque age com precipitação, e a primeira qualidade de um general é a prudência, que se caracteriza sobretudo pela reflexão.
A ansiedade depois do pecado
Scupoli tem também uma advertência sobre o momento em que a ansiedade mais parece legítima, que é depois de uma queda. E o critério que ele dá para distinguir é fino.
| Como se reconhece | De onde vem | |
|---|---|---|
| Arrependimento ordenado | chora e fica triste, mas sereno, porque confia que Deus perdoa; é o que os antigos chamavam de lágrimas de doçura | de Deus, que dá sempre o arrependimento com doçura na alma |
| Inquietação depois do pecado | como fui capaz de fazer isso? | do orgulho ferido; afasta a alma da misericórdia e leva ao desânimo |
O teste é o pronome. A caridade faz esquecer-se de si: desde que Deus tire proveito, não interessa o que aconteceu comigo. Quem diz como foi que eu fiz isso está perguntando por si, e a inquietação revela onde a caridade ainda não se enraizou.
O desgaste das três virtudes teologais
O sermão passa então ao dano, e organiza-o pelas três virtudes teologais, uma a uma. É a parte mais didática da pregação.
Sobre a terceira, o sermão recorre a uma tese tomista que ilumina o contraste: o êxtase é um dos efeitos do amor, no sentido literal de estar fora de si. Não é o êxtase dos místicos, mas tem o mesmo nome porque é semelhante: quem ama para de pensar em si e passa a pensar nos outros. Todo pai e toda mãe sabem o que isso significa. A ansiedade produz o movimento exatamente inverso.
E daí o pregador tira a explicação do círculo que leva ao abatimento: quem pensa em si o tempo todo antecipa problemas possíveis, e a presença imaginária de um mal causa tristeza; habituando-se a isso, constrói um medo e uma tristeza crônicos. A observação de bom senso que ele acrescenta vale por um remédio: a maior parte dos problemas que imaginamos não acontece, e quando acontece não é do jeito que imaginávamos.
O dano à oração, e os escrúpulos
A oração pede silêncio interior, e a ansiedade produz ruído constante na alma. Daí o diagnóstico mais cortante do sermão: um católico ansioso reza, mas não está na oração; está no problema que quer resolver. A oração fica árida e cansativa, e muitas vezes se abandona a vida de piedade sob a desculpa de que não está funcionando.
O caso extremo é o escrúpulo, em que a ansiedade espiritual degenera no medo infundado de ter pecado, ou de que tudo seja pecado. E o sermão nomeia exatamente o que se perde ali: a relação filial com Deus vira relação jurídica. O católico passa a pisar com cautela, com medo, e em vez de correr na vida espiritual fica com a liberdade de filho bloqueada.
Os remédios
A tradição não apenas diagnostica: dá remédio. E o remédio de fundo é um só, colocar ordem no nosso amor e abandonar-se à providência, que o sermão desdobra em duas práticas.
O paradoxo com que o sermão formula o segundo remédio merece registro: um católico adulto é uma criança. Quem quer ser maduro na vida espiritual que se torne semelhante às crianças, como o próprio Evangelho manda.
Antes disso o sermão lembra que a intuição está até nos antigos pagãos: duas coisas impedem a vida feliz, o medo do que se fez no passado e o receio do que acontecerá no futuro. O que a graça faz é elevar essa sabedoria natural à ordem sobrenatural.
As regras de Santo Inácio
A última parte do sermão é a mais operacional, e o pregador insiste duas vezes que se leiam as Regras para o discernimento dos espíritos, dos Exercícios de Santo Inácio. Ele se detém em duas.
Nas pessoas que se purificam intensamente dos seus pecados e caminham no serviço de Deus de bem em melhor, o mau espírito causa tristeza, remorsos de consciência, levanta obstáculos e as perturba com falsos raciocínios, para deter o seu progresso. E é próprio do bom espírito dar coragem, forças, consolações, inspirações e paz, facilitando o caminho e desembaraçando os obstáculos.
Daí a regra prática que o sermão extrai: quando a tristeza se aproxima de alguém que estava progredindo, o inimigo está por perto. Não é apenas um fenômeno psicológico. E o exemplo dado é o mais reconhecível de todos: sair do confessionário e, logo depois, aparecer uma inquietação sem razão, que serve para tornar a confissão pesada e ir afastando a pessoa dela.
Toda proposição condicional que causa inquietação vem do demônio.
O critério é atribuído à tradição jesuítica, e a sua força está na forma gramatical. Será que eu me confessei bem? E se eu tiver vocação? Será que casei direito? Será que vou perseverar? Todas são condicionais sem objeto determinado. E o contraste é o teste: a graça e o anjo da guarda são nítidos e transparentes. Diriam, com nome e sobrenome: você não se confessou bem porque escondeu tal pecado, sabendo o que devia dizer.
Em tempo de desolação, nunca mudar os propósitos tomados em tempo de consolação. O capitão do navio não muda a rota durante a tempestade: mantém a linha que demarcou um instante antes de ela começar. E a primeira coisa a fazer é esperar, porque vai passar.
O sermão observa que uma das especialidades do inimigo é fazer crer que aquilo é definitivo, que agora está tudo terminado e estragado. O anjo da guarda diz o contrário, e o pregador redefine o que é consolar: não é dizer coitado de você, é dizer olhe para a frente, aguente um pouco e cumpra o seu dever. E cita o caso de um sacerdote que aos dezessete anos quis abandonar o seminário, e só é sacerdote hoje porque o confessor aplicou a quinta regra e mandou esperar.
A trilha estreita
O sermão fecha com uma imagem que atribui a uma pessoa sábia, e que inverte o sinal das dificuldades. Uma trilha no mato até uma cachoeira é estreita, fechada, escura, cheia de espinhos e de raízes; obriga a andar encolhido, a tomar cuidado para não se arranhar e a olhar o chão o tempo todo. E é justamente isso que mantém a pessoa no caminho, porque se fosse tudo aberto haveria a tentação de sair dele. As trilhas mais difíceis são as que levam aos lugares mais bonitos.
Ego enim scio cogitationes quas ego cogito super vos, cogitationes pacis et non afflictionis.
Eu conheço os pensamentos que tenho a vosso respeito: pensamentos de paz, e não de aflição.
E o último argumento é o de Elias no Horeb, que o sermão usa para fixar o modo como Deus se manifesta. Não estava no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo: estava no sussurro de uma brisa leve. Uma alma agitada não ouve inspirações desse calibre, e é por isso que a paz não é conforto, é órgão de percepção.
Et post ignem sibilus aurae tenuis.
E depois do fogo, o sussurro de uma brisa leve.
A definição é o que se leva: ansiedade é perda da paz interior, e a paz não é conforto, é o ambiente sem o qual Deus não trabalha e o órgão com que se ouve a brisa leve. A mecânica explica o resto, e vale decorá-la: temor do mal futuro, imaginação que o torna presente, tristeza que pesa a alma e a incha até não caber mais nada. Daí os dois critérios práticos que o sermão deixa. O primeiro é o da forma gramatical: toda proposição condicional que inquieta vem do inimigo, porque a graça é nítida e diz o nome da coisa. O segundo é o da quinta regra: em tempo de desolação não se muda o que foi decidido em tempo de paz, e a primeira coisa a fazer é esperar, porque passa.
