A vida cristã como participação da vida divina
A vida cristã é participação finita, mas real, da vida de Deus: a graça é a mesma vida da glória em germe, vida eterna já começada na alma.
A vida cristã não se define primeiro por deveres ou práticas, e sim por aquilo que ela é: uma participação da própria vida de Deus, comunicada à alma pelo Espírito Santo que nela habita, merecida pelos méritos de Cristo. Participação finita, porque a criatura permanece criatura; real, porque a graça é uma qualidade verdadeiramente inerente à alma, e não uma ficção legal ou um título exterior.
Dessa definição segue-se a continuidade entre a terra e o céu. A graça e a glória são a mesma vida em estágios diferentes: o que a visão beatífica consumará, a graça já começou. Por isso a tradição chama a graça de semen gloriae, semente da glória, e diz que o menor grau de graça vale mais que todo o bem natural do universo.
Como os autores o tratam
Define a vida cristã como participação finita mas real da vida divina, dada pelo Espírito Santo inabitante, pelos méritos de Cristo; ela protege contra a concupiscência e cresce pelo mérito e pelos sacramentos. É a definição de referência do acervo.
Descreve a vida cristã como organismo sobrenatural cuja graça é participação física e formal da natureza divina, ainda que acidental e análoga: semelhança participada, como o ferro incandescente participa do fogo sem se tornar fogo.
Apresenta a vida da graça como vida eterna começada: a graça santificante é o mesmo tipo de vida que a glória, semen gloriae. Toda a obra se desdobra dessa tese, lida como prelúdio, já iniciado, da vida do céu.
Diz o mesmo em chave aplicada: a vida sobrenatural é a vida de Jesus na alma pela fé, esperança e caridade, realizando a palavra de São Paulo aos Gálatas. Distingue ainda o capital da graça habitual do exercício atual que o põe a render.
Convergências e divergências
Entre Tanquerey, Royo Marín e Garrigou a convergência é tomista e sólida: os três definem a vida cristã pela participação da natureza divina mediante a graça, com as mesmas fontes (São Tomás, São Paulo, São João). Chautard é a voz pastoral do mesmo dogma: não acrescenta tese, traduz a doutrina em vida, para o apóstolo tentado a agir sem interioridade. Não há divergência real neste verbete.
Semen gloriae
Semente da glória: a graça é a mesma vida da glória, já começada.
Vivo autem, iam non ego: vivit vero in me Christus.
Vivo eu, já não eu: é Cristo que vive em mim.
A graça é a vida eterna já começada na alma; todo o resto da vida espiritual é o crescimento dessa semente.