A natureza da perfeição cristã
A perfeição cristã consiste essencialmente na caridade, não nas obras exteriores. Sobre a sua plenitude os autores dividem-se: exige ou não o estado místico?
É o verbete nuclear dos fundamentos, e também o de maior atrito real entre os autores. Scupoli abre o Combate Espiritual desfazendo o equívoco mais comum: a perfeição não está nas penitências, nas longas orações vocais ou nas observâncias, todas boas em si, mas apenas disposições ou frutos. Ela consiste em conhecer a infinita grandeza e bondade de Deus junto com a própria miséria, em amá-lo e desprezar-se, em renunciar inteiramente à vontade própria para seguir a de Deus, com um único fim: agradar-lhe.
Os sistemáticos dizem o mesmo em linguagem de escola, com São Tomás: a perfeição consiste principal e essencialmente na caridade, o amor de Deus e do próximo por Deus, que São Paulo chama vínculo da perfeição. O grau requerido não é a impecabilidade, condenada como erro, e sim uma caridade firme, que evite até o pecado venial deliberado. E porque a natureza é decaída, não se ama a Deus sem lutar: amor e sacrifício andam juntos nesta vida. Pollien acrescenta uma precisão do registro ascético: a perfeição está na retificação da intenção, em pôr a glória de Deus em primeiro lugar em todos os atos, e não no acúmulo de privações.
Como os autores o tratam
A definição prática que abre a obra: conhecer a Deus e a própria miséria, amá-lo e odiar-se, renunciar à vontade própria só para lhe agradar. Como a natureza tende sem cessar ao mal, essa perfeição só se alcança por guerra contínua contra si mesmo.
A tese tomista: a perfeição consiste essencialmente na caridade, e exige caridade firme que evite mesmo o menor pecado deliberado, sem exigir impecabilidade nem amor infinito. Registra as duas ênfases de escola sobre amor e renúncia, e cita São Bernardo: a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida.
A caridade cai sob o preceito supremo do amor, como fim ao qual todos devem tender, e não como mero conselho de supererrogação. E a tese própria: a plena perfeição não se alcança sem as purificações passivas dos sentidos e do espírito, que são de ordem mística.
A perfeição consiste principal e essencialmente na caridade, verdade que ele dá como próxima da fé. E o corolário de escola, formulado em conclusões numeradas: como as virtudes só atingem a plenitude sob a moção dos dons, a perfeição cristã completa é impossível fora do estado místico.
Convergências e divergências
Sobre a essência, a convergência é completa: a perfeição é a caridade, e as obras exteriores são disposições ou frutos. Scupoli o diz na linguagem do combate, os sistemáticos na da Suma, Pollien na da intenção retificada. A divergência decisiva está na plenitude: Garrigou e Royo Marín sustentam que a perfeição plena é impossível fora do estado místico, porque exige purificações que só Deus opera passivamente; Tanquerey é mais reservado; Scupoli, Faber e Pollien operam num registro ascético que nem sequer formula a questão.
Nota do editor: a tese de que a perfeição plena exige o estado místico é posição da escola tomista de Garrigou-Lagrange e Royo Marín (linha de Arintero), ligada à controvérsia sobre o chamado universal à contemplação infusa, na qual Tanquerey expõe as duas escolas sem decidir (n. 1553 a 1568). É a principal controvérsia de escola do acervo: posição defendida, não doutrina definida.
Super omnia autem haec: caritatem habete, quod est vinculum perfectionis.
Acima de tudo isto, tende a caridade, que é o vínculo da perfeição.
A perfeição consiste na caridade; penitências, métodos e obras exteriores são disposições ou frutos, nunca a essência.