A graça e o organismo sobrenatural
Da graça santificante, princípio vital da alma, brotam as virtudes infusas e os sete dons do Espírito Santo: um organismo completo, dado no batismo e destinado a crescer inteiro.
A vida sobrenatural não é um conjunto solto de auxílios; tem a estrutura de um organismo. Como no organismo natural há um princípio de vida, faculdades e operações, assim no sobrenatural: a alma é o sujeito, a graça santificante é o princípio formal, as virtudes infusas e os dons são as faculdades, e os seus atos são as operações. A graça não destrói a natureza; eleva-a.
A graça habitual é uma qualidade sobrenatural inerente à alma, princípio vital que deifica sem igualar a Deus. Dela brotam as virtudes infusas, teologais e morais, e os sete dons do Espírito Santo, que tornam a alma dócil à moção divina como as velas dispõem o navio ao vento. A graça atual, por fim, põe todo esse organismo em ato: sem a moção divina, nenhum ato salutar é possível.
Como os autores o tratam
A graça habitual como princípio vital deificante, qualidade sobrenatural inerente à alma; dela brotam as virtudes infusas e os dons, e a graça atual põe tudo em ato, sem nos igualar a Deus.
Desenvolve o paralelo com o organismo natural e a imagem do ferro incandescente, que participa do fogo sem deixar de ser ferro. A graça faz filhos adotivos por adoção intrínseca, justos e templo vivo da Trindade.
Da graça, recebida na essência da alma, brotam virtudes e dons como funções subordinadas de um só organismo, que deve crescer até o céu. É dele a imagem dos dons como velas ao vento do Espírito.
Convergências e divergências
Verbete tipicamente tomista e quase unânime: os três sistemáticos ensinam a mesma doutrina, com as mesmas imagens e a mesma fonte na Suma. Pollien e Scupoli não o desenvolvem tecnicamente; pressupõem a doutrina e trabalham no plano prático. Faber toca o tema pelo avesso, na advertência contra a superstição sobre a graça (cap. II): imaginar que a graça age como um talismã, sem a cooperação da vontade resoluta, quando já temos mais graça do que aquela a que correspondemos.
A graça nada mais é que certa semelhança participada da natureza divina.
Uma só vida desdobrada em faculdades: a graça é o princípio, as virtudes e os dons são os membros, e nada nesse organismo cresce separado.